Ontem ao passear os olhos pelas notícias de Angola numa conhecida página da internet vi-me perante um título brutal “Jovem assassinada no Mussulo”. Uma jovem estudante de engenharia em Inglaterra que se tinha deslocado à sua terra de origem para passar as férias de Natal e de Fim de Ano com a família, foi brutalmente esfaqueada por um bando de cinco facínoras, só porque não esteve disponível para satisfazer os seus instintos animalescos.

Por Carlos Pinho

E assim se destrói uma vida e se despedaça uma família. E assim mais uma vez se constata que a mulher em Angola é apenas objecto para os instintos mais baixos de algumas bestas de duas patas.

Não vale a pena virem com argumentos de que o que se passou é apenas um caso como muitos semelhantes que ocorrem pelo mundo afora. Com o mal dos outros posso eu bem. O que me angustia é que na minha terra isto continue a acontecer, ou seja, a besta está mesmo à nossa porta.

A minha filha mais nova, que esteve a leccionar numa escola particular em Angola, durante três anos lectivos seguidos, passou há cerca de quatro meses, juntamente com uma colega, por uma situação que poderia ter tido o mesmo resultado. Foram atacadas na rua por um bando de patifórios com intenções de cariz sexual. Com elas correu tudo bem, lá se conseguiram livrar da pandilha, era de dia e em plena via pública, numa cidade do sul do país. Mas poderia ter corrido mal. Para a minha filha e colega, foi a gota de água que transbordou do copo, e decidiram abandonar o país.

Do que tenho sabido, tratam-se de situações recorrentes, mulheres jovens em locais públicos são objectos sistemáticos de insultos e assédio sexual. E no caso de serem brancas os insultos são mais do que recorrentes. Isto é a Angola de hoje! Pelos vistos não melhorou nada relativamente ao tempo colonial. Quiçá, piorou.

Vão dizer que se trata de um problema de ordem pública. Sim e não só! Há mais do que falta de ordem pública, há essencialmente um problema de falta de cultura cívica e de aceitação da diferença.

Sim, eu já sei que no tempo colonial houve em relação às mulheres negras e mestiças, por parte dos homens brancos, maus usos e piores abusos, mas havia quem, na última década desse período, tentasse pôr cobro a tal situação, aliás com bastante sucesso. Mas se houve uma revolução com o objectivo de se mudar tal modus operandi, e que levou à independência de Angola, não se percebe porque, passadas mais de quatro décadas, a situação tenha piorado.

Ora, o agravamento da situação é da responsabilidade de quem governa o país vai para mais de quatro décadas. Se da parte dos dirigentes do país fica a ideia de que este é uma coutada para uns quantos, de que o saque despudorado e desenfreado é moeda corrente e que a mulher, vulgo gado que pertence a uma classe de bens supostamente transaccionávies, é objecto de saciação para os machões, seja a que preço for, então não admira que os jovens, criados neste caldo cultural ajam de faca na mão.

O roubo que parece estar institucionalizado em Angola, não se refere unicamente aos valores materiais e financeiros, mas também aos valores morais. Tudo se subtrai, desde que quem o faça tenha a pseudo-autoridade que lhe é conferida pela pertença ao partido do governo, a famílias ditas poderosas ou a gangues (generais e quejandos) que sentem que podem actuar impunemente.

Essa cultura da impunidade faz com que sempre que um tribunal resolva agir, apareçam protestos chorosos daqueles que vêm as suas prerrogativas, até então históricas, em cheque. E há choros e queixas nos meios sociais. Mas ninguém se lembra daquilo que foi roubado, o dinheiro do povo, a vida de uma mulher, seja lá o que for.

Lá dizem os brasileiros, viúvo é aquele que morre, não é aquele que fica. Os vivos cá vão ficando e cá vão se safando, mesmo que chorando lágrimas de crocodilo.

Quanto a mim o que me deixa lágrimas nos olhos, e não são certamente de crocodilo, é deixar de ver uma vida com futuro, porque alguém a destruiu estupidamente (outro episódio semelhante ocorreu na mesma noite em Malanje), assim como o permanente ecoar dentro da minha cabeça, das frases da minha filha mais nova, ao explicar-me a sua decisão de deixar Angola:

– Não vale a pena, pai. Aquilo não tem conserto. É gente que não presta!

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