Como o Folha 8 noticiou em primeira-mão, José Eduardo dos Santos deixará Luanda, não num Gulfstream da Presidência da República, mas em voo comercial da TAP que chegará a Lisboa amanhã, terça-feira, por volta das 18 horas, de onde partirá para Barcelona. A notícia fez soar os alarmes no Gabinete de João Lourenço. A Embaixada de Angola em Lisboa pediu orientações ao ministro Manuel Augusto sobre se deve solicitar apoio das autoridades portuguesas para implementar “medidas especiais” para impedir uma manifestação de apoio a José Eduardo dos Santos.

Assim, o Presidente da República tentou hoje demover, em vão, o ex-chefe de Estado José Eduardo dos Santos de viajar amanhã, terça-feira, para Espanha, via Lisboa, num voo da transportadora aérea portuguesa TAP, “contrariando diligências protocolares e logísticas”.

José Eduardo dos Santos abdicou de parte das prerrogativas constitucionais, incluídas no art.º 133.º CRA (Constituição da República de Angola), na qualidade de ex-presidente da República, face ao clima de crispação existente com o seu sucessor que após a tomada de posse resolveu, “in continenti”, declarar-lhe guerra, mesma que de forma indirecta, ao alvejar quase diariamente os membros do seu clã familiar e de alguns dos seus mais íntimos colaboradores.

Em comunicado, a Casa Civil do Presidente da República refere que a “surpreendente decisão” de José Eduardo dos Santos utilizar o voo comercial da TAP, “em detrimento da própria companhia de bandeira TAAG”, não respeita o protocolo, situação que levou o próprio João Lourenço a deslocar-se (depois do falhanço dos seus emissários enviados para convencer Eduardo dos Santos) hoje à residência do ex-chefe de Estado, em Luanda, para o demover da pretensão.

“A surpreendente decisão do ex-Presidente da República se fazer transportar em aeronave comercial estrangeira, em detrimento da própria companhia de bandeira TAAG na sua deslocação à Europa, contraria diligências protocolares e logísticas desencadeadas pelo Estado angolano nas últimas semanas, que pôs à sua disposição uma aeronave compatível com o seu estatuto”, lê-se no documento.

“Tão logo o Executivo soube da intenção, por parte do ex-Presidente da República, de rejeitar a utilização do meio aéreo contratualizado, foram accionados todos os canais de diálogo e persuasão em ordem a prevalecer as normas e os princípios de protocolo atendíveis, sem que, contudo, tais esforços desembocassem numa solução para o impasse”, acrescenta o comunicado.

“Nem mesmo depois de hoje, pelas 17:00, o Presidente da República, João Lourenço, se ter deslocado e falado com o ex-Presidente na residência deste, ao Miramar”, lê-se ainda.

José Eduardo dos Santos (Presidente de Angola entre 1979 e 2017) desloca-se a Espanha para “exames médicos de rotina” e manteve a decisão de partir terça-feira de manhã na transportadora portuguesa TAP.

“Entretanto, e respeitando em rigor o normativo que define os direitos e regalias dos antigos Presidentes da República, o Executivo assegurou todos os aspectos logísticos e financeiros relacionados com a atenção médica a que se submeterá o ex-Presidente José Eduardo dos Santos em Espanha”, acrescenta-se no comunicado.

“O Executivo lamenta profundamente tal atitude, cujas consequências não são da sua responsabilidade”, termina o documento.

A decisão de José Eduardo dos Santos cria um dado novo na já tensa relação, principalmente depois de João Lourenço o ter alcunhado, a partir do estrangeiro (Portugal), pejorativamente, como uma espécie de “Marimbondo-Mor”, logo, chefe de quadrilha dos marimbondos, conceito lourenciano que, sem grande dificuldade de interpretação, significa nessa língua vernácula, bando de corruptos, gatunos, larápios invertebrados do erário público, caricatamente, todos do MPLA, que só não levaram o país à falência total graças à chegada ao poder do actual Presidente da República, qual Messias…

Este acumular de tensão é alimentado não só pelas farpas nos discursos presidenciais, onde José Eduardo dos Santos é diabolizado como o único responsável pelo descalabro do país, mas também, com a prisão considerada arbitrária, do filho varão, Zenú dos Santos (ex-presidente do Fundo Soberano), por cerca de seis meses, pese este, antes de ser recolhido à cadeia, por alegada ordem expressa de João Lourenço ao Procurador-Geral da República, general Pitta Grós, ter procedido à devolução integral dos valores envolvidos numa operação (500 milhões de euros, como primeira tranche, de três de igual montante, mais 64 milhões, para procedimentos administrativos e financeiros viabilizadores da transacção), visando, hipoteticamente, a obtenção de um financiamento de 30 mil milhões de euros, que Eduardo dos Santos pretendia brindar como desafogo, o consulado de João Lourenço, para consolidar mais 10 anos de domínio do MPLA.

Mas, rapidamente, o sonho transformou-se em pesadelo ao invés de realidade pacífica e conciliadora, que agora serve para a destruição das bases do próprio regime.

A tal ponto que desde Setembro de 2018, que Eduardo dos Santos não teve nenhum contacto pessoal, telefónico ou escrito, com o Presidente da República, nem mesmo quando o filho definhou nas masmorras da Cadeia de São Paulo de Luanda ou devido ao exílio “forçado” de duas filhas (temendo prisões e humilhações públicas arbitrárias).

E é este passivo, ao que parece, o grande responsável, pela decisão de José Eduardo dos Santos abdicar do apoio do Protocolo de Estado, para viabilizar a sua deslocação ao estrangeiro para tratamento médico.

É o preço da manta de retalho que se transformou o regime do MPLA com os constantes tiros no pé e as humilhações internas, com o carimbo MARIMBONDOS, de João Lourenço direccionado ao seu mentor, como gratidão invertida.

Por isso, cada vez mais e de forma cada vez mais assertiva, os angolanos perguntam: Se JLo queria prender e mandar para a sarjeta todo o consulado do MPLA e na República de José Eduardo dos Santos, porque se prestou ao triste papel de o condecorar, como presidente emérito do partido governante? Porque o venerou e idolatrou perante os angolanos e perante o mundo, atá ao exacto momento em que recebeu o cajado de líder do MPLA?

Desta forma João Lourenço poderá estar a destruir as bases, já de si débeis e de desgaste acelerado, da construção de um país, para amesquinhar o “staff” de um homem, José Eduardo dos Santos, condecorado, idolatrado até à exaustão, num cinismo, afinal abjecto, antes da sua saída do palanque. Inclusão e reconciliação é exactamente o oposto de tudo isto. Isto não passa de uma tentativa, bem programada, para provocar a implosão de uma sociedade que, pela mão dos seus políticos, está a “contratar” dentistas e oftalmologista quando sabe que eles não são necessários porque, nesta mais do que provável técnica de olho por olho, dente por dente, vamos ficar todos cegos e desdentados.

Entretanto, a Embaixada de Angola em Lisboa pediu orientações ao ministro Manuel Augusto sobre se deve solicitar apoio das autoridades portuguesas para implementar “medidas especiais” para impedir uma manifestação de apoio a José Eduardo dos Santos que chega à capital portuguesa por volta das 18 horas de amanhã, terça-feira, momento em que aterra em Lisboa o voo TAP pelo qual optou viajar.

Grupos de angolanos em Portugal vêm, nos últimos tempos, recuperando afectos ao antigo presidente da República, na sequência do desencanto com a actual governação.

O ministro Manuel Augusto terá ignorado a comunicação vinda de Lisboa, até confrontar-se com um comunicado da Casa Civil dando conta da ida do próprio João Lourenço ao Miramar, residência do antigo presidente, para demovê-lo a viajar num voo regular da TAP.

Manuel Augusto terá então, à última hora, despachado para Lisboa o seu director de gabinete e o secretário-geral do MIREX, para apoiar a Embaixada a lidar com eventuais estragos causados pela viagem de José Eduardo dos Santos, nomeadamente “tomar medidas activas” para impedir manifestações de simpatias a JES.

Todo este imbróglio, voluntariamente criado, sustentado e ampliado por João Lourenço faz lembrar a fábula do sapo e dos escorpião.

Era uma vez um sapo (JES) e um escorpião (JLo) que estavam parados na margem do Rio Kwanza.
– Amigo sapo, podes-me carregar às costas para eu poder atravessar o rio? – Perguntou o escorpião ao sapo.
– De jeito nenhum. Tu és a mais traiçoeira das criaturas. Se eu te ajudar, tu vais dar-me uma picadela mortal em vez de me agradeceres.
– Mas, se eu te picar com o meu veneno – respondeu o escorpião com uma voz terna e doce -, morro também. Dá-me uma boleia. Prometo ser bom, meu amigo sapo.
O sapo concordou.
Durante a travessia do rio, porém, o sapo sentiu a picada mortal do escorpião.
– Por que é que me fizeste isso, escorpião? Agora nós dois morreremos afogados! – disse o sapo.
E o escorpião simplesmente respondeu:
– Porque esta é a minha natureza, meu amigo sapo. E eu não posso mudá-la.

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