A alteração do regime cambial anunciado há cerca de duas semanas pelo Banco Nacional de Angola (BNA), impondo que doravante o valor da taxa de câmbio do Kwanza face às outras moedas será determinado pelas transacções que ocorrem em leilões de divisas no mercado primário, resultou no aumento significativo dos preços de alguns produtos da cesta básica na capital do país.

Por Pedrowski Teca

Em palavras miúdas, o BNA perdeu a pujança, transformando-se num verdadeiro “kínguila” no jogo da procura e da oferta de divisas, deixando que os ricos (referindo-se neste caso aos bancos e casas de câmbios) determinem o valor do Kwanza ou simplesmente o modo de vida dos angolanos, notando-se que os consumidores têm agora que gastar mais para comprar alguns bens da cesta básica.

Anteriormente, o regime cambial que vigorou em Angola foi o da taxa de câmbio determinada e administrada pelo BNA, independentemente da relação entre a procura e a oferta. Desde há cerca de duas semanas, o regime cambial está a ser caracterizado pela flutuação da taxa de câmbio determinada pelos compradores de divisas.

Infelizmente, este liberalismo económico extremo está a ser criticado por mostrar ser dispendioso aos cidadãos comuns, que consequentemente já sentem na pele a subida dos preços de alguns produtos alimentares importados, como: o arroz, a massa, o óleo, o feijão e outros.

Algumas das questões que se levantam são: Será que ainda continuamos em crise? Quando a crise se intensificou, com o crude custando cerca de 30 dólares por barril, o Governo declarou a crise… O que falta para a declaração do fim da crise, sendo que o barril do petróleo está actualmente em volta dos 70 dólares?

Enquanto nos mercados informais e supermercados os preços sobem, o Governo continua relutante na subida dos salários, com excepção aos políticos, como por exemplo os deputados da Assembleia Nacional que tiveram um aumento salarial de 5 por cento, tal como o Folha 8 hoje noticiou.

“Se o governo não pode aumentar os salários, então tem pelo menos de controlar a inflação real. Se não vai conseguir fazer nem uma coisa, nem a outra, então tem de nos dizer o que é que pode fazer se de facto quiser governar minimamente,” escreveu na rede social Facebook, o jornalista Reginaldo Silva.

Para o veterano jornalista angolano, “governar é prever, mas também é prevenir”.

“Deixar o Kwanza deslizar (com ou sem patins) não é de certeza a solução para quem reclama o aumento do seu salário. Em termos sociais, quanto mais o Kwanza deslizar mais nos iremos aproximar do abismo que já não deve andar muito longe”, disse.

Na ausência do aumento salarial, há quem sugira o retorno à indexação dos salários ao dólar.

Um visão optimista surgiu do economista Carlos Rosado, que falava à imprensa, a 04.01.2018, afirmando que o Banco Nacional de Angola já devia ter alterado há muito tempo o regime de câmbio fixo para o flutuante, medida que permitiria reduzir o diferencial do preço das divisas entre o mercado formal e o paralelo.

Para o economista, quanto menor for o diferencial entre as taxas de câmbio do mercado formal e do informal, melhor será para os agentes económicos e quando a taxa de câmbio do BNA reflectir a procura e a oferta das divisas, haverá a redução gradual da actividade das kinguilas.

“É bom que os angolanos definitivamente comecem a olhar para as divisas como olham para os outros produtos de mercado, como a laranja, batata. As divisas são uma mercadoria, e sendo uma mercadoria o seu preço depende da oferta e a procura”, aconselhou.

Portanto, a 16.01.2018, o BNA efectuou o seu segundo leilão de venda de divisas deste ano, no qual se apurou uma nova taxa média ponderada, com um euro a valer AKZ 248,77, enquanto o dólar está agora fixado em 202,61 Kwanzas.

Consequentemente, o Kwanza perdeu já, desde 09.01.2018, vinte e cinco (25) porcento para o euro e dezoito (18) porcento ao dólar.

O leilão, organizado pelo Banco Nacional de Angola, contou com a participação de 27 bancos comerciais.

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