O Governo angolano prevê começar a emitir, em breve, passaportes com medidas de segurança reforçadas, incluindo dados biométricos, informou hoje o director do Serviço de Migração de Estrangeiros (SME). Então o que era “aquilo” que o Governo noticiou em 17 de Abril de 2015 quando disse que que nesse mês as entradas e saídas do aeroporto internacional de Luanda se iria processar automaticamente, em 12 segundos, com a entrada em funcionamento, do novo sistema electrónico de controlo, incluindo os dados biométricos?

Gil Famoso (foto) falava à imprensa no final da reunião do Conselho de Defesa Nacional, orientado pelo Presidente João Lourenço, que analisou a situação política e militar do país.

O director do SME disse que será apresentada “muito em breve” a proposta de alteração da lei de passaportes, para que se evolua do documento actual para o biométrico, com maiores medidas de segurança.

“A mudança vai conter três níveis de segurança visual, verificáveis através de equipamentos electrónicos e de segurança e mediante técnicas de conformação específicas e de técnicas forenses”, explicou o responsável.

Gil Famoso garantiu que a emissão de novos passaportes não vai implicar alteração nos preços da nova taxa, fixados este ano nos 30.500 kwanzas (86 euros).

“Não há perspectivas de se elevar o preço do passaporte com a implementação do passaporte biométrico, porque o que estará em causa para a determinação da taxa são os custos de produção e tudo quanto está em volta do seu processo de produção”, frisou.

Sobre a polémica levantada à volta do aumento de preços, dos 3.000 kwanzas (8,40 euros) para 30.500 kwanzas, o responsável do serviço migratório angolano reconheceu que a subida foi “bastante acentuada” e admitiu não ter havido “uma prévia informação satisfatória”.

“Mas também reconhecemos que o valor anterior da taxa não cobria sequer o custo de produção da cédula. Julgamos que a actual taxa se adequa aos custos de produção do passaporte, aos custos de personalização e a todos os serviços para que ele chegue até ao cidadão”, referiu.

Até Janeiro, o SME tinha pendente 71.413 pedidos de passaportes ordinários, tendo de então sido emitidos 36.931 passaportes. Desde que entrou em vigor a nova taxa, no início de Fevereiro, foram recepcionados 3.984 processos de emissão de passaporte.

A mesma treta de outros tempos

A entrada e saída do aeroporto internacional de Luanda vai processar-se automaticamente, em 12 segundos, com a entrada em funcionamento do sistema electrónico de controlo, dizia o Governo do MPLA (não poderia ser outro) em Abril de 2015,

A informação foi confirmada por fonte do Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), acrescentando tratar-se de um sistema de leitura electrónica de passaportes idêntico ao já utilizado nos aeroportos em Portugal, desenvolvido pela mesma empresa portuguesa Vision-Box.

Denominado em Angola por “Passa Fácil”, o Aeroporto 4 de Fevereiro seria, foi, será (o Governo que escolha!) o primeiro a implementar o funcionamento deste serviço, estando previsto o seu alargamento posterior a outros postos de fronteira do país.

Os cidadãos angolanos, de acordo com a mesma informação, também teriam acesso à nova funcionalidade, mas neste caso ficariam obrigados a um pré-registo, uma única vez, por não possuírem passaporte electrónico.

O sistema consistia na análise dos dados do passaporte electrónico, confrontando automaticamente, no caso de estrangeiros, com o tipo de visto emitido registado na base de dados, e com a análise e comparação de dados biométricos.

“Teremos cerca de uma dezena de equipamentos [individuais e automáticos] na entrada e outros tantos na saída. O que equivale a dizer que poderemos processar a entrada e saída de dez pessoas a cada 12 segundos”, explicou a mesma fonte.

Deixaria assim de haver necessidade de contacto com agentes do SME nos actos migratórios, numa tentativa das autoridades angolanas de “desburocratizar” o processo, até então feito exclusivamente de forma manual. Esta situação provocava longas filas de espera, nomeadamente à chegada de voos de Portugal, como facilmente se observava no posto fronteiriço do aeroporto de Luanda.

Após um período de testes, o sistema entrou em funcionamento com a sua inauguração oficial, juntando-se Luanda a cerca de três dezenas de aeroportos em todo o mundo que já operam com o sistema da portuguesa Vision-Box.

Biometria também para matumbos

O ministro da Justiça e dos Direitos Humanos de Angola, Francisco Queirós, admitiu no dia 27 de Setembro de 2018, em Luanda, que milhares de crianças em Angola continuam sem registo de nascimento sendo objectivo do Governo, a “médio prazo”, inverter a situação.

Há quantos anos ouvimos estas promessas? “Xé menino”, desde o tempo do antigamente…

Em declarações aos jornalistas, no final de uma reunião que manteve com os embaixadores dos Estados membros da União Europeia em Angola, o governante referiu que decorrem trabalhos no intuito de, a médio prazo ou no final de legislatura, poder “‘zerar’ este número”.

Recorde-se que A Assembleia Nacional aprovou em 26 de Fevereiro de… 2015, por unanimidade, a Lei de Simplificação de Registo de Nascimento, o que (supostamente) impede situações de duplo registo.

Em declarações à imprensa, à saída da sessão parlamentar, o então ministro da Justiça, Rui Mangueira, disse que o diploma inovava aspectos fundamentais no processo de registo de nascimento, nomeadamente com a introdução da recolha de dados (cá está a pedra Filosofal) biométricos.

“Para evitarmos o duplo registo, que tem estado a acontecer um pouco por todo o país, por uma série de razões, através da recolha da face e da íris, para termos a certeza de facto dos dados que estamos a recolher relativamente aos cidadãos”, frisou.

Segundo o ministro, a introdução da recolha de dados biométricos facilitará igualmente o processo de obtenção do Bilhete de Identidade.

Um estudo sobre o registo civil nos municípios de Cambulo, Cuango e Chitato, concluiu que os cidadãos são obrigados a pagar até 35 euros para terem acesso ao registo ou Bilhete de Identidade, que devia ser gratuito.

Em causa estão os resultados do “Estudo de Caso sobre o Registo Civil” em três municípios da província da Lunda Norte, no leste de Angola, a mais de 1.200 quilómetros de Luanda, realizado em Outubro de 2017 pela Organização Não-Governamental angolana Mosaiko – Instituto para a Cidadania.

Folha 8 com Lusa

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