Restos mortais de Savimbi serão exumados… um dia!

Os restos mortais do líder fundador da UNITA, Jonas Savimbi, abatido na guerra civil angolana em 2002, só serão exumados quando e se o MPLA (dono do país desde 1975) quiser, provavelmente em 2019, disse hoje o porta-voz do partido do “Galo Negro”.

[dropcap]A[/dropcap]lcides Sakala, que falava a Lusa à margem da IV Reunião da Comissão Política da UNITA, que decorre em Viana (arredores de Luanda), salientou, porém, que estão a decorrer discussões entre o partido e o Governo para a definição de um calendário para a operação.

Em Agosto, na sequência de uma reunião inédita e de propaganda entre o Presidente de Angola, João Lourenço, e o líder da UNITA, Isaías Samakuva, o chefe de Estado angolano garantiu o “empenho pessoal” para que o processo de exumação dos restos mortais de Jonas Savimbi ficasse concluído ainda este ano.

“O ano já está no fim, naturalmente. Mas o importante é que as discussões continuam. Estas condições criadas para o efeito têm vindo a aproximar pontos de vista. […] Vai-se definir um quadro de passos que têm de ser dados e pensamos que, no início do próximo ano, poderemos apresentar eventualmente um cronograma quase definitivo deste processo”, disse hoje Alcides Sakala.

E, reconheçamos, tempo é coisa que não falta. Se já lá vão 16 anos e o corpo de Savimbi continua a ser “propriedade” do Governo, também não custa esperar o tempo que o MPLA entender por conveniente.

“As duas comissões de trabalho, uma da UNITA e outra do Governo, continuam com as discussões e, oportunamente, poderemos fazer o ponto de situação”, sublinhou Alcides Sakala.

O líder histórico da UNITA nasceu a 3 de agosto de 1934, no Munhango, a comuna fronteiriça entre as províncias do Bié e Moxico, e viria a ser morto em combate após uma perseguição das Forças Armadas Angolanas (lideradas por alguns ex-generais de Savimbi) a 22 de Fevereiro de 2002, próximo de Lucusse, no Moxico, onde os seus restos mortais permanecem (na versão oficial) sepultados, à guarda do Estado do MPLA.

A exumação dos restos mortais de Jonas Savimbi insere-se – ainda segundo a terminologia oficial – no quadro da “reconciliação nacional” promovida (supostamente) por João Lourenço.

Ainda há quem pense diferente

[dropcap]N[/dropcap]o passado dia 24 de Fevereiro, centenas de angolanos (quase todos gente que, ao contrário das “ordens superiores”, pensa pela própria cabeça) prestaram homenagem a Jonas Savimbi no cemitério municipal do Luena, província do Moxico, mas a dúvida sobre se os restos mortais do líder fundador da UNITA estão mesmo naquela campa persistem, 16 anos depois.

Morto em combate naquela província do leste de Angola a 22 de Fevereiro de 2002, as cerimónias do aniversário da morte do histórico guerreiro, político e líder angolano (mesmo que o MPLA não o considere como angolano) decorreram em todo o país, mas foram mais sentidas no cemitério do Luena, onde, na versão oficial, foi enterrado, depois de ter sido abatido na mata pelas forças governamentais, no comando das quais estava o ex-Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Geraldo Sachipengo Nunda, ex-general das FALA (Forças Armadas de Libertação de Angola – UNITA).

Totalmente fechada, em cimento, e sem qualquer símbolo do partido do “Galo Negro”, a campa de Jonas Savimbi no Luena continua a ser palco de sentidas emoções. Mesmo que o local, para muitos, seja apenas simbólico, por ainda se acreditar que os restos mortais podem ter sido colocados pelo Governo do MPLA noutro local, eventualmente em Luanda.

“Sabe o MPLA se o corpo está aqui ou não. Nós aceitamos porque foi nesse local onde nos indicaram, que foi ali que sepultaram o corpo do nosso dirigente. Portanto, temos efectuado essas honras anualmente”, explicou, junto à sepultura, o “mais velho” Afonso Nzimba, brigadeiro na reforma e que combateu ao lado de Savimbi entre 1966 e 2002.

Aos 75 anos, é um dos que visita a campa do fundador da UNITA no Luena regularmente, sobretudo nos dias especiais, e ainda não esqueceu a notícia da morte: “O dia 22 de Fevereiro para mim foi um dia de grande tristeza porque vi-me isolado. E o povo angolano também”.

Liderava então operações da UNITA na região 29, no sul de Angola, quando ouviu o Governo reclamar vitória. A mesma que o brigadeiro, 16 anos depois, relativiza, emocionado.

“Ele [Governo] pensou assim, que a morte do doutor Savimbi constituiu vitória. Mas, para nós, constituiu uma grande perda, ao povo angolano. Porque até agora o povo angolano continua sem a verdadeira paz, continua na miséria”, desabafa, rodeado de outros veteranos da guerra que comparecem no cemitério do Luena, a mais de 1.200 quilómetros de Luanda, juntamente com dezenas de jovens.

Jonas Malheiro Savimbi morreu aos 67 anos, acossado por uma ofensiva das tropas governamentais, a lutar, tal como o fizera ao longo da vida, primeiro contra o regime colonial português, depois contra o imperialismo soviético através dos seus lacaios do MPLA.

Ao longo de quase 40 anos perseguiu o ideal de resgatar a etnia ovimbundo, maioritária no centro e leste de Angola, onde nasceu, da tradicional dominação dos kimbundos, dominantes na região de Luanda e centro norte.

Foi derrubado por 15 tiros próximo do rio Lungué Bungo, e os seus restos mortais permanecem no cemitério de Luena, leste de Angola. “Supostamente”, apontava em Fevereiro o líder da UNITA no Moxico, João Caweza.

“Estamos ainda com grandes dúvidas. É verdade que quem mandou executar o doutor Savimbi, ele, mais do que nós, conhece o verdadeiro local onde é que o doutor Savimbi se encontra neste momento”, afirma.

Passados 16 anos da morte, que levou dois meses depois à assinatura dos acordos de paz, a UNITA e a família continuam sem fazer o funeral prometido, no cemitério familiar, na aldeia de Lopitanga, município do Andulo, a cerca de 130 quilómetros a norte do Kuito, província do Bié.

“Caberá agora às autoridades, 16 anos dá para se fazer um processo, porque a reconciliação nacional é um processo, mas que tem de ser seguido com actos. E o Governo, que diz estar em condições para uma reconciliação genuína, já que nós estamos a fazer também 16 anos de paz, esperamos que nos diga que o doutor Savimbi está aqui ou se encontra noutro local”, desabafa João Caweza, deputado eleito pelo Moxico nas listas da UNITA.

Da incerteza sobre a correcta localização do corpo de Savimbi à falta de autorização do Governo para a exumação do corpo ou mesmo devido ao facto de o cemitério de Lopitanga ainda permanecer parcialmente minado, tudo tem ajudado a dificultar o processo.

Do ponto de vista dos que, com sinceridade, alguma vez tiveram o “Galo Negro” colado ao peito, o Povo Angolano, Angola, África e todos os que pugnam pelos ideais de liberdade e democracia no Mundo, ainda hoje estão de luto.

Exumar? Talvez. Herói? Nunca

[dropcap]A[/dropcap]lcides Sakala saudou no dia 14 de Agosto de 2018 a iniciativa que visou a retoma legal do processo de exumação e inumação dos restos mortais do fundador do partido, Jonas Savimbi.

Alcides Sakala falava ao Jornal de Angola, em reacção a um comunicado do Ministério do Interior em resposta às declarações do presidente da UNITA, Isaías Samakuva, que acusou o Executivo de estar a impedir a realização de um funeral condigno de Jonas Savimbi.

Em reacção, o Ministério do Interior recordou que o líder da UNITA escreveu, a 11 de Dezembro de 2014, uma carta ao então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, a solicitar um interlocutor do Governo no processo de exumação e inumação dos restos mortais de Savimbi.

Segundo o comunicado, o então Chefe de Estado indicou o Ministério do Interior como representante do Governo no processo, enquanto a UNITA seria representada pelo então seu vice-presidente, Ernesto Mulato, na sua qualidade de coordenador da comissão das exéquias do líder-fundador da UNITA.

A nota precisa que o ministro do Interior reuniu-se, em Maio de 2015, com o vice-presidente da UNITA, Ernesto Mulato, acompanhado dos integrantes da comissão, incluindo um dos filhos de Jonas Savimbi, Rafael Savimbi.

“No encontro, a delegação da UNITA apresentou um caderno de encargo sobre as exéquias do Dr. Jonas Savimbi, que previa actividades até ao primeiro trimestre de 2016, e manifestou que fossem realizadas diligências no sentido de ser localizado o sítio onde foi enterrado o general António Dembo, bem como apresentar o cidadão que dizia que conhecia o local”, indica o comunicado.

O Ministério do Interior afirmava, no seu comunicado, que isso não aconteceu, “não obstante terem ocorrido outros encontros, quer com o presidente Samakuva, com o vice-presidente Raul Danda, com o presidente da Bancada Parlamentar da UNITA, Adalberto Costa Júnior, entre outros, para a abordagem de questões pontuais”.

No comunicado, o Ministério do Interior voltava a manifestar a sua disponibilidade de continuar a tratar do assunto, nos termos da orientação política do Executivo e dos resultados dos encontros mantidos com a direcção da UNITA.

Neste quadro, o Ministério do Interior escreveu ao presidente da UNITA a dar conta da sua disponibilidade em que o processo seja retomado.

Num outro sentido, o Ministério do Interior disse que a direcção da UNITA não enviou os documentos referentes ao processo, que não aborda o assunto no mecanismo da comissão criada e que, provavelmente, o então vice-presidente da UNITA, Ernesto Mulato, não tenha transferido o processo para Raul Danda.

Ao Jornal de Angola, Alcides Sakala Simões confirmou que a comissão, do lado da UNITA, continua a ser coordenada por Ernesto Mulato. “Vamos tomar novas iniciativas”, prometeu.

Recorde-se que o líder da UNITA, fazendo eco do sentimento generalizado dos militantes e simpatizantes do seu partido, lamentou que o Estado angolano (MPLA) continue a reter os restos mortais de Jonas Savimbi, facto que Isaías Samakuva disse constituir “um testemunho gritante da política de exclusão entre irmãos”. Isto, é claro, no ingénuo pressuposto de que o MPLA considera irmãos todos os que não militam nas suas fileiras.

Numa intervenção pública em Viana, destinada a assinalar que, se fosse vivo, Jonas Savimbi, primeiro presidente e fundador da União Nacional da Independência Total de Angola (UNITA), teria 84 anos, Isaías Samakuva acrescentou que a atitude do MPLA (partido que governa o país desde 1975) “simboliza a necessidade imperativa da genuína reconciliação nacional”.

“A prisão dos restos mortais do co-fundador da República de Angola constitui um testemunho gritante da política de exclusão entre irmãos e simboliza a necessidade imperativa da genuína reconciliação nacional, que a República ainda luta contra si própria e que os angolanos ainda não são um só povo, uma só Nação”, sublinhou Isaías Samakuva.

“Não há razão alguma para que o Estado angolano mantenha Jonas Malheiro Savimbi preso mesmo depois de morto. Porque é que os restos mortais de Jonas Savimbi foram capturados pelo Estado angolano? Porque é que se prende um morto”, questionou.

Para Isaías Samakuva, há que “ultrapassar” a situação e criar uma “nova atitude” perante a Pátria e perante o futuro, uma vez que, disse, uma “Angola unida e reconciliada será mais forte, mais legítima e mais rica”.

Nesse sentido, o líder da UNITA apelou ao Presidente angolano, general João Lourenço, para “capitalizar o momento histórico” e “potenciar as pontes de diálogo” para um novo pacto social “que conduza a uma efectiva reconciliação nacional”.

“Hoje, 50 anos depois, não devemos nunca mais perder de vista o essencial. O essencial é reconhecermos que todos os povos tiveram as suas guerras fratricidas e que não há guerra que não destrua. O essencial é reconhecer que, em todas essas guerras de irmãos, em todos os conflitos de família, não há apenas um único culpado. Das nossas guerras e destruições, dos futuros mutilados e dos sonhos destruídos, culpados somos todos, responsáveis somos todos e vítimas somos todos”, frisou.

Para Isaías Samakuva, a luta pela construção do país só será bem-sucedida se todos a fizerem com “patriotismo, sentido de nação plural e grandeza moral”.

Segundo o responsável máximo da UNITA, “não há razão alguma que justifique” que os feitos históricos de Jonas Savimbi, reconhecidos por África e pelo mundo, “não sejam reconhecidos formalmente pelo Estado angolano que ele próprio ajudou a erigir e do qual é co-fundador”.

“Savimbi foi um homem culto, abnegado e destemido, que marcou de forma decisiva e inapagável o curso da História política de Angola e da África Austral. Amado por muitos, odiado por outros, mas respeitado por todos, Savimbi deixou-nos um legado que devemos estudar”, sublinhou.

“Honrar hoje a memória de Jonas Malheiro Savimbi significa estabelecer imediatamente as autarquias locais. Significa fiscalizar e auditar a dívida pública, reduzir a inflação, parar com os roubos e com a impunidade daqueles que utilizam o Estado para se governarem a si próprios”, defendeu.

Para Isaías Samakuva, honrar Savimbi significa também “transformar radicalmente” os sistemas de educação, de saúde e nacional de segurança social, canalizar os investimentos produtivos para o interior do país, “parar o crescimento anárquico” de Luanda e promover a criação de cidades ecológicas, economicamente sustentáveis.

“O maior legado de Jonas Malheiro Savimbi é sem dúvida a conquista da nacionalidade angolana para todos os povos de Angola”, concluiu.

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One Thought to “Restos mortais de Savimbi serão exumados… um dia!”

  1. carlos oliveira

    A UNITA deve, de imediato, repreender um tal deputado chamado David Mendes, pela declaração insensata, sectária, xenófoba e racista que proferiu no Parlamento de Angola. Se esse senhor é advogado não o parece já que a sua declaração é própria de um carroceiro. Ademais, tal narrativa não é mais do que um acto de intolerância e anti-nacional. Os portugueses são amigos do povo de Angola e contribuem com o seu trabalho para o progresso do país. Nunca em Portugal se ouviu para correr com os angolanos que cá trabalham e são muitos. Deputados destes não fazem falta nem a Angola nem a país algum. Portanto, Sr. David Mendes abandone a carreira política porque as suas declarações insensatas e ofensivas são impróprias e lesivas para o seu país. Triste e deplorável.

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