Isabel dos Santos recebeu quase 30 propostas para a aquisição da empresa que define como “um caso de sucesso”. A Efacec. Tanto sucesso que, no final e de acordo com a estratégia da Procuradoria-Geral da República do MPLA (Angola), os angolanos vão continuar com a barriga (ainda) mais vazia, e os seus proprietários continuarão a cantar e a rir num qualquer paraíso, fiscal ou não.

Isabel dos Santos defende o sucesso da Efacec e sublinha que está “impossibilitada de poder ajudar”. Em comunicado emitido em nome da accionista Winterfell, tendo em conta as notícias sobre a aquisição da empresa, a empresária confirma que já recebeu “quase 30 propostas de interesse para a sua aquisição” e garante que vai pedir responsabilidades “a todos aqueles que permitiram tamanha injustiça”.

(Justiça é coisa que a Angola do MPLA não sabe o que é. Aliás, o melhor paradigma disso é que, por regra, até prova em contrário todos somos… culpados. Por alguma razão, cá ou no estrangeiro, os que escrevem para o Folha 8 estão, a pedido da PGR do MPLA, no radar das diferentes autoridades judiciais…)

No documento enviado às redacções, a Winterfell começa por referir que, depois do processo de aquisição da Efacec ao Grupo José de Mello e à Têxtil Manuel Gonçalves, “a 13 de Novembro de 2015, o Banco de Portugal elaborou e emitiu uma nota oficial sobre o resultado do inquérito ao investimento realizado pela empresária Isabel dos Santos na Efacec e, conforme o registo oficial, afirmou que não encontrou qualquer irregularidade, não houve qualquer branqueamento de capitais e considerou que o investimento na Efacec foi feito com transparência”.

Na verdade, embora possa não ser o caso, qualquer veredicto do Banco de Portugal é suspeito, desde logo porque é um organismo político-partidário que por norma não vê, não ouve e só fala para ser a voz do dono.

Isabel dos Santos acrescenta que “é falsa a informação de que o Ministério Público português arrestou os bens de Isabel dos Santos em Portugal no âmbito do inquérito em que está a ser investigada a compra da Efacec, em 2015, pois a Engª Isabel dos Santos nunca recebeu comunicação alguma nesse sentido.”

E nem tem que receber. Aliás, basta ver quem foram os professores, mentores e educadores (da então classe operária) da rapaziada que domina Angola há 45 anos. Basta ver como se (com)portou a dita justiça portuguesa no “irritante” caso de Manuel Vicente.

Sobre a questão do arresto dos bens de Isabel dos Santos, o comunicado adianta ainda que “até à data, e apesar de terem passado cerca de seis meses, o Ministério Público português ainda não informou a Engª Isabel dos Santos nem os seus advogados das razões substanciais dos inquéritos ou processos referidos nas notícias”.

Provavelmente o Ministério Público português está à espera de “instruções” do seu homólogo do MPLA para se explicar. E a resposta ainda não chegou porque, no âmbito da dita separação de poderes, a PGR do MPLA aguarda “instruções superiores” das três entidades que mandam no país: Presidente do MPLA, Presidente da República e Titular do Poder Executivo.

A Winterfell entende que, “apesar de falsas denúncias feitas às autoridades, com a intenção de criar suspeição e promover abertura de inquéritos, e algumas respaldadas por interesses financeiros de grupos económicos com fim de desvalorizar o activo da Efacec, a verdade é que a compra da Efacec foi transparente” e foi “escrutinado e autorizado pela Autoridade da Concorrência, pelo Ministério da Economia de Portugal, licenciado pelo Banco Nacional de Angola, escrutinado por vários bancos portugueses, entre os quais a Caixa Geral de Depósitos, e a origem dos fundos foi verificada pelo Banco de Portugal.”

Depois de esclarecer a sua posição na aquisição da empresa, Isabel dos Santos defende então a Efacec, que entende ser “um caso de sucesso”:

“Quando foi comprada, a Efacec estava praticamente falida e nos últimos anos teve os seguintes resultados: fechou 2018 com lucros de 14,1 milhões de euros, mais 83% do que no ano anterior, e vendas de 433,2 milhões, mais 1,5 milhões do que em 2017.”

É com base nestes resultados que Isabel dos Santos justifica ter “recebido quase 30 propostas de interesse para a sua aquisição. Houve uma recuperação económica e financeira da empresa em novos mercados, novas encomendas, parcerias internacionais e tem vivido um ambiente estável, de paz social, tendo sido salvos 2.500 empregos”.

A empresária angolana, que tem estado no centro do caso Luanda Leaks, adianta que investiu 195 milhões na Efacec, com “recurso a financiamentos bancários por parte da Winterfell2 no montante de 120 milhões de euros e da Winterfell industries no montante de 40 milhões de euros, bem como de capitais próprios da Eng.ª Isabel dos Santos, no montante de 35 milhões de euros” e acusa as “falsas denúncias, seguidas pelas trágicas decisões das autoridades judiciárias portuguesas e angolanas” de estarem a “provocar uma situação insustentável numa das empresas mais relevantes do tecido empresarial português.”

“Apesar de ser completamente inocente dos ataques que me fazem, decidi sair para defesa da própria reputação da Efacec. Por muito que me custe olhar para o que pode ser o desmembramento da Efacec, estou totalmente impossibilitada de poder ajudar por me ver arrastada para um amontoado de processos judiciais repletos de falsidades e assentes em documentação forjada, num caso claro em que uma Justiça de um Estado de Direito se deixou ser enganada ou, por qualquer obscura razão, quis ser enganada. Quando a verdade for reposta teremos que exigir responsabilidades a todos aqueles que permitiram tamanha injustiça, não só contra mim, mas também contra todas as centenas de famílias que lutam pela vida e crescimento da Efacec e que virão inevitavelmente a ser prejudicadas”, afirma a empresária, a concluir.