O governo do MPLA, através do ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, general Pedro Sebastião, e a UNITA chegaram a acordo relativamente ao funeral de Jonas Malheiro Savimbi. Será a 6 de Abril, se bem que a UNITA pretendia outra data, concretamente o mês de Junho.

Por Orlando Castro

Como foi revelado pelo Governo, as cerimónias fúnebres do Presidente e fundador da UNITA, também subscritor do Acordo de Alvor (conjuntamente com Agostinho Neto e Holden Roberto) não terão honras de Estado, sendo que essa distinção é uma exclusividade de que tenha pertencido ao MPLA/Estado. Convenhamos que ter honras de um Estado nado e criado à imagem do MPLA não é propriamente uma honra.

À UNITA, bem como a todos aqueles que não são submissos ao MPLA/Estado, não adianta (sobretudo depois da morte se Savimbi) dizer que o seu fundador – morto em combate, em 2002, “não foi uma pessoa qualquer”. Não foi, mas a designação (agora oficiosa por força do marketing de João Lourenço) que o MPLA lhe dá continua a ser de “adversário”, “inimigo” e “terrorista”.

Savimbi, como muito bem sabe João Lourenço, não foi, de facto, uma pessoa qualquer. Mas, ao contrário da tese do seu fundador, a UNITA de hoje tem medo de exigir que o Estado/MPLA reconheça que Savimbi não só lutou pela independência de Angola como foi signatário (entre outros) do Acordo de Alvor que levou o país à independência, pelo que – conjuntamente com Agostinho Neto e Holden Roberto – deveria figurar como um dos três fundadores do país independente.

Deveria, convém dizer, se de facto ao longo dos últimos 43 anos, Angola não fosse o MPLA e o MPLA não fosse Angola. Mas é. E se é, a UNITA prefere ser escrava de barriga cheia do que livre com ela vazia. Os restos mortais de Savimbi deveriam merecer mais respeito dos próprios dirigentes do seu partido. Em tempo útil, Savimbi bem disse: “Vocês é que estão a dormir… por isso é que o MPLA está a aldrabar-vos”.

E se antes foi o tempo dos contratados e escravos ovimbundus ou bailundos irem para as roças do Norte, agora é o enxovalho (mesmo que mitigado e maquilhado) de ser o MPLA a dizer aos dirigentes da UNITA que ou se portam como o Estado/MPLA determina, ou terão de transportar pedras à cabeça para ter “peixe podre, fuba podre… e porrada se refilarem.”

Talvez (sejamos ingénuos) os dirigentes da UNITA, a começar por Isaías Samakuva, não tenham ouvido o clamor do Povo quando Jonas Savimbi morreu: “Sekulu wafa, kalye wendi k’ondalatu! v’ukanoli o café k’imbo lyamale!”. Ou seja, morreu o mais velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados, ou ser escravos na terra que ajudaram a, supostamente, libertar.

É verdade que Savimbi nem sempre tinha razão. Quando dizia “Ise okufa, etombo livala” (prefiro antes a morte, do que a escravatura), estava muito longe de saber que a sua mensagem não faria escola entre os principais dirigentes da UNITA que, hoje, preferem a escravatura de barriga cheia e não trocam a lagosta (que o MPLA lhes dá) pela mandioca, ou farelo, que mantém milhões de angolanos mais ou menos vivos.

Segundo Alcides Sakala, o programa das exéquias do líder histórico do partido deve ser feito “num ambiente de serenidade de espírito”. Isto é, segundo Alcides Sakala, sem hostilizar o senhor colonial (MPLA), não vá ele zangar-se e – como dono do país – dar ordens para que tudo fique na mesma.

“Uma vez que o antigo presidente da UNITA não pertencia à família governamental quando faleceu, não terá honras de Estado”, justificou o ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente, general Pedro Sebastião, esquecendo-se de acrescentar que Jonas Savimbi – segundo o MPLA – também não pertencia à família angolana e não integrava a linhagem dos dirigentes impolutos, honoráveis e incorruptíveis (esses são apenas os do MPLA).

Pedro Sebastião frisou que não existem razões para se fazer paralelismos com o recente (2017) funeral de Estado do general Arlindo Chenda Pena “Ben-Ben”, antigo chefe-adjunto do Estado Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA) e ex-comandante do antigo exército da UNITA, as FALA, cujos restos mortais permaneciam desde 1998, na África do Sul.

Alcides Sakala recusou (bem dizia Savimbi que “vocês é que estão a dormir… por isso é que o MPLA está a aldrabar-vos”) comentar as declarações de Pedro Sebastião. Fez bem. As lagostas não vão faltar. Pelo menos por enquanto.

A verdade é que, desde 2002, o Galo Negro deixou de voar. O visgo do MPLA mantem-no colado às bissapas. Os angolanos de segunda, que não os seus dirigentes, estão apanhar café às ordens dos novos senhores coloniais.

Houve uma altura em a UNITA resolveu o problema do visgo. Calculou-se então que o Galo iria voar. Ledo engano. O MPLA/Estado tinha-lhe cortado as asas. Agora só falta mesmo cortar-lhe o pescoço.

De uma forma geral a memória dos angolanos, neste caso, é curta. Importa por isso ir relembrando algumas coisas, mesmo quando se sabe que se não fosse o MPLA a cortar as asas ao Galo Negro, alguém da própria UNITA se encarregaria de o fazer, quanto mais não fosse para agradar ao patrão.

E agora? Agora (e depois de ter sido assassinado por alguns dos seus próprios militares) os seus discípulos mais ilustres preferem untar o umbigo. Será que se lembram dos que só foram livres enquanto andaram com uma arma na mão?

Jonas Savimbi morreu no dia 21 de Fevereiro de 2002, em combate e às mãos de alguns dos seus antigos generais. Foi nesse dia que começou a morrer a UNITA. De morte lenta, é certo, mas igualmente (tanto quanto parece) de forma irreversível.

Talvez pouco adiante continuar a dizer que a vitória seguinte começou com a derrota anterior. Isso faria sentido se o Mais Velho ainda andasse por cá.

Terá sido para ver a UNITA a comer e calar, a ser submissa, a ser forte com os fracos e fraquinha com os fortes, que Jonas Savimbi lutou e morreu? Não. Não foi. E é pena que os seus ensinamentos, tal como os seus muitos erros, de nada tenham servido aos que, sem saber como, herdaram o partido e a ribalta da elite angolana. É pena que os que sempre tiveram a barriga cheia nada saibam, nem queiram saber, dos que militaram na fome, mas que se alimentaram com o orgulho de ter ao peito o Galo Negro.

Se calhar também é pena que todos aqueles que viram na mandioca um manjar dos deuses estejam, como parece, rendidos à lagosta dos lugares de elite de Luanda. E esses dizem apenas (e não é pouco): Seja feita a vossa (do MPLA) vontade.

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