Não compreendo a razão pela qual as pessoas dão tanta importância às “fake news”, sobretudo as que circulam nos esgotos imundos e profundos das redes sociais, nas revistas cor-de-rosa e nas gazetas de natureza mais tablóide.

Por Brandão de Pinho

Verdadeiramente um cidadão leitor deveria saber que uma noticia só é fidedigna se confirmada pelos seus órgãos de comunicação social de referência, devendo ter uma atitude o mais céptica possível e na razão directa da confiabilidade do órgão do qual bebe a informação, não esquecendo de lhe dar os devidos descontos em função do seu posicionamento editorial – expresso ou implícito – e jamais abdicando de princípios elementares de bom senso como sejam a plausibilidade, a verosimilidade e todos os demais factores contextuais, até porque se há uma notícia esta há-de ter sido escrita por alguém, a mando ou pedido de outrem, num determinado tempo e num espaço específico.

Se pensarmos um pouco, não será difícil de perceber que uma “fake new” mais não é do que um boato, que de uma plataforma oral e restrita é transplantado numa dimensão escrita, global e eterna e vou dar um exemplo retratando uma situação típica que decorria na minha aldeia no lavadouro público. Esse polo comunitário outrora era um reduto absolutamente feminino e de extrema importância sócio-cultural pela condição perfeitamente subalterna e diminuída que era atribuída às mulheres que inclusivamente tinham sérios entraves em encontrar estratégias para trocar ideias com as suas semelhantes.

A minha mãe – que certamente pertenceria ao rol mas que tinha uma obsessão quase doentia imposta pela minha avó de ter a língua curta e fugir da difamação – chamava-as de mulheres do soalheiro (ainda que pronunciasse “sólheiro”) e o mecanismo quando alguém queria difundir uma “Fake New” (a partir de agora vou usar maiúsculas das iniciais desta expressão) processava-se em 5 fases:

1.ª – Alguém pretendia determinado objectivo, por exemplo, difamar alguém para satisfazer um desejo de vingança e contactava um intermediário que, digamos, não tivesse uma ideia da factualidade demasiado escrupulosa, e que, se cingisse a parâmetros pelos quais a fronteira entre realidade e ficção e entre verdade e mentira fosse muito ténue e porosa. Essa pessoa deveria todavia inspirar alguma confiança ou pelo menos a Fake New (doravante vou deixar de usar aspas) deveria inspirá-la;

2.ª – As Mulheres do soalheiro – pelo menos duas – ouviriam a notícia, toda ela envolta em cerimoniais considerações de tal forma que mais parecia arrancada a custo do intermediário e sempre a propósito de um qualquer assunto para não aparecer assim de chofre e sobretudo era-lhes pedido encarecidamente que guardassem segredo;

3.ª – Uma delas acabava por se descair – pois quando o tédio se instalava e mais nada havendo para dizer – obrigando a outra despeitada a introduzir detalhes comunicados pelo intermediário ou não, reais ou imaginários para poder compensar o impacto de estar a veicular algo que para todos os efeitos já não era em primeira-mão ou revestido de exclusividade;

4.ª – Invariavelmente as mulheres guardavam o momento oportuno para contar aos seus cônjuges – uma versão quitada e rendilhada de detalhes conformes as circunstâncias e as capacidades literárias de cada uma – talvez numa situação em que anteviam um episódio de fúria a que se seguiria não poucas vezes insultos verbais para não falarmos de violência física. Convém não esquecer que era há 40 anos num Portugal rural, pobre e ignorante… como o de hoje, talvez;

5.ª – Os homens, esses sim, seriam efectivamente os principais e mais maldosos veiculadores desse boato e a quem este se destinava – conhecida a sua apetência para a má-língua – apesar de não terem propriamente essa fama.

Posto isto, estranho será que esta tendência tão intrinsecamente humana – numa combinação de mexerico com maldade pura, e, inocente e ingénua, expressa no desejo incontrolável e insaciável de difamação – nesta era digital, e, com as ferramentas de informação e tecnológicas apuradas, não fossem aplicadas através de todos os meios e sem princípios – segundo os quais pudesse haver algum tipo de limite que ao menos limitasse os danos a terceiros – como se passa com as Fake News, já que nos boatos de antanho havia uma espécie de moralidade e decência quer na questão de número que de grau. Uma ferramenta destas então, tão poderosa, eficaz e tão imunda, torpe e asquerosa a quem é que poderia dar reais vantagens senão aos políticos? Sobretudo quando eleições e plebiscitos estão em causa.

Brexit, Trump, Bolsonaro e a quase independência da Escócia e antes se calhar, Poroshenko na Ucrânia, que nem sequer sabia falar ucraniano e que talvez tenha sido o balão de ensaio para a Rússia começar a desenvolver esta ferramenta e dessa forma proteger os seus interesses de acordo com os seus princípios e daquilo que entende por interesses seus.

Mas não caiamos na tentação de achar que a maior e mais robusta democracia do mundo e o contra-poder tradicional e natural da Mãe-Rússia não comunga da mesma ideologia e não use – ainda que talvez mais subtilmente- métodos análogos.

Basta ver que não só agora como na era “pré-internética” as candidaturas presidenciais americanas estoiravam mais dinheiro em anúncios televisivos para difamar e denegrir os opositores -ainda que a mensagem não sendo de todo falsa era falaciosa, tendenciosa e descontextualizada – do que para promover o seu candidato.

Já Benjamim Franklin – por falar em presidentes gringos – disseminou noticias falsas sobre índios assassinos para manipular a opinião pública no sentido dos seus interesses políticos, talvez inspirado pela eficácia dos panfletos antes da Revolução Francesa sem a qual não teria havido Revolução Americana, e, indo um pouco mais atrás na história, o próprio Marco António foi intencional e falsamente informado de que Cleópatra havia morrido tendo-se suicidado como – talvez não sendo de todo o expectável – poderia acontecer.

Mas concentremo-nos no Quadrado Austral. O Folha 8 é o melhor e mais importante jornal de Angola, ponto. Carrega sobre as vértebras do pescoço – mais do que Atlas – o fardo de ter de ser em simultâneo a oposição que Angola não tem, ponto; de ser praticamente o único órgão de comunicação que reúne ao mesmo tempo independência, qualidade, profundidade e muitas mais coisas que a preguiça que agora se me acomete me impede de enunciar (pensar e reflectir dá trabalho), ponto; e de ser a última e estratégica reserva moral de todo um povo, ponto.

Não é à toa que o Folha 8 não é convidado para iniciativas ou incluído em concursozinhos de faz-de-conta de voto popular como foi expresso num seu recente artigo no F8.

Um dia destes, no jornal que vende mais em Portugal, apesar de ser conotado como tablóide, de forma quase imperceptível mas sempre sem pedir desculpas a um visado e muito prejudicado de quem falsamente escreveram, foi publicado que “a sua fonte fidedigna” e “que não podem revelar” afinal “se havia enganado” pelo que a notícia de que um determinado jogador de futebol “tinha sido pago para prejudicar deliberadamente a sua equipa era falsa”. Ao que parece não é só no Girabola que há corrupção ainda que neste caso os seus dirigentes sejam descarados fruto talvez do sentimento de impunidade que grassa em Angola. Sem dúvida que a notícia que obrigou essa insignificante correcção que referi também é uma Fake New pois a ânsia de serem os primeiros a divulgá-la fá-los esquecer os princípios mais elementares das boas práticas jornalísticas, tal como quando uma revista cor-de-rosa faz uma entrevista de duas horas e descontextualizadamente arranja uma parangona de meia-dúzia de palavras para através da capa assediar leitores a comprá-la também configurará uma Fake New, que de agora em diante irei referir através da sua sigla FN (o que é paradoxal e premonitório pois a Frente Nacional socorre-se amiúde destes expedientes).

Os governos autocráticos da primeira metade do século passado perceberam o quão importante seria ter um Ministro da Propaganda que ainda não incorrendo deliberadamente no pecado das FN’s tinha como principal função – à boa maneira lourencista – filtrar as notícias prejudiciais e passar só boas notícias (coisa que não existe pois o que é bom para uns será o contrário para outros e sobretudo será muito contrário à Verdade).

Todavia em Angola passa-se algo de original, personificado na omnipresente pessoa de João Melo, líder do Todo-Poderoso Ministério da Comunicação Social, que aqui há tempos como moderador, organizador e patrocinador e em toda a Sua omnipotência organizou uma mesa redonda – num hotel de Luanda precisamente para se debater a quadratura do círculo ou neste caso a circulatura do Quadrado Austral – e como não poderia deixar de ser a temática foi a das “Boas Notícias”, que contou com um painel de tanta alvura de três jornalistas, entre eles o angolano-português Ferreira Fernandes, director do Diário de Notícias, e o claro angolano Reginaldo Silva, mesa circular essa, que de acordo com o deputado da oposição David Mendes, mereceu uma acintosa e assertiva crítica, não pela insolente forma como Melo pretendia condicionar os jornais, mas pela alva brancura do painel. Enfim, este é o reflexo da UNITA.

Para terminar gostaria de vos contar uma coisa que li no Correio de Kianda, escrita por um eminente sociólogo e mais coisas entre as quais não a farmacologia, que insurgindo-se contra Luaty Beirão (que tenho como uma pessoa de bem, determinada, patriota, valente e íntegra por tudo, inclusivamente pelo grande rapper que foi como Ikonoklasta e que tantas vezes ouvi na rádio) publicou um interessante ensaio refutando notícias veiculadas por este último num “site” que administra em que as competências académicas do ensaísta eram postas em causa, talvez por causa da sua atitude aquando das prisões dos activistas entre os quais estava também o jornalista do Folha 8 Sédrick Carvalho – que ofuscado, tal como os outros 13, pelo excesso de protagonismo do filho do dirigente emepeliano porventura não tinha tido o destaque merecido – e que talvez tenham ajudado a pôr fim ao reinado eduardista, tal como a imolação do vendedor de laranjas tunisino fez deflagrar a Primavera Árabe.

Neste caso o profícuo e prolífero comentador e sociólogo, alegando FN’s do Luaty e alegando que nos escritos deste algumas poucas verdades metidas em muitas mentiras – como credibilizando-as e autenticando-as – o estavam deliberadamente a prejudicar, neste caso dizia, é minha intuição – e só não tenho contraditório porque esse ensaísta, qual Lutero a pregar Teses na Porta de um Igreja, não me respondeu à mensagem pela qual lhe pedi o seu ponto de vista – que, de forma brilhante João Paulo Nganga – é este o seu nome – tentou travestir notícias e factos, que eu intuo como verdadeiros, em FN’s para ele sim, poder de facto veicular as suas próprias FN’s, aproveitando e muito bem a sua capacidade intelectual superior, o protagonismo que possui e o acesso privilegiado aos meios de comunicação social que tem.

Ou seja. Tendo em conta que os leitores estão mais do que avisados para o fenómeno das FN’s e portanto mais incrédulos, Nganga perverteu completamente a lógica intrínseca do mecanismo das FN’s, alegando que verdades eram justamente FN’s propositadamente prejudiciais para consigo, sendo ele então afinal, o prevaricador e o emissor das FN’s de que se queixava.

Creio que a tendência de futuro em Angola será essa e que há muito o cientista social Chomsky denunciou no sentido em que descredibilizando alguém que diz coisas verdadeiras, já mais ninguém lhe atribuirá crédito, de tal forma que o leitor sensato e justo, verdadeiramente nunca saberá se está a ser informado ou manipulado.

De certa forma esta lógica em grande escala já foi aplicada ao longo da História, basta lembrarmo-nos da forma como soldados nazis vestidos com uniformes polacos mataram alemães étnicos da Polónia ou, mais recentemente, da forma como o supostamente independente e desorganizado exército espontâneo de russos étnicos de nacionalidade ucraniana (se bem que do rico leste) derrubou um avião com passageiros de etnia e nacionalidade russas, tendo-se fantasiado com fardas do exército ucraniano legítimo e regular, para terem o pretexto de continuar a guerra que existe há muito quase no coração da Europa para a qual somos obrigados a fechar os olhos.

Estas manobras de manipulação são o pronuncio claro de uma batalha apocalíptica e autenticamente mundial, que há-de estar para acontecer, só que agora há mais um protagonista no cenário global que é a China e claro que o Povo Escolhido de Deus não pode ser esquecido nesta equação.

Angola já tem pouco tempo para se estabilizar, fortificar-se e diversificar a sua economia; acabar com a corrupção e nepotismo e dar as condições mínimas à população; constituir umas forças armadas competentes; e mais importante que tudo, posicionar-se diplomaticamente em relação a estes blocos.

Para mim, a posição dos membros da CPLP como organização pluri-continental deveria ser unânime não em termos militares como é óbvio, mas em termos diplomáticos, para melhor protecção dos países membros e dos seus cidadãos.

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