No dia 19, pelas 19H00, no Camões/Centro Cultural Português, em Luanda, será lançado o romance “Se os ministros morassem no muceque”, do escritor José Luís Mendonça. Trata-se de uma versão reformulada do romance “O Reino das Casuarinas”, lançado em 2014.

Por esse facto, o autor introduziu na obra a seguinte Nota Explicativa: “Quando, em 2014, o crítico literário Rodrigues Vaz escreveu a sua recensão sobre o meu primeiro romance “O Reino das Casuarinas” e o chamou de “uma estreia ambiciosa”, disse que efectivamente, este é um romance ambicioso, talvez demasiado ambicioso. José Luís Mendonça quis abarcar nele muitas coisas, demasiadas coisas, e será esse o seu único defeito”.

“Acatei o conselho do meu grande amigo Rodrigues Vaz. Voltei a mexer na obra e expurguei-a de muitas cenas e pensamentos que extravasavam sobremaneira o objectivo central da mesma, que era mostrar um período crucial da História de Angola, vivida por um cidadão comum e como a disputa política nesse período afectou dolorosamente uma geração completa de angolanos e mudou para sempre o curso normal da vida do país.

“Ficou intacta a utopia dos deserdados da Ilha de Luanda. E entram nesta nova narrativa acontecimentos e descrições de factos históricos omitidos na anterior, escrita ainda num tempo de excessiva auto-censura. A nova obra sai com o título inicial que havia criado em Paris, onde a escrevi, de 2010 a 2012 e, como verá quem a ler, está mais enxuta e mais fácil de seguir-lhe o fio à meada”.

Trata-se de um romance histórico com duas histórias narradas em paralelo. A do narrador auto-digético, Nkuku, que conta a sua experiência traumática desde o início da luta de libertação, em 1961, até 1987, e a história da fundação na Floresta da ilha de Luanda de um Reino, cuja população é composta por sete deficientes mentais (vulgo malucos), governados por uma mulher, a Rainha Eutanásia.

Segundo o autor, “Parece que virar maluco pode ser uma estratégia de sobrevivência humana perante os lobos do próprio homem. Este livro é uma homenagem a essa classe de sombras que ninguém vê passar no tempo”.

Um dos personagens centrais é o Primitivo, que tenta, em vão, resgatar valores e verdades ideológicas. Outro personagem é o gato Stravinsky, com particulares dotes musicais. A acção desenrola-se em vários cenários, entre a ex-Alemanha Democrática e Angola dos anos 80, na época em que se iniciava a reestruturação da economia angolana, no quadro do Programa SEF (Saneamento Económico e Financeiro).

Chamado a dar o seu contributo às teses do SEF, Nkuku, então funcionário do Ministério das Finanças, produz um ensaio intitulado “Se os Ministros Morassem no Muceque”, que lhe valeu ter sido despromovido.

José Luís Mendonça considera que “o registo histórico que a obra fixa é essencial para contrariar o branqueamento do passado, elevando a heróis as vítimas e o homem anónimo”. Considera ainda que “A localização espacial do Romance na Floresta da Ilha é um planfleto contra a destruição ecológica da Ilha de Nossa Senhora do Cabo. É uma homenagem às casuarinas, essas belas árvores coníferas da nossa terra”.

José Luís Mendonça nasceu em Angola, em Novembro de 1955, na Comuna da Mussuemba, Município do Golungo Alto. Licenciado em Direito, jornalista e poeta. Director e Editor-Chefe do Jornal CULTURA, quinzenário angolano de Artes & Letras.

Tem uma vasta obra de poesia e prosa publicada e já conquistou vários prémios, designadamente, Prémio Sagrada Esperança, em 1981. Prémio Angola Trinta Anos, em 2005. Prémio Notícias Gerais da Lusofonia – Concurso CNN Multichoice Jornalista Africano, em 2005. Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Literatura, pela singularidade do seu estilo e valor cultural das temáticas tratadas, em 2015.

Recorde-se que no dia 15 de 2018, na Livraria Flâneur, no Porto (Portugal) foi apresentada a S/Cismo, Fanzine comemorativa dos 70 anos do TUP – Teatro Universitário do Porto. A publicação contou com o contributo de 33 autores de diversos pontos do mundo, entre os quais o escritor e jornalista angolano José Luís Mendonça.

Registe-se ainda que Maria Eugénia Neto, presidente da Fundação António Agostinho Neto (FAAN), assinou no dia 10 de Setembro, com a FLUP – Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal), um protocolo que cria a Cátedra Agostinho Neto nesta instituição de ensino superior.

Para além de cidadãos do MPLA residentes ou a estudar em Portugal, participaram nesse evento a vice-presidente da FAAN, Irene Neto, e seus acompanhantes, membros do corpo docente e discente da FLUP, convidados e os escritores António Quino, José Luís Mendonça, Luís Kandjimbo, Cristóvão Neto e David Kapelenguela, que viajaram de Luanda expressamente para o efeito.

Esta iniciativa foi vista como mais um passo, neste caso sob a égide da FLUP, para branquear a imagem daquele que foi o genocida responsável pelos massacres de milhares de angolanos no 27 de Maio de 1977, António Agostinho Neto.