O título pode beirar a inversão da história, a provocação ou “fake news”, mas não, ele inspira um facto real, em proporção, reconheça-se, menor, que a iniciada pela monarquia inglesa no longínquo ano de 1620, quando decidiu baptizar uma terra do continente americano como New England. Seria o início de uma colonização que durou até o ano de 1774, quando começou a guerra pela independência americana.

Por William Tonet

Hoje, num novo contexto, século XXI, no lugar das baionetas, o amor, escancara não só corações, como também, países. Ao escrever este texto, lembro-me com nostalgia de um amor-camarada, quase impossível, à época (1975), quando se nos cobria o epíteto de racistas, por defendermos uma verdadeira revolução, sem divisão racial.

Este amor foi protagonizado pelo meu canoa (ex-companheiro de cadeia, em São Nicolau), angolano, preto, Zé Van Dúnem e o de Sita Valles, branca, portuguesa, atirando para a sarjeta daqueles que partilhavam com Nito Alves eram todos anti-branco, logo invertebrados racistas.

Eles no calor da efervescência revolucionária, comprometeram-se em aliar, não só as ideologias, como o amor e, fizeram-no sem vergonha e com tanta intensidade, que daí pariram o Che. Este menino, retirado, abrupta e prematuramente, do calor maternal e paternal, pelo ódio de uma política abjecta, indiferente ao amor de dois jovens inocentes, com um enorme potencial, assassinados pela covardia de Agostinho Neto e da sua “entourage” diabólica, indiferente ao choro inocente de um menino inocente, que ficaria, para todo o sempre, duplamente órfão.

Hoje, Che deixou a meninice, fez-se jovem, resistindo à ausência dos pais, com o calor dos tios, principalmente, da titi Francisca Eugénia da Silva Dias Van Dúnem, terá assistido, digo eu, com lágrimas de emoção ao casamento do príncipe Harry (branco) da monarquia inglesa, com a americana Meghan (negra).

Esta união, em pleno século XXI, venceu com um intenso amor, as barreiras preconceituosas e dogmas da coroa da Inglaterra, que, pese, o racismo e discriminação incubadas vê, no pedestal da sua autoridade, desfilar uma mulher, transportando pétalas de liberdade, igualdade e direitos humanos.

O amor não tem medo, logo ousa. O amor, queima as grilhetas, mesmo de monarquias europeias, que vinham resistindo ao cruzamento do alegado “sangue real” com plebeias com sangue preto. Hoje, Meghan, americana, com sangue “vermelho-preto-escravo”, 398 anos (1620) depois da Inglaterra ter iniciado a colonização, a actual América, entrou imponente, sozinha, na Catedral de Cantuária, para, pelo seu arcebispo, secundado, ineditamente, por Michael Curry, bispo negro, da Igreja Episcopal Americana (na sua homilia lembrou Martin Luther King), consagraram o “contrato-matrimonial”, entre o príncipe Harry, co-pretendente ao trono inglês, com a plebeia actriz americana, Meghan, coroada duquesa de Sussex.

Com todas as vénias, mostrando forte personalidade, Meghan não só entrou sozinha, na catedral, Saint George’s Chapel, como incluiu, revolucionariamente, no cerimonial, não só um grupo gospel negro americano, que irradiou a voz e espiritualidade evangélica diferente da britânica, como o artista Sheku Kanneh-Mason, primeiro negro a ganhar o prémio Músico do Ano pela BBC, em 2016.

Este evento mostra uma mulher descomprometida com o complexo de inferioridade ou superioridade e sem medo de fazer afirmação da sua raça, contra o racismo ainda reinante nas altas cortes mundiais.

O amor entre um príncipe branco inglês e uma negra americana inaugura o quebrar de algemas nos corredores do Palácio Real de Buckingham, residência oficial da Rainha da Inglaterra. O novo casal demonstra que o amor vence todos preconceitos, quando ninguém abdica da sua personalidade identitária e, com isso, inauguram uma nova faceta nos casamentos reais.

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