O secretário de Estado da Comunicação Social de Angola, Celso Malavoloneke, exortou hoje os órgãos de comunicação do país a pautarem-se por um tratamento “humano e responsável” na abordagem sobre assuntos ligados aos refugiados em Angola. Mais ou menos ao mesmo nível do que faz com os nossos 20 milhões de pobres. É isso, não é?

“O tratamento digno e humano dos refugiados por parte das sociedades hospedeiras tem muito a ver com a forma como a comunicação social trata a questão, ou seja, se a comunicação social fizer uma abordagem baseada nos direitos humanos e na responsabilidade colectiva”, disse Celso Malavoloneke, em Luanda.

Exceptuando a comunicação social do MPLA (do Estado, se preferirem), que entende ser mentira que Angola tenha 20 milhões de pobres, toda a outra trata os direitos humanos sem colocar o rótulo de refugiados externos ou de refugiados internos, com respeito, moral e ética.

Falando hoje na cerimónia de abertura do balanço geral do ciclo de palestras sobre “Papel da Comunicação Social na protecção de Refugiados”, Malavoloneke referiu igualmente que, tal postura, “concorre para fácil aceitação do refugiado no meio social”.

“Mais fácil será para a sociedade aceitar o sacrifício da partida dos recursos que são escassos com aqueles que, por circunstâncias alheias, são obrigados a deixar o seu país. E é a nossa expectativa que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em Angola nos ajude a cumprir esse nosso papel social”, observou.

O ciclo de palestras, que decorreu no Centro de Imprensa Aníbal de Melo (CIAM), na capital angolana, começou em Março e prolongou-se até Junho deste ano, percorrendo as províncias de Luanda, Uíje e Lunda Norte.

Na conferência de hoje, a delegação do ACNUR em Angola revelou que a, par da situação “emergente” a nível da província da Lunda Norte, que acolhe, desde 2017, cerca de 22.000 refugiados oriundos da RD Congo, aquele órgão das Nações Unidas controla em Luanda alguns milhares de refugiados.

São no total 15.555 refugiados e ainda 30.123 requerentes de asilo de cerca de 28 nacionalidades controlados pelo ACNUR, só em Luanda, conforme fez saber o oficial sénior de protecção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados em Angola, Wellington Carneiro.

Pobres angolanos podem ser refugiados?

Sindika Dokolo, empresário, coleccionador, multimilionário, genro de sua majestade o ex-rei de Angola, medalha de honra da cidade do Porto (Portugal) – entre uma infinidade de outras coisas correlativas – anunciou em Maio de 2017 a entrega de 200 toneladas de arroz, óleo e farinha aos refugiados da República Democrática do Congo que fugiram para o leste de Angola.

Quanto aos 20 milhões de angolanos pobres… que esperem, que continuam a esperar, por melhores dias e por um governo competente que exista para servir os angolanos e não para se servir deles.

A doação foi feita através da Fundação Sindika Dokolo, que o empresário de nacionalidade congolesa criou em Luanda, destinada à recuperação e preservação da arte africana e afins, sendo os afins tudo o que se enquadra na estratégia de multiplicação de dólares e… afins.

“Estou chocado e amargurado de ver a barbárie que alguns dos refugiados provenientes da República Democrática do Congo sofreram. Sendo congolês e tendo crescido no Congo, não suporto ver a degradação das nossas populações e o jogo mórbida dos políticos de Kinshasa”, escreveu o empresário, casado com a mais emblemática milionária de África, Isabel dos Santos.

Será que a existência de 20 milhões de angolanos pobres também provoca em Sindika Dokolo um sentimento de choque e amargura? Convenhamos que esses angolanos não são propriamente prioritários na estratégia humanitária do genro de Eduardo dos Santos. Compreende-se. Se também nunca foram prioritários para o sogro de Dokolo nem para a sua mulher, porque carga de chuva o deveriam ser para ele?

Na altura as autoridades estimavam que mais de 25.000 refugiados da RD Congo tenham fugido para a Lunda Norte, no leste de Angola, para escapar aos violentos conflitos étnico-políticos na região do Kasai.

A doação é descrita por Sindika Dokolo como uma “gota de água no oceano das necessidades”, mas também como um “gesto de fraternidade e solidariedade” para com os “irmãos, irmãs e filhos da RD Congo”.

Lindo. Lindo. É mesmo de puxar uma lágrima. Os refugiados precisam de ajuda. É claro que os 20 milhões de angolanos também precisam, mas estão melhor que os congoleses. Têm a barriga vazia, mas não são refugiados. E isso faz toda a diferença.

Só o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) ia na altura prestar assistência a 9.000 crianças refugiadas da RD Congo, 200 das quais chegaram sozinhas a território angolano e a necessitar de ajuda urgente, fugindo das acções das milícias congolesas.

Um comunicado daquela organização referia que as 9.000 crianças estavam distribuídas por dois centros de acolhimento temporários no Dundo, capital da província angolana da Lunda Norte.

Com o apoio das autoridades provinciais e outros parceiros, aquela agência das Nações Unidas referiu que tinha prestado ajuda a essas crianças e respectivas famílias, que estavam a chegar aos centros depois de dias ou semanas a viajar a pé, feridas por balas ou catanas, e a testemunharem “ataques violentos”.

As acções da organização estavam viradas para a garantia de serviços de saúde, água e saneamento, a vacinação das crianças contra o sarampo, medida “crucial para reduzir o risco de surtos”.

Além destas acções, a UNICEF estava a treinar assistentes sociais para proceder ao registo de 200 crianças, que se encontram sem a companhia dos seus familiares, fundamental para a sua segurança e protecção contra o tráfico, abuso e exploração infantil.

“Por outro lado, através do registo de crianças, há uma maior probabilidade de conseguir reuni-las com as suas famílias”, referia a nota.

Para o representante do UNICEF em Angola, Abubacar Sultan, “reunir estas crianças com as respectivas famílias é uma prioridade”. Como ajuda adicional ao apelo feito pelo Governo angolano, a organização tem fornecido às autoridades da Lunda Norte materiais para apoiar as famílias acolhidas nos dois centros.

Neste apoio estavam incluídos materiais de tratamento e purificação de água, ‘kits’ de reintegração familiar, educacionais e de recreação, medicamentos contra a malária e doenças diarreicas, tendas, cobertores, bem como cartazes e folhetos de prevenção de doenças.

Folha 8 com Lusa

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