Da América ao Reino Unido (re)lembrando o 27 de Maio

O título pode beirar a inversão da história, a provocação ou “fake news”, mas não, ele inspira um facto real, em proporção, reconheça-se, menor, que a iniciada pela monarquia inglesa no longínquo ano de 1620, quando decidiu baptizar uma terra do continente americano como New England. Seria o início de uma colonização que durou até o ano de 1774, quando começou a guerra pela independência americana.

Por William Tonet

Hoje, num novo contexto, século XXI, no lugar das baionetas, o amor, escancara não só corações, como também, países. Ao escrever este texto, lembro-me com nostalgia de um amor-camarada, quase impossível, à época (1975), quando se nos cobria o epíteto de racistas, por defendermos uma verdadeira revolução, sem divisão racial.

Este amor foi protagonizado pelo meu canoa (ex-companheiro de cadeia, em São Nicolau), angolano, preto, Zé Van Dúnem e o de Sita Valles, branca, portuguesa, atirando para a sarjeta daqueles que partilhavam com Nito Alves eram todos anti-branco, logo invertebrados racistas.

Eles no calor da efervescência revolucionária, comprometeram-se em aliar, não só as ideologias, como o amor e, fizeram-no sem vergonha e com tanta intensidade, que daí pariram o Che. Este menino, retirado, abrupta e prematuramente, do calor maternal e paternal, pelo ódio de uma política abjecta, indiferente ao amor de dois jovens inocentes, com um enorme potencial, assassinados pela covardia de Agostinho Neto e da sua “entourage” diabólica, indiferente ao choro inocente de um menino inocente, que ficaria, para todo o sempre, duplamente órfão.

Hoje, Che deixou a meninice, fez-se jovem, resistindo à ausência dos pais, com o calor dos tios, principalmente, da titi Francisca Eugénia da Silva Dias Van Dúnem, terá assistido, digo eu, com lágrimas de emoção ao casamento do príncipe Harry (branco) da monarquia inglesa, com a americana Meghan (negra).

Esta união, em pleno século XXI, venceu com um intenso amor, as barreiras preconceituosas e dogmas da coroa da Inglaterra, que, pese, o racismo e discriminação incubadas vê, no pedestal da sua autoridade, desfilar uma mulher, transportando pétalas de liberdade, igualdade e direitos humanos.

O amor não tem medo, logo ousa. O amor, queima as grilhetas, mesmo de monarquias europeias, que vinham resistindo ao cruzamento do alegado “sangue real” com plebeias com sangue preto. Hoje, Meghan, americana, com sangue “vermelho-preto-escravo”, 398 anos (1620) depois da Inglaterra ter iniciado a colonização, a actual América, entrou imponente, sozinha, na Catedral de Cantuária, para, pelo seu arcebispo, secundado, ineditamente, por Michael Curry, bispo negro, da Igreja Episcopal Americana (na sua homilia lembrou Martin Luther King), consagraram o “contrato-matrimonial”, entre o príncipe Harry, co-pretendente ao trono inglês, com a plebeia actriz americana, Meghan, coroada duquesa de Sussex.

Com todas as vénias, mostrando forte personalidade, Meghan não só entrou sozinha, na catedral, Saint George’s Chapel, como incluiu, revolucionariamente, no cerimonial, não só um grupo gospel negro americano, que irradiou a voz e espiritualidade evangélica diferente da britânica, como o artista Sheku Kanneh-Mason, primeiro negro a ganhar o prémio Músico do Ano pela BBC, em 2016.

Este evento mostra uma mulher descomprometida com o complexo de inferioridade ou superioridade e sem medo de fazer afirmação da sua raça, contra o racismo ainda reinante nas altas cortes mundiais.

O amor entre um príncipe branco inglês e uma negra americana inaugura o quebrar de algemas nos corredores do Palácio Real de Buckingham, residência oficial da Rainha da Inglaterra. O novo casal demonstra que o amor vence todos preconceitos, quando ninguém abdica da sua personalidade identitária e, com isso, inauguram uma nova faceta nos casamentos reais.

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5 Thoughts to “Da América ao Reino Unido (re)lembrando o 27 de Maio”

  1. Capuete Camundanga

    Caro Senhor William Tonet,

    Gostaria muito de ouvir de Che a sua opiniao sobre a tentativa de homenagear os seus pais com uma comparacao absurda como a que acaba de fazer. O amor de Sita Valles e Jose Van-Dunem nao foi tao banal e exuberante como o de Meghan e Harry. Nao foi um amor de celebridades no sentido que sabemos e vemos hoje.
    Sita Valles e Jose Van-Dunem enfrentaram desafios enormissimos. Ela deixou a vida em Portugal para se juntar a alguem que tambem tinha as suas dificuldades em se afirmar no seu proprio pais, pois independencia. Eles partilhavam uma ideologia que se aparentava oprimida no periodo antes e depois de independencia de Angola. No entanto, neste ensombrar, foi concebido o bebe que todos conhecemos de fotos dela a agarra-lo quando somente tinha tres meses. Tinha sido concebido por altura que ja se falava em divisoes no seio do MPLA. Nasceu pouco antes dos pais terem sido mortos. Aqui esta a outra parte da historia do casal Sita-Jose que difere muito de Meghan-Harry. Meghan e Harry nunca terao um filho que va sofrer tanto quanto o Che. Nao existem paralelos entre Sita-Jose e Meghan-Harry.
    Entretanto, acredito que tenha querido homenagear Sita e Jose. Por essa tentativa acredito que os que repudiam o massacre de 27 de Maio o irao perdoar.

    1. Caro Capuete Camundanga,

      Vê-se bem que leu o texto mas não percebeu rigorosamente nada do que lá está escrito. Paciência. Outros (felizmente a larga maioria) perceberam o alcance, a comparação e a simbologia da comparação.

  2. Esclarecimento aos “Salvinos Ulengosas” que, usando endereços de email falsos e linguagem imprópria para consumo, julgam que somos uma filial da casa da mãe Joana. Não somos. Por isso os vossos comentários não são publicados.

    A Direcção do Folha 8

  3. João Baptista Efígie

    Ilustre compatrício dos PALOP, da CPLP e dos direitos humanos, Wlliam Tonet, nós aqui no longe, alcançamos muito bem o alcance histórico e simbólico do seu artigo. Respeitamos uma leitura diversa, mas a comparação que você faz, quanto a nós, é perfeitamente aceitável e cabível no espírito da sua abordagem. Gostamos do seu artigo e fizemos questão de o partilhar, tanto na nossa página interna, em português, como na nossa página internacional do Facebook, com milhares e milhares de amigos e seguidores, em língua inglesa. A língua dos acontecimentos recentes, que selaram a relação sentimental entre uma plebeia e um príncipe da casa real, em que o nome de Martin Luther King, como disse, foi evocado e enaltecido, um dos ícones da resistência ao preconceito racial, ao lado do grande Mandela e do compatriota precursor deste, na luta anti-sistémica, o magnânimo Albert Luthuli. Continue a divulgar a nossa África e a bater-se pelos seus ideais de não racismo, de não discriminação e de não preconceito de espécie alguma . A bem da dignidade de todo e qualquer ser humano.
    Tamojunto.

    Abraço de João Baptista Efígie

  4. Fonseca Francisco

    Willian Tonet 100% well doneeeeeeeeeeeee

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