A infelicidade de dar lições e pedir aos outros para fazer aquilo que não fazemos em nossa casa: Que o Presidente da República Democrática do Congo, Felix Tchissekedi, promova a construção de uma base sobre a qual assentará uma sociedade baseada na cultura do respeito pelos direitos humanos e garanta uma paz estável para a RD Congo e para a sub-região

Por Osvaldo Franque Buela (*)

F oi assim que João Lourenço escreveu numa nota, que de alguma forma e diplomacia obriga, para felicitar o novo presidente eleito da RD Congo, pedindo-lhe para construir uma democracia plena no seu país, onde se fez representar na cerimónia de tomada de posse em Kinshasa pelo seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, uma ausência que esconde uma grande insatisfação da sua parte, no processo eleitoral de um país irmão.

Tudo o que ele escreveu na sua nota é aquilo que ele, João Lourenço, ainda não concretizou em quase dois anos de poder, e ainda não se sabe se está realmente a construir uma democracia plena em Angola, onde o Parlamento não controla nenhuma actividade do Executivo, como no passado.

Com um toque de ironia e arrependimento, João Lourenço disse na sua nota que está convencido de que Félix Tchissekedi fará tudo para iniciar um processo de inclusão de todas as forças da RD Congo na vida social do país, o que ele próprio não consegue fazer nos diferentes segmentos de poder e a administração pública, onde apenas nomeia membros do MPLA e não se compromete a resolver o problema de Cabinda através de um diálogo franco e inclusivo com todas as forças de Cabinda.

João Lourenço manifestou ainda o desejo de ver o seu homólogo congolês garantir e promover a estabilidade necessária para a edificação das fundações sobre as quais assentarão a concretização dos anseios dos congoleses à democracia plena, ao respeito pelas diferenças e observância estrita dos direitos humanos… numa clara demonstração de uma lição de política já realizada por ele em Angola.

Dar este tipo de lições políticas e de boa cidadania a um homólogo Presidente dum país amigo teria sentido se as mesmas fossem realidades da parte daqueles que as pronunciam ou escrevem, mas os presidentes da SADC demonstraram uma vez mais as fragilidades que prejudicam esta organização, onde os objectivos de desenvolvimento da comunidade e a paz social não são prioridades para seus respectivos povos.

Afirmo isto alta e fortemente com conhecimento do caso de Cabinda, caso que as autoridades desta comunidade nunca encorajaram as autoridades angolanas a resolver de uma forma democrática, com respeito pelos direitos humanos e à luz do direito internacional.

Depois do fracasso palpável da União Africana e da SADC no processo eleitoral na República Democrática do Congo, as autoridades angolanas, através do seu presidente, não tiveram outra escolha, senão reconhecer o novo presidente congolês sem qualquer interferência.

No fundo, o que preocupa as autoridades angolanas é a falta de influência e controle sobre o novo regime congolês, onde o Presidente Kabila ainda tem uma forte maioria parlamentar, e a segurança de compartilhar uma longa fronteira comum.

Para além de tudo isso, a verdadeira fronteira problemática é a fronteira com Cabinda, que ainda é um espinho na pele dos angolanos, onde tiveram o cuidado de suspender a operação de resgate para evitar o retorno de uma onda negativa.

Angola deve ter a coragem política para resolver honestamente a questão de Cabinda com os cabindas e deixar de alimentar o clima de guerra, que só afirma o crescente nacionalismo dos jovens de Cabinda, cada vez mais dispostos a enfrentar as autoridades angolanas pela luz de sua própria constituição.

Se o presidente João Lourenço seguir em frente, seguiremos em frente com ele, se ele parar vamos manter-nos firmes e se ele recuar, sempre resistiremos, porque no final o povo sempre vencera

(*) Chefe do Gabinete da Presidência da FLEC

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