Lisboa refere a herança africana para “vender uma imagem moderna”, mas, sobre as “coisas más” dessa relação, põe “a cabeça na areia”, observa João Gomes, músico dos “Fogo Fogo”, que hoje actuam no Festival Músicas do Mundo (Portugal).

“Infelizmente, só quando interessa e só por razões positivas, para divulgar a cidade, para se vender uma imagem moderna e de futuro, [é que se] fala da herança africana e da relação que houve com África”, lamentou, em entrevista à Lusa, o teclista da banda que tocará hoje, à meia-noite, em Porto Covo.

“Sobre todos os pontos negativos dessa relação [com África], põe-se um pouco a cabeça na areia. (…) Devemos olhar tanto para as coisas boas que acontecem, como para as más, para aprendermos e para crescermos”, defende João Gomes.

Reconhecendo que há agora mais espaço para a música africana, o músico acha que “a sociedade portuguesa, de uma forma geral, devia olhar (…) para a sua relação com a cultura africana de uma forma mais abrangente”.

Festivais como o Músicas do Mundo “fazem muito para os palcos se abrirem a diferentes músicas”, assinala. “Sempre nos imaginámos vir cá. É um festival de referência. Todos nós já cá viemos como público, (…) sempre achámos que fazia todo o sentido actuarmos em Sines”, diz.

O desafio foi lançado pela Casa Independente, em Lisboa, e João Gomes e Márcio Silva (bateria) foram à procura de músicos que encaixavam na ideia dos “Fogo Fogo”. “Alguns não se conheciam, nem tinham tocado juntos”, mas o projecto “tornou-se rapidamente muito forte”.

A banda de cinco elementos (aos já referidos juntam-se Francisco Rebelo, baixo, e David Pessoa e Danilo Lopes, guitarra e voz) presta homenagem “à presença da música africana em Lisboa” e dá novas roupagens à tradição “forte” da música de Cabo Verde.

O verão presenteou “Fogo Fogo” – que lançou em Julho o primeiro disco de originais, “Nha Cutelo” – com 15 datas de concertos, só “no rectangulozinho”. Depois do Primavera Sound, no Porto, e agora do Músicas do Mundo, seguem para o Boom Festival, em Idanha-a-Nova, e para o Azores Burning Summer, na ilha de S. Miguel, passando por Évora e Guimarães.

Os cinco músicos prometem ficar juntos enquanto se derem bem. “Sendo de Cabo Verde, é uma honra ter pessoal de outras latitudes a querer tocar a minha música. No fundo, são como parceiros. Costuma-se dizer que cada cabo-verdiano é um embaixador”, diz Danilo Lopes, também em entrevista à Lusa.

Mas o projecto vai além do arquipélago da morabeza. “[O objectivo é] trazer visibilidade para aquilo que é a dignidade africana também, das coisas boas que se produzem. Existe aquela imagem do caos em África, mas não é bem assim, é só o que se aflora, é quase sensacionalista”, critica.

“Nós, como músicos, devemos tentar, como veículos de divulgação, levantar mais o véu do que é essa diversidade [africana]. É um trabalho para uma vida”, estima.

Os “Fogo Fogo” fecharão a segunda noite do Festival Músicas do Mundo, que permanece em Porto Covo até domingo e ruma depois a Sines, onde ficará até dia 28 de Julho.

Antes deles, actuarão Monsieur Doumani (Chipre, 19h00), The Como Mamas (EUA, 21h30) e Karina Buhr (Brasil, 22h45).

Lusa

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