O regime de sua majestade o rei de Angola ainda não declarou “guerra” a Portugal para defender a honra da sua mais emblemática filha, Isabel dos Santos, mas não tardará a fazê-lo. E tem legitimidade para o fazer.

Por Norberto Hossi

Como aqui se escreveu há minutos, em Luanda o regime continua com uma espinha, enorme por sinal, entalada na garganta. Não aceita que o Banco de Portugal se tenha negado a dar o registo de idoneidade a Isabel dos Santos para exercer funções na administração do BIC Portugal, onde é a maior accionista.

E, convenhamos, desta vez o regime até tem razão. Ou há moralidade ou comem todos. Se Isabel dos Santos não tem idoneidade para exerce funções na administração de um banco, tem essa mesma idoneidade quando o negócio é descarregar em Lisboa contentores e contentores de dinheiro?

Sabe-se, e nem isso irá tirar o sono ao clã Eduardo dos Santos, que Portugal recicla capitais do regime angolano, sem qualquer tipo de preocupações éticas ou morais. Se para esse efeito Isabel dos Santos tinha e tem idoneidade, porque carga de chuva vem agora o Banco de Portugal armar-se em moralista?

Angola, ou melhor, o regime, tem investido “especificamente em bens estratégicos” portugueses e, em troca, os governos de Lisboa têm servido a “estratégia de poder e reciclagem de capitais” dos dirigentes de Luanda, considera Francisco Louçã.

“Não há nenhuma potência colonial que se tenha transformado numa espécie de offshore [paraíso fiscal] da família real do país que foi a sua antiga colónia, e Portugal, hoje, é um offshore de Angola”, afirmou o ex-líder do Bloco de Esquerda, co-autor do livro “Os donos angolanos de Portugal”.

Se para esse efeito Isabel dos Santos tinha idoneidade, porque carga de chuva vem agora o Banco de Portugal armar-se em moralista?

Como em tempos recordava Francisco Louçã, continua a existir uma “ânsia dos sectores do capital português” para terem parcerias com Angola “ou até para a venda pura e simples” os activos estratégicos.

Portugal, de facto, tem uma dependência estratégica em relação ao regime angolano que se mostra irracional. Os “empresários” do regime fizeram da banca portuguesa uma peça basilar dos seus negócios, situação que se revela contraproducente por dependência de caudais financeiros que são, no mínimo, de origem duvidosa.

Mas se essa foi e é a opção portuguesa, se para esse efeito Isabel dos Santos tinha idoneidade, porque carga de chuva vem agora o Banco de Portugal armar-se em moralista?

“O que é vantajoso para Portugal e para Angola é que haja relações económicas, políticas e diplomáticas normais”, contrapõe Francisco Louçã, frisando que “o grande problema” é que “a imensa fortuna que Angola produz é, em grande parte, acumulada por uma família e essa família confunde-se com o Estado”, o que faz de Portugal “um local de lavagem de dinheiro de uma operação de extracção da riqueza angolana”.

“Quase todos os partidos” portugueses estão ligados ao regime angolano, o que explica o “silêncio político em Portugal” sobre as relações bilaterais, entende Francisco Louçã.

Assim é. Recorde-se que o PSD, CDS-PP e PCP rejeitaram no dia 8 de Janeiro um voto de condenação apresentado pelo Bloco de Esquerda sobre a “repressão em Angola” e com um apelo à libertação dos “activistas detidos”, iniciativa que teve a abstenção do PS.

Este voto do Bloco de Esquerda, porém, contou ainda com o apoio de seis deputados socialistas (Alexandre Quintanilha, Isabel Moreira, Inês de Medeiros, Isabel Santos, Pedro Delgado Alves e Wanda Guimarães), além do representante do PAN (Pessoas Animais e Natureza).

“É preciso travar e dar por finalizado este arrastado processo que visa intimidar, deter e punir aqueles que criticam a governação de José Eduardo dos Santos, que tem tido interferência directa ao longo de todo o processo, dando ordens no sentido de prolongar indefinidamente as audiências”, referia o voto da bancada bloquista.

Com este cenário, se para esse efeito de bajulação Isabel dos Santos tinha idoneidade, porque carga de chuva vem agora o Banco de Portugal armar-se em moralista?

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