A UNITA insurgiu-se contra a versão da História de Angola contada pelo MPLA, lamentando que a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) se tenha “deixado manipular” pelo Governo angolano ao aprovar como feriado regional o “23 de Março”. Desde 1975, ou até mesmo antes, o MPLA defende a tese de que uma mentira contada milhares de vezes acabará por ser verdade. Está enganado.

Num comunicado de três páginas, assinado pelo Secretariado Executivo do Comité Permanente, a UNITA reage à decisão, aprovada por unanimidade a 17 deste mês na 38.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da SADC, de considerar aquela data como feriado regional e como Dia da Libertação da África Austral.

Segundo a argumentação usada na proposta apresentada pelo MPLA como sendo de Angola, o “23 de Março” marca a data do fim da batalha do Cuito Cuanavale, na província do Cuando Cubango, o maior conflito militar da guerra civil angolana, que decorreu entre 15 de Novembro de 1987 e aquele dia de 1988.

O conflito opôs os exércitos das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), apoiado por Cuba e URSS, e das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA) com apoio da África do Sul.

Para Luanda, o fim da batalha marcou um ponto de viragem decisivo na guerra, incentivando um acordo entre sul-africanos e cubanos para a retirada de tropas e a assinatura dos Acordos de Nova Iorque, que deram origem à implementação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, levando à independência da Namíbia e ao fim do regime de segregação racial que vigorava na África do Sul.

“A UNITA lamenta profundamente o facto de que os chefes de Estado e de Governo da SADC se tenham deixado manipular pelo executivo angolano, movido há muito por interesses não confessados”, lê-se no documento do antigo movimento guerrilheiro, actualmente o maior partido da oposição angolana.

Para a UNITA, as FAPLA, “coligadas” com militares da então União Soviética e de Cuba, tinham como objectivos militares a tomada de Mavinga e da Jamba, na altura bastiões do movimento do “Galo Negro”, tentativa que saiu “frustrada” e “obrigou ao recuo das forças militares atacantes até à margem direita do rio Cuíto, onde se verificou o impasse militar”.

Segundo o movimento então liderado por Jonas Savimbi, foi esta situação que conduziu à retirada das forças militares estrangeiras de Angola, cubanas e sul-africanas, negociada em Nova Iorque, em Dezembro de 1988, e às consequentes negociações políticas conducentes à independência da Namíbia, a 21 de Março de 1990, ao fim do “apartheid”, na África do Sul, a 17 de Março de 1991, e à democratização de Angola por via dos Acordos de Paz Para Angola, firmados em Bicesse, a 31 de maio de 1991.

“A História está aí para registar que a batalha do Cuíto Cuanavale não representou o fim da guerra em Angola nem significou a libertação da África Austral. Angola, Zâmbia, Botsuana, Moçambique, Malawi, Tanzânia, a Suazilândia [atual Eswatini], Zimbabué e a própria África do Sul já eram independentes antes dessa batalha”, refere a UNITA no comunicado.

Segundo a versão da UNITA, o processo negocial angolano “teve de passar por novas batalhas militares”, como foi a última campanha para a tomada da Jamba em 1990, “igualmente fracassada”, e também por outros anteriores a Bicesse, como foram os fracassados Acordos de Gbadolite, em que se pretendia o exílio de Jonas Savimbi.

“Por tudo isto, é uma mentira grosseira atribuir a libertação da África Austral à batalha do Cuito Cuanavale, que apenas existiu devido ao fracasso da tentativa de tomada da Jamba”, considera a UNITA, acrescentando que o partido “saúda a libertação de toda a África e não apenas da África Austral”.

“A África Austral precisa, acima de tudo, de ser libertada da fome, pobreza e exclusão a que está submetida a grande maioria dos seus povos. Precisa de ser libertada especialmente do fenómeno da delapidação dos seus recursos e do flagelo da corrupção, promovidos e protegidos por alguns dos seus governos que, paradoxalmente, se intitulam de ‘libertadores da África Austral'”, acrescenta-se no documento.

A UNITA adianta “saber o bastante dessa História” para poder afirmar que “a motivação dos líderes angolanos que promoveram, no seio da SADC, a consagração da data de 23 de Março, não se enquadra nas aspirações de liberdade e unidade dos africanos, porque deturpa factos importantes que, a seu tempo, a revelação da verdadeira História cuidará de corrigir”.

“Infelizmente, a deturpação de factos para falsear a História, tem sido um apanágio do partido-Estado angolano (MPLA). Foi assim durante a luta anticolonial, no período de transição para a independência, foi assim em relação ao holocausto angolano que se seguiu ao 27 de Maio de 1977 e tem sido também assim durante a governação corrupta de Angola que empobreceu os angolanos nos últimos 40 anos”, acrescenta o partido.

“A UNITA repudia veementemente a atitude do partido-Estado de Angola de deturpar os efeitos determinantes da grande batalha ocorrida nas margens do rio Lomba na mudança do curso da História política da região, e de escolher, em seu lugar, o momento do impasse militar, no local do recuo, a margem direita do rio Cuíto, para simbolizar a libertação da África Austral”, critica.

Por fim, a UNITA lamenta o facto de, “mais uma vez”, “o Executivo angolano e o MPLA “permanecerem virados” para uma governação para o exterior, “prenhe de ‘show-offs'”.

“[O Governo angolano e o MPLA] preferem despender milhões de dólares com a organização de competições internacionais enquanto o povo morre de fome, com satélites que não funcionam quando a saúde adoece, com ‘marketing’ de vitórias e heróis inexistentes enquanto prossegue o roubo e a impunidade”, termina.

Uma das muitas derrotas do MPLA

O Governo angolano que está no poder desde 1975 continua a fazer de todos nós uns matumbos e, por isso, teima em mandar enxurradas de mentiras contra a nossa chipala. Recentemente, num país com 20 milhões de pobres, aprovou uma dotação de 2.240 milhões de kwanzas (12,3 milhões de euros) para pagar a conclusão do memorial sobre a histórica batalha do Cuito Cuanavale.

A informação consta de uma autorização do final de Abril de 2017 do Presidente José Eduardo dos Santos, na forma de decreto, permitindo a abertura de um crédito adicional ao Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2017 “para suportar as despesas relacionadas com a conclusão da construção do Memorial Vitória à Batalha do Cuito Cuanavale”, na província do Cuando Cubango.

A rapaziada dirigente do MPLA (na sua maioria sipaios cobardes que, contudo, até são… generais) continua a não tomar a medicação correcta para a sua crónica megalomania fantasista, ou anda a fumar coisas estranhas. Indiferentes aos 20 milhões de pobres, prepararam a fanfarra, os palhaços e os restantes bobos da corte para inaugurar o que chamam de “Memorial sobre a Vitória da Batalha do Cuito Cuanavale, província do Cuando Cubango”, em homenagem – dizem – à bravura dos (seus) heróis de 1988.

Este Memorial, tal como foi concebido e idolatrado pelos mercenários do MPLA, mais não é do que uma (mais uma) enorme mentira do regime de José Eduardo dos Santos, milimetricamente seguida por João Lourenço, e restantes malandros que, assim, continuam a tentar reescrever a história.

Segundo Pravda, insuspeito órgão oficial de propaganda do regime, “um imponente edifício de aproximadamente 35 metros de altura, sob a forma de pirâmide, erguido de raiz logo à entrada da sede municipal do Cuito Cuanavale, com a denominação de “Monumento Histórico”, é sem margem de dúvidas a maior dádiva do Governo angolano para honrar a memória de todos aqueles que lutaram para defender aquela localidade da ocupação sul-africana”.

Não se sabe, embora eles saibam, onde é que o regime do MPLA (por sinal no poder desde 1975) quis e quer chegar ao construir monumentos que enaltecem o contributo dos angolanos que consideram de primeira (todos os que são do MPLA) e, é claro, amesquinham todos os outros.

Talvez fosse oportuno, e aí sim verdadeiro, construir um monumento aos milhares e milhares de vítimas do massacre que o MPLA levou a cabo no dia 27 de Maio de 1977.

Importa, contudo, desmistificar as teses oficiais que não têm suporte histórico, militar, social ou qualquer outro, por muito letrados que sejam os mercenários contratados para vender lussengue por jacaré. Apenas têm um objectivo: idolatrar uma mentira na esperança de que ela, um dia, seja vista como verdade.

De acordo com o pasquim do MPLA, “logo à entrada do pátio do monumento histórico, o visitante tem como cartão de visita uma gigantesca estátua de dois soldados, sendo um combatente das ex-FAPLA e outro cubano, com os punhos erguidos em sinal de vitória no fim dos combates da já conhecida, nos quatro cantos do mundo, “Batalha do Cuito Cuanavale”, que se desenrolou no dia 23 de Março de 1988”.

Não está mal. A (re)conciliação nacional não se solidifica glorificando apenas e só os angolanos de primeira (MPLA/FAPLA) e os seus amigos, os cubanos. Mas, também é verdade, que o regime angolano está-se nas tintas para os angolanos de segunda (afectos à UNITA ou simplesmente distantes do MPLA). Até um dia, como é óbvio.

Escreveu o Pravda que a batalha do Cuito Cuanavale terminou “com uma retumbante vitória das FAPLA e das FARC (Forças Armadas Revolucionárias de Cuba)”.

Importa por isso, ontem como hoje e amanhã, perceber o que leva o MPLA a comemorar esta batalha.

Visivelmente, o regime continua a ter medo da verdade e aposta na criação de focos de tensão na sociedade angolana, eventualmente com o objectivo de levar acabo uma das suas especialidades: massacres gerais (tipo 27 de Maio de 1977) ou selectivos como em Junho de 1994, quando a aviação do regime destruiu a Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores, ou quando entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994, bombardeou indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis.

Sabendo que a UNITA considera ter vencido essa batalha, comemorá-la como se fosse uma vitória das forças do MPLA, russas e cubanas visa provocar a UNITA, para além de ser um atentado contra a verdade dos factos.

Além disso é hábito do MPLA tentar adaptar a História às suas necessidades. Se alterar a História resultou parcialmente no passado, com a globalização e os trabalhos científicos que vão surgindo, não funciona. O regime ainda não aprendeu. Continua a seguir a máxima nazi de que se insistir mil vezes numa mentira ela pode ser vista como uma verdade. Mas não funciona.

A batalha do Cuito Cuanavale começou em Setembro de 1987, com uma ofensiva das forças coligadas FAPLA/russos/cubanos tentando chegar à Jamba. Um exército poderosamente armado, com centenas de blindados e tanques pesados, artilharia auto-transportada e outra, apoiado por helicópteros e aviões avançaram a partir de Menongue.

Depois da batalha, o General França Ndalu, veio dizer a um jornalista que o objectivo não era esse, mas sim cortar o apoio logístico à UNITA. O que é visivelmente uma fraca desculpa, porque o apoio logístico era feito de sul e do leste para a Jamba e nunca entre o Cuito Canavale e o rio Lomba.

Pela frente a coligação comunista encontrou a artilharia e a infantaria da UNITA (FALA), organizada em batalhões regulares e de guerrilha, apoiados por artilharia pesada das forças sul-africanas. Com o avolumar da ofensiva, a África do Sul colocou na batalha mais infantaria, blindados e helicópteros.

A batalha acabou em Março de 1988 com a retirada das forças FAPLA/russos/cubanos para Menongue.

As consequências foram diversas. O exército cubano aceita retirar-se de Angola. A África do Sul aceita que a Namíbia ascenda à independência, desde que os seus interesses económicos não sejam tocados, que a Namíbia continue dentro da união aduaneira que tem com a RAS e que o porto de Walbis Bay (o único da Namíbia) continue a ser administrado pela RAS.

O MPLA aceita finalmente entrar em negociações com a UNITA (o que viria a acontecer em Portugal), aceita o pluripartidarismo, aceita as eleições.

E a UNITA, o que teve de ceder? Nada. Os seus bastiões continuaram intocados, nenhuma linha logística foi tocada, o seu exército não teve perdas, em homens e material, significativas.

Mais ou menos um ano mais tarde, e já na mesa das negociações, o MPLA tentará uma segunda ofensiva, de novo com milhares de homens, tanques, veículos, helicópteros e aviões. Foi a chamada operação “Ultimo Assalto”, e mais uma vez foi derrotado, desta vez sem os sul-africanos estarem presentes.

Em resumo, se houve vencedores, não foram as forças do MPLA e os seus aliados. Então o que comemora o MPLA? Nada a não ser o que a sua propaganda inventa.

Em 2016, o ministro angolano da Defesa, João Lourenço, homenageou o povo cubano no Triângulo de Tumpo, província de Cuando Cubango, pela sua permanente solidariedade e contribuição na vitória de Cuito Cuanavale.

“Agradeço em nome de todo o povo angolano ao povo cubano, pois nos momentos mais difíceis esteve sempre, ombro a ombro, com o povo angolano”, disse João Lourenço.

João Lourenço, hoje presidente da República e – dentro de dias – do MPLA, destacou a participação dos internacionalistas cubanos nas principais batalhas travadas no país, acrescentando que o povo cubano esteve na luta pela independência e defesa da soberania nacional, que lhe conferiu o direito natural de ser parte do diálogo quadripartido até os acordos de Nova Iorque.

Ou seja, o Presidente da República pode mudar, mas a filosofia da mentira continua a ser a grande máxima do regime. É caso para dizer que podem mudar as moscas mas que tudo o resto ficará na mesma.

Folha 8 com Lusa

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