Os activistas (tão angolanos, pelo menos, como João Lourenço) Hitler Tschikonde e Nuno Dala, que integraram o grupo conhecido como 15+2, recordaram o dia em que foram detidos, há cinco anos, afirmando que as razões da luta se mantêm porque Angola continua “refém do MPLA”.

“T ranscorridos 5 anos, temos de questionar: o que mudou em Angola? Ou seja, as razões que nortearam os 15+2 continuam actuais ou foram dissolvidas?”, questionam os dois cientistas sociais numa carta aberta a todos quantos, em Angola e no mundo, não têm o cérebro no local em que o MPLA gosta que eles o tenha, o intestino grosso.

Os 17 activistas angolanos (será que o MPLA prefere chamar-lhes afro-angolanos?) foram acusados de prepararem um golpe de Estado contra o Governo do MPLA de José Eduardo dos Santos (que tinha como ministro da Defesa João Lourenço) e julgados na filial do MPLA, o tribunal Provincial de Luanda.

Cinco anos depois, Hitler Tschikonde e Nuno Álvaro Dala analisaram o que mudou, ou não, neste período em termos do enquadramento político, economia e condições de vida, direitos liberdades e garantias, liberdade de imprensa, administração da justiça e serviços de segurança do Estado, concluindo que a situação se mantém idêntica em vários aspectos no governo de João Lourenço, que sucedeu a José Eduardo dos Santos em 2017, por escolha e imposição deste.

Os activistas sublinham que o MPLA se mantém no poder há quase 45 anos, apontam a prolongada crise económica em que Angola continua mergulhada e assinalam que, após alguma abertura entre Setembro de 2017 e 2018, se assistiu ao retorno da repressão policial às manifestações. Ou seja, o Folha 8 teve razão (mais uma vez) quando disse logo em Setembro de 2017 que não há jacarés vegetarianos.

Quanto à administração da Justiça “o escândalo é o mesmo”, criticam. “Recentemente, o Tribunal Constitucional, por exemplo, inviabilizou o projecto político-partidário PRA-JA por manifesta orientação política. Por outro lado, as acções levadas a cabo pela Procuradoria-Geral da República e pelos tribunais, traduzidas na prisão, julgamento e condenação de uns poucos criminosos, não passam essencialmente de operações que se enquadram na estratégia de regeneração útil do MPLA, para garantir a sua sobrevivência”, refere a carta, na qual os activistas lamentam também a actuação das forças de repressão (ditas de segurança) “que já fizeram mais vítimas mortais do que o coronavírus”.

Segundo os activistas, o simulacro de ímpeto reformista de João Lourenço, que tomou posse a 26 de Setembro de 2017, como Presidente de Angola, não passou de uma farsa.

“O combate contra a corrupção e o repatriamento de capitais são uma farsa. Uma mentira política com vista a ludibriar a opinião pública nacional e internacional”, salientam os dois cientistas sociais.

“Transcorridos cerca de três anos [desde a chegada de João Lourenço ao poder], ficou evidente que ‘corrigir o que está mal e melhorar o que está bem’ [o lema da campanha do Presidente angolano, “eleito” muito antes das “eleições”] não passa de um processo em que o objectivo cardeal não é a viabilização do País, mas, sim, a manutenção do MPLA no poder. Por alguma razão se calcula que o MPLA só deixará de ser Poder daqui a 55 anos, exactamente quando comemorar o centenário…

Para Hitler Tschikonde e Nuno Álvaro Dala mantém-se, por isso, actuais os motivos que levaram os 15+2 a reunir-se:

“De Junho de 2015 a Junho de 2020, passados 5 anos, o MPLA continua no poder, Angola continua refém do MPLA, a crise económico-financeira continua e segue pior, os angolanos continuam a viver em condições de vida apocalípticas, os direitos, liberdades e garantias continuam a ser violados, enfim, a tragédia é total”, dizem os activistas como, aliás, dirá qualquer angolano que não tenha de se descalçar para contar até 12.

A Síndrome do MPLA (versão angolana da Síndrome de Estocolmo) está a funcionar bem e mais uma vez dá os resultados esperados. Ou seja, o estado psicológico dos angolanos (sobretudo dos 20 milhões de pobres, quase escravos), depois de tantos anos submetidos a um prolongado estado de escravidão, começam a mostrar simpatia, ou até mesmo amor, pelos carrascos.

Para os dois activistas “João Lourenço não está à altura das encomendas, ou seja, foi uma substituição do mesmo pelo mesmo” e o MPLA não é a solução, e sim o problema do povo angolano.

“É chegada a hora de tomarmos consciência e pormos fim à ditadura do MPLA que já dura há 45 anos”, apelam, sublinhando que os 15+2 foram detidos, julgados e condenados porque estavam a idealizar, conceber e a projectar a génese das bases de um movimento político que poria fim ao regime do MPLA sem recurso à violência.

No dia 20 de Junho de 2015, 13 jovens activistas foram detidos na sala de aulas do Instituto Luandense de Línguas e Informática (ILULA).

O décimo quarto (Domingos José João da Cruz) foi detido no fim do mesmo dia, em Santa Clara (Cunene), e, a 24 de Junho, o décimo quinto (Osvaldo Sérgio Correia Caholo) foi detido na Centralidade do Sequele (Luanda).

As activistas e defensoras dos direitos humanos Laurinda Gouveia e Rosa Conde também foram acusadas, mas não foram detidas.

Em 28 de Março de 2016, o Tribunal Provincial de Luanda condenou os 15+2 a penas entre dois anos e três meses a oito anos e seis meses de prisão para os supostos crimes de actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores.

Em 29 de Junho do mesmo ano, o Tribunal Supremo em Luanda determinou a sua libertação com termo de identidade e residência.

Folha 8 com Lusa