O presidente da UNITA, Isaías Samakuva, defendeu hoje que se o seu partido tivesse sido poder em 1975, Angola não tinha entrado em guerra, denunciando como exemplo que desde a paz (2002) já morreram 85 militantes em incidentes com o MPLA.

Isaías Samakuva, líder da UNITA, falava em entrevista à Lusa, a propósito dos 50 anos da fundação do partido do ‘galo negro’, que se comemoram amanhã, numa cerimónia oficial em Luanda.

“Com a UNITA no poder, Angola nunca teria passado por uma guerra tão longa como a que conheceu. Do ponto de vista político, UNITA sempre se pautou pela inclusão e não pela exclusão como o MPLA. O MPLA sempre se orientou pela tese de que era a única força política representante legítima do povo angolano. Naturalmente, os que não se revêm nesta tese, como nós da UNITA, não aceitam e, só este aspecto por si é um grande manancial de conflito”, apontou Isaías Samakuva.

A comemorar os 50 anos, e com o MPLA no poder em Angola desde 1975, o líder da UNITA assume que o partido fundado no Muangai, província do Moxico, por Jonas Savimbi, “é pela transparência” e contra “a corrupção que hoje impera no país, nem relegaria a população ao esquecimento como acontece hoje no regime do MPLA”.

“A UNITA nunca permitiria os desvios do erário público nem a miséria em que estão mergulhados os angolanos. Com a UNITA no poder, Angola seria, sem dúvida, um país diferente e com um nível de desenvolvimento propiciador de bem-estar que o tornaria num dos melhores países para viver”, afirmou, acentuando as críticas ao regime de José Eduardo dos Santos.

De acordo com Isaías Samakuva, o maior partido da oposição contava no final de 2015 com 2,5 milhões de militantes registados, número que “tem crescido diariamente, em todo o país”. Em contraponto, entre 2002 e 2015 morreram em Angola, segundo o líder do partido, 85 militantes da UNITA em confrontos e incidentes com apoiantes do MPLA.

O conflito armado em Angola decorreu entre 1975, logo após a proclamação da independência, e 2002, terminando com a morte do fundador do partido, às mãos das forças governamentais sob liderança de ex-generais das FALA (UNITA), sendo este precisamente um dos momentos que Isaías Samakuva destaca, pela negativa, em meio século da UNITA.

“Tenho a certeza de que se a UNITA tivesse chegado ao poder em 1975, Angola teria sido muito diferente do que é hoje. Do ponto de vista económico, a UNITA sempre acreditou no sistema de mercado livre quando o MPLA acreditou, por longos anos – hoje ainda age assim -, numa economia centralizada”, observou ainda o presidente do partido.

Numa altura em que o presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, chefe de Estado angolano desde 1979 nunca nominalmente eleito, anunciou para 2018 o fim da sua vida política activa, Isaías Samakuva garante que a UNITA “está a capacitar-se” para “criar condições” de “ganhar as eleições” de 2017.

Questionado sobre a possibilidade de formar uma coligação pré-eleitoral, com outros partidos da oposição, às eleições gerais do próximo ano, o líder da UNITA não coloca de parte o cenário.

“Normalmente, as coligações são formadas como resultado de interesses ditados por diversas situações que ocorrem num determinado momento da vida política. Se a situação política do país vier a determinar a necessidade de se formar uma coligação de forças políticas na oposição para se enfrentar as eleições, a UNITA não hesitará em fazê-lo”, diz Isaías Samakuva.

Muangai – Jonas Savimbi

Jonas Malheiro Savimbi, inconformado com a realidade colonial no seu País, ingressa na UPA (União dos Povos de Angola) em Fevereiro de 1961. A sua influência fez-se sentir imediatamente, tendo sido nomeado Secretário-geral desse Movimento. A acção política de Jonas Savimbi encorajou muitos jovens intelectuais a aderirem àquela organização nacionalista, facto que veio dar um novo ímpeto à UPA.

Em 1962 conseguiu convencer os Dirigentes do PDA (Partido Democrático Angolano) e da UPA para uma fusão de que resultou a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola). Ainda neste ano, com o seu contributo directo, constituiu-se o GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio), primeiro instrumento político-jurídico nacional opositor do regime colonial e Jonas Malheiro Savimbi desempenhou funções de Ministro dos Negócios Estrangeiros desse Governo. A sua habilidade diplomática permitiu, tão cedo, o reconhecimento do GRAE pelas instituições regionais e internacionais.

Jonas Malheiro Savimbi, em 25 de Maio de 1963 participou na criação da OUA (Organização da Unidade Africana) como Presidente da Comissão de todos os Movimentos de Libertação de África, que endereçou um Memorando aos Chefes de Estado Africanos, lido diante da Assembleia Magna da OUA pelo veterano do Quénia, Onginga Ondinga. Esta Comissão era dinamizada por Jonas Savimbi – Presidente, Mário Pinto de Andrade – Secretário e Julius Kianu – Relator.

As divergências de pensamento e método politico com a Direcção da UPA quanto à condução da luta levaram Jonas Malheiro Savimbi a abandonar a organização e fundar a União Nacional Para a Independência Total de Angola – UNITA, criando assim mais um espaço político de luta de libertação para dar novo impulso à luta anticolonial, baseando-se em três princípios fundamentais:

a) Direcção no interior do País;
b) Contar essencialmente com as nossas próprias forças;
c) Consciencializar o Povo e uni-lo na luta pelos seus direitos inalienáveis.

Assim a UNITA, sob Presidência de Jonas Malheiro Savimbi é criada aos 13 de Março de 1966 no Muangai, província do Moxico, apresentando aos presentes o seu Projecto Politico baptizado de Projecto do Muangai ou Projecto dos Conjurados do 13 de Março.

A 4 de Dezembro de 1966, Jonas Malheiro Savimbi recebe o “baptismo de fogo” no ataque ao posto colonial de Kassamba, comandado directamente por ele. Mas foi a 25 de Dezembro de 1966 no ataque à Teixeira de Sousa que oficialmente a UNITA sob liderança do seu Presidente, inicia a luta armada de libertação nacional. Este ataque deu à UNITA a sua personalidade politica e o seu reconhecimento nacional e internacional.

De 1 a 6 de Julho de 1967, Jonas Malheiro Savimbi é detido na Zâmbia, quando fazia uma digressão no exterior do País para angariar meios para a continuação da luta, devido aos ataques que a UNITA levava a cabo ao longo do Caminho de Ferro de Benguela (CFB). Aprisionado durante 6 dias, Jonas Savimbi, graças a intervenção do Presidente Nasser do Egipto junto do Presidente Kaunda, é exilado no país de Nasser durante nove meses, de onde regressa clandestinamente à Angola, em Julho de 1968.

Jonas Malheiro Savimbi foi o único Dirigente dos Movimentos de Libertação Nacional que se encontrava no interior do País por ocasião do 25 de Abril de 1974. Por isso, Jonas Savimbi viu-se obrigado a deslocar-se para o exterior do País com vista a procurar uma aproximação com os outros presidentes dos movimentos de libertação para estabelecerem uma plataforma de cooperação em face da presente realidade político-militar. Assim em 25 de Novembro de 1974 em Kinshasa – Zaire, Jonas Savimbi assinou a plataforma de cooperação com Holden Roberto da FNLA.

Em 18 de Dezembro de 1974 assinou a plataforma de cooperação com António Agostinho Neto do MPLA, no Luso – Moxico. De recordar que as conversações com o Presidente Neto iniciaram-se em Dar-es-Lam/Tanzânia em Novembro do mesmo ano e no Luso assinou-se a plataforma.

Jonas Malheiro Savimbi promoveu a Conferencia de Mombaça no Quénia em que participaram os lideres dos três movimentos de libertação, onde concordaram estabelecer uma plataforma de entendimento e cooperação criando condições conducentes à negociação com a entidade colonizadora, para a Independência de Angola. Esta Conferência ocorreu de 3 a 5 de Janeiro de 1975.

Por ocasião das discussões dos acordos de Alvor, Jonas Savimbi apresentou o texto onde defendia a multiracialidade de Angola e enriqueceu, também, os princípios referentes às eleições gerais. Jonas Malheiro Savimbi foi signatário dos Acordos de Alvor a 15 de Janeiro de 1975 juntamente com Holden Roberto e Agostinho Neto e os seus Movimentos (FNLA, MPLA e UNITA) reconhecidos como os únicos representantes do Povo Angolano.

Os Acordos de Alvor eram o único instrumento político-juridico de transição do poder do regime colonial português para os angolanos, representados pelos três movimentos de libertação. Esta transição passaria por eleições livres em Outubro de 1975 e o Governo saído das eleições proclamaria a 11 de Novembro de 1975, em nome de todo Povo Angolano, a Independência do País.

Muito cedo o MPLA iniciou a inviabilização da aplicação dos Acordos de Alvor, excluindo do processo a FNLA e a UNITA. Em face desse clima de violação dos Acordos, Jonas Savimbi, numa tentativa de salvá-los, em 16 de Junho de 1975, promoveu a cimeira de Nakuru (Qyénia) entre os dirigentes dos três movimentos para se restabelecer a paz no País antes da data acordada para a Independência.

Infelizmente, o MPLA violou totalmente os Acordos de Alvor e autoproclamou-se como o único representante do Povo Angolano e adjectivou os outros movimentos de inimigos e por isso nenhum palmo de terra para esses inimigos em Angola.

Assim, a 11 de Novembro de 1975 Agostinho Neto proclama a Independência de Angola em nome do Comité Central do MPLA e não do Povo Angolano.

Perante esta exclusão, acrescida à máxima de que para o inimigo (UNITA) nem um palmo de terra, Jonas Malheiro Savimbi em frente da UNITA apela à uma resistência popular generalizada contra o regime monopartidário e ditatorial do MPLA, apoiado pelo imperialismo russo-cubano.

Assim, durante 16 anos, Jonas Malheiro Savimbi dirige a resistência contra o expansionismo russo-cubano e o monopartidarismo, tendo angariado apoios e simpatias interna e externamente. Classificado como Estratega Político-Militar de Craveira Internacional; Combatente pela Liberdade; Esperança de Angola pelos países amantes da liberdade e democracia, Jonas Savimbi, obrigou à saída dos cubanos de Angola e o fim do monopartidarismo.

Em 31 de Maio de 1991, Jonas Savimbi assinou os Acordos de Bicesse/Portugal com Eduardo dos Santos, acordos que puseram fim à República Popular de Angola, levando o País às primeiras eleições gerais em Setembro de 1992.

As eleições de 1992 foram classificadas pela oposição de fraudulentas e não credíveis, reabrindo assim o clima de instabilidade.

Em 16 de Outubro de 1992, Jonas Savimbi, em nome da UNITA aceita os resultados das eleições para evitar o impasse e o regresso a guerra. Mas como as maquinações no sentido de voltar a impor o cenário de 1975/76 tinham amadurecido, o MPLA pôs em marcha a sua estratégia de genocídio politico-tribal, massacrando dirigentes e quadros, assaltando e espoliando todo o património da UNITA

Mesmo diante deste clima, Jonas Savimbi procurou sempre vias do diálogo para solucionar o conflito pós-eleitoral, protagonizando variadíssimas iniciativas diplomáticas em prol da Paz.

A carreira de Jonas Savimbi foi fundamentalmente de um cidadão sensível aos problemas do seu Povo; de um empenho total às causas profundas e legítimas do seu Povo; de um condutor de homens cujo pensamento e acção determinaram a evolução do processo de libertação do povo de Angola e de África Austral, tornando-lhe num dos Patriotas mais vibrantes e empreendedores do fim do Século XX.

Jonas Malheiro Savimbi tinha uma visão clara e convicta da dinâmica da sociedade e da necessidade de se ajustar à prática política a evolução inevitável da história. Foi ele o único dirigente nacionalista angolano que circunscreveu nos ideais do seu movimento, aquando da sua fundação em 1966, a democracia assegurada pelo voto do Povo através de vários partidos políticos. Impregnado deste valor, Jonas Savimbi, lutou com ele contra o colonialismo e o exclusivismo do sistema monopartidário.

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