Jacob Zuma, que hoje se demitiu da Presidência da África do Sul, deixa um legado contrário aos ideais do movimento que lutou décadas contra o “apartheid” e ficará na História sul-africana como o “Presidente corrupto”.

A um ano do final do segundo mandato presidencial, Zuma, de 75 anos, não resistiu à ambição política do novo líder do Congresso Nacional Africano (ANC) e seu vice-presidente na chefia do Estado, Cyril Ramaphosa, tendo como pano de fundo as eleições presidenciais de 2019.

Para tal, necessita de recuperar o eleitorado do ANC, descrente, pelo que o afastamento de Zuma, a pouco mais de um ano da votação, dar-lhe-ia tempo para voltar a convencer a maioria negra de que o ANC é o melhor para a África do Sul.

No entanto, noutro sentido, Zuma foi também vítima das suas próprias acções empresariais, em que, desde 2005, são muitas as acusações de corrupção e de subornos envolvendo todas as áreas de interesse económico do país, sobretudo as ligadas a uma das famílias empresariais mais poderosas da África do Sul, a dos três irmãos Gupta, e exploradas intensamente pelos dirigentes do ANC pró-Ramaphosa.

Por estas razões, e tal como o seu antecessor, o agora ex-Presidente não chega a cumprir o segundo mandato, provando, paralelamente, um pouco do “veneno” que instilou na Presidência de Thabo Mbeki e que, após um ano de transição, o levou à chefia do Estado, em 2009, sucedendo ao Presidente interino Kgalema Motlanthe (2008/09).

Natural de Inkandla, na província do Kwazulu-Natal (antiga Zululândia), onde nasceu a 12 de Abril de 1942, Jacob Gedleyihlekisa Zuma, também conhecido pelas suas iniciais, JZ e pelo nome do clã, o Msholozi, tem tido uma vivência política polémica sobretudo desde 2005, quando, já na qualidade de vice-presidente da África do Sul, foi acusado de estupro, num processo em que acabou absolvido, tendo estado também envolvido numa longa batalha judicial, de que saiu ileso, após o seu então assessor financeiro ter sido condenado por corrupção e fraude.

Os processos judiciais não o impediram, porém, ainda como vice-Presidente sul-africano, de subir à liderança do ANC, em Dezembro de 2007 (deixou-a precisamente 10 anos depois).

Filho de um agente da polícia, Zuma aderiu ao ANC em 1959, aos 17 anos, e, com a ilegalização do partido, em 1961, juntou-se em 1963 depois ao Partido Comunista Sul-africano (SACP, na sigla em inglês), tendo pouco depois sido detido, juntamente com um grupo de 45 recrutas, e condenado a 10 anos de prisão por “conspirar para derrubar o Governo”, período cumprido na prisão da ilha de Robben, ao largo da Cidade do Cabo, onde conheceu Nelson Mandela, Motlanthe e outros dirigentes do ANC.

Após a prisão, Zuma exilou-se, primeiro, na Suazilândia e, depois, em Moçambique, onde chegou a vice-representante principal do ANC até à assinatura dos Acordos de Nkomati, que repôs as relações entre o país lusófono e a África do Sul, tendo sido obrigado a abandonar o país, por imposição do regime de PW Botha, seguindo, então, para a Zâmbia.

Em 1990, logo após o acordo que pôs fim à ilegalização do ANC, assinado entre Mandela e Frederic de Klerk, Zuma é dos primeiros a regressar à África do Sul, estando ligado às negociações do partido com o Inkhata Freedom Party, liderado por Mangosuthu Buthelezi, pondo-se assim cobro à violência entre os dois movimentos.

Os problemas de Zuma com a justiça começaram em 1999, num processo que implicava o grupo de armamento francês Thales. Em 2005, Zuma foi demitido do cargo de vice-presidente da África do Sul depois de o seu conselheiro financeiro Schabir Shaik ter sido condenado a 15 anos de prisão no âmbito do processo Thales.

Presumíveis luvas de quatro milhões de rands (cerca de 400.000 euros) terão sido pedidas por Shaik à empresa francesa para subornar elementos no partido e no governo numa compra milionária de armamento.

Na altura, Zuma chegou a ser acusado de corrupção, mas, em Setembro de 2006, o processo foi abandonado por falta de provas.

Em 2006, o então novo líder do ANC respondeu por alegada violação de uma familiar e chocou os activistas anti-sida quando confessou, por ter praticado sexo sem preservativo, que dissipou o perigo de contágio tomando um duche.

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