O ministro da Agricultura de Angola, Marcos Alexandre Nhunga, disse hoje, em Lisboa, que o seu país está empenhado em valorizar a agricultura familiar, nomeadamente através de créditos, da facilitação do escoamento da produção e da promoção da mecanização neste sector. Os 20 milhões de pobres que fazem da mandioca, do farelo, do que aparecer, um manjar não podem rir muito porque rir com a barriga vazia dá mais… fome.

“Temos que realçar que Angola está a fazer um intenso trabalho, principalmente, (…) a estruturar o crédito a nível dos camponeses, aumentar os factores de produção, buscar esquemas de comercialização que facilitam a extracção da produção. Essa é uma produção pequena e muitas vezes têm dificuldades para colocar a sua produção nas grandes superfícies”, afirmou Marcos Alexandre Nhunga.

Para Marcos Alexandre Nhunga (que a 5 de Setembro de 2016 foi, pela primeira vez, nomeado ministro da Agricultura), os governos têm a necessidade de estabelecer mecanismos para que esta produção possa ser extractiva e, no caso de Angola, “é muito importante porque (a agricultura familiar) é responsável pela maior produção do nosso país”.

O ministro da Agricultura e Florestas de Angola falou hoje à agência Lusa após um encontro como o seu homólogo português, Luís Capoulas Santos, ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural.

O responsável angolano esclareceu que o reforço do empenho no apoio à agricultura familiar em Angola está ligado à assinatura da “Carta de Lisboa”.

O representante angolano assinou hoje a “Carta de Lisboa pelo Fortalecimento da Agricultura Familiar”, um documento cuja cerimónia de assinatura teve lugar durante a Reunião de Alto Nível sobre a Agricultura Familiar que decorreu em Lisboa, em Fevereiro, envolvendo todos os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), mas na qual Angola não participou naquela oportunidade.

A “Carta de Lisboa”, que resultou da reunião ministerial da CPLP em Fevereiro, é um conjunto de directrizes políticas para a aplicação prática nos Estados-membros da pequena agricultura familiar.

“Tomado o conhecimento da Carta de Lisboa, volto a afirmar a posição do Executivo angolano e transmitir que, em Angola, a agricultura familiar é a nossa base, que é responsável pela produção de mais de 80% daquilo que se consome em Angola”.

“O que nós vamos fazer é trabalhar no sentido de cumprir com os 17 compromissos assumidos (na Carta). O que estamos a fazer para cumprir estes compromissos? Estamos a fazer mais debates para relevar o papel da agricultura familiar a nível do nosso país e da CPLP”, sublinhou ainda.

Para o ministro Nhunga, a agricultura familiar tem também um papel fundamental na agenda 2030 das Nações Unidas.

“Queremos trabalhar no sentido que, na base deste debate, se possa promover acções que possam criar uma agricultura muito mais sustentável a nível deste grupo importante na produção agrícola”, adiantou o político angolano.

“Angola está muito empenhada nisso, introduzindo também alguma componente forte de mecanização na agricultura, porque não podemos continuar a trabalhar e a pensar nas enxadas. Temos que introduzir a mecanização na agricultura familiar para aliviar o trabalho das mulheres, que são fundamentalmente as que trabalham (neste sector) e maior tempo para cuidar das suas crianças”, indicou ainda o ministro angolano.

O ministro Capoulas Santos referiu que já existem “alguns projectos em fase adiantada de cooperação” neste âmbito entre Portugal e Angola e que “uma cooperação só é produtiva quando funcionam nos dois sentidos”.

“Nós estamos interessados, naturalmente, que empresários portugueses possam instalar-se em Angola, como estamos interessados que empresários angolanos se instalem em Portugal, assim como estamos interessados em estimular o comércio agrícola nos dois sentidos”, disse Capoulas Santos.

Para o ministro português, a curto prazo, Angola será um fornecedor de bens agrícolas para Portugal e os portugueses continuarão a ser fornecedores de Angola que já é um dos principais clientes de Portugal neste sector.

“É uma cooperação que temos vindo a estabelecer e que agora temos condições políticas fantásticas para expandir, porque penso que isso é do interesse dos dois países”, sublinhou Capoulas Santos.

As enxadas do ministro Nhunga

“Hoje não podemos continuar a trabalhar e a pensar nas enxadas”, diz o ministro Marcos Alexandre Nhunga. No dia 11 de Maio do ano passado, este mesmo ministro dizia que o trabalho manual das terras agrícolas, com recurso a enxadas, ainda é utilizado em 98% dos terrenos em Angola, em contraponto com o reduzido recurso à mecanização nos cerca de cinco milhões de hectares de cultivo. E acrescentava que apenas 2% dos hectares de cultivo do país são preparados com “recurso a mecanização e tracção animal”.

“A actividade de produção agrícola no país debate-se com o problema do baixo uso de mecanização na preparação de terras”, admitiu. E, pelos vistos, pelo menos desde então nada foi feito para in verter a situação. Razões? As que conhecemos desde 1975: incompetência do partido que desde então esteve sempre no governo, o MPLA.

Provavelmente esta realidade enquadra-se, como tanto gosta o regime que (des)comanda o país desde 1975, no facto de Angola viver desde finais de 2014 uma profunda crise económica, financeira e cambial devido à queda do preço do barril de petróleo no mercado internacional, com o ministro angolano a admitir consequências negativas no sector, como a falta de meios de apoio à produção agrícola.

“Com a retracção da actividade económica, vários meios e equipamentos de trabalho detidos pelas empresas de construção civil, tais como tractores, camiões e outros, incluindo a mão-de-obra, ficaram praticamente inactivos. Estando muitos deles parqueados nos estaleiros”, observou em Maio de 2017 o ministro. E antes disso, no período das vacas gordas?

Marcos Alexandre Nhunga referiu ainda (2017) que apesar de Angola dispor de “solos de elevada aptidão agrária, abundantes recursos hídricos e uma expressiva faixa da população dedicada às actividades do campo”, actualmente “a produção interna ainda, em muitas culturas, não satisfaz as necessidades de consumo”.

“A realização plena do potencial do sector agrário nacional, como motor da segurança alimentar e promotor do desenvolvimento socioeconómico do país, depende, em grande medida, da eficiência e eficácia com que decorrem as actividades produtivas dentro de cada um dos seus subsectores”, concluiu.

Descoberta da pólvora (para fins agrícolas)

Recorde-se que o ministro Marcos Nhunga descobriu a pólvora que, por sua vez, fora inventada pelo seu antecessor, Afonso Pedro Canga.

Então, como grande novidade, Marcos Nhunga, apela à participação activa dos intervenientes no sector agrário para o processo de diversificação da economia, tendo em vista melhorar as condições de vida da população.

Originalidade não falta. O ministro da Agricultura diz que pelo facto de o país estar a atravessar um momento de crise financeira, precisa de buscar força e inteligência para concretizar os objectivos que o país se propõe, a criação das melhores condições de vida. Quem diria?

De acordo o governante, deve-se prestar atenção especial a todos os quadros desta área e moralizá-los, de modo a trabalhar mais para o cumprimento dos objectivos traçados.

Marcos Nhunga diz que deve haver maior motivação a nível dos quadros do Ministério, um diálogo interno e permanente nos órgãos internos, assim como com os empresários, para que todos se revejam nos programas deste sector.

Marcos Nhunga, refere ainda que o sector da agricultura é chamado para arranjar soluções. Apelou aos membros do Ministério a não se aproveitar das respectivas funções para a resolução dos problemas pessoais. Boa!

“Vamos pautar por uma gestão rigorosa e transparente para que os poucos e parcos recursos que forem arrecadados possam ser aplicados para o alcance dos objectivos traçados”, disse Marcos Nhunga, acrescentando que deve haver união entre todos os que trabalham para a mesma causa.

Fertilizantes “made in Marrocos”

Relembremos que o Governo do MPLA negociou com Marrocos apoio no domínio da produção de fertilizantes, um sector em que o país, apesar das potencialidades agrícolas, continua a ser largamente deficitário devido à “monocultura” criminosa da incompetência que há 42 anos tomou conta, entre outras, da nossa economia.

Para o efeito, de acordo com informação governamental, o ministro da Agricultura, Marcos Alexandre Nhunga, realizou uma visita de trabalho a Marrocos, visando o “reforço da cooperação” entre os dois países, no domínio agrícola.

A visita pretendeu “analisar e discutir” com as autoridades competentes da Agricultura de Marrocos e o Grupo Marroquino de Fosfatos (OCP) “as modalidades práticas de fornecimento de fertilizantes compostos” a Angola, tendo em conta a implementação da Estratégia para o Aumento da Oferta de Fertilizantes no país, aprovada na reunião conjunta das comissões Económica e para a Economia Real, de 23 de Ferreiro de 2017.

Para justificar esta, repita-se, criminosa incompetência, o Governo traz à liça a profunda crise financeira, económica e cambial decorrente da quebra nas receitas com a exportação de petróleo.

Há muito tempo que os governos do MPLA avançam com programas de diversificação da economia, apostando nomeadamente na agricultura. Apostas que não passam disso mesmo porque, mais uma vez, o Governo quer colher sem semear.

Nada disto era previsível, dirá com certeza qualquer especialista do regime. Tudo isto era previsível, dirão os especialistas que teimam em pensar pela própria cabeça. A verdade é que ninguém imaginava que o petróleo tivesse a coragem (ou lata) para contrariar as ordens do MPLA. Mas teve e baixou a sua cotação, pondo os pobres ainda mais pobres e os ricos ainda mais ricos.

Em Angola, depois do milho o arroz é o segundo cereal mais consumido, mas a sua produção interna, apesar dos esforços para o seu incremento, ainda não satisfaz as necessidades, obrigando a reforçar a sua importação.

Há muito que se sabe que quando o petróleo espirra Angola entra em estado de coma. Mesmo assim, os peritos dos peritos do regime olham sempre para o lado, e nunca serão contaminados com essa epidemia da diversificação da economia.

No tempo colonial

Por mera curiosidade registe-se que, enquanto província ultramarina de Portugal, até 1973, Angola era auto-suficiente, face à diversificação da economia.

Era o segundo produtor mundial de café Arábico; primeiro produtor mundial de bananas, através da província de Benguela, nos municípios da Ganda, Cubal, Cavaco e Tchongoroy. Só nesta região produzia-se tanta banana que alimentou, designadamente a Bélgica, Espanha e a Metrópole (Portugal) para além das colónias da época Cabo-Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e Sã Tomé e Príncipe.

Era igualmente o primeiro produtor africano de arroz através das regiões do (Luso) Moxico, Cacolo Manaquimbundo na Lunda Sul, Kanzar no Nordeste Lunda Norte e Bié.

Ainda no Leste, nas localidades de Luaco, Malude e Kossa, a “Diamang” (Companhia de Diamantes de Angola) tinha mais 80 mil cabeças de gado, desde bovino, suíno, lanígero e caprino, com uma abundante produção de ovos, leite, queijo e manteiga.

Na região da Baixa de Kassangue, havia a maior zona de produção de algodão, com a fábrica da Cotonang, que transformava o algodão, para além de produzir, óleo de soja, sabão e bagaço.

Na região de Moçâmedes, nas localidades do Tombwa, Lucira e Bentiaba, havia grandes extensões de salga de peixe onde se produzia, também enormes quantidades de “farinha de peixe”, exportada para a China e o Japão.

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