Dois jornalistas do diário norte-americano The Washington Post, que se encontravam legalmente (se é que isso existe no reino de sua majestade o rei José Eduardo dos Santos) em Luanda, ainda por cima convidados pelo Fundo Soberano de Angola, foram detidos para interrogatório na passada segunda-feira, dia 13, na sequência de uma visita ao Hospital dos Cajueiros.

A equipa de reportagem do jornal, integrada por Kevin Sieff, correspondente para a África Oriental e Austral e pela fotojornalista Nicole Sobeck, não se deslocou expressamente ao Hospital dos Cajueiros. Não iam fazer nenhum trabalho específico a esta unidade hospitalar. Mas como as autoridades do regime sabem que os jornalistas (os que o são de facto) estão de serviço 24 por dias…

“Eles apenas queriam conhecer um bairro típico de Luanda. Por isso fomos ao Cazenga”, contou ao Novo Jornal o jornalista angolano Cândido Mendes, que se juntou aos repórteres como tradutor, tendo em conta a sua fluência no inglês.

Cândido Mendes, correspondente da agência Bloomberg em Angola, conta que a repercussão do surto de febre-amarela além-fronteiras, aliada à informação de que o Hospital dos Cajueiros tratou casos da epidemia, aguçaram a curiosidade dos jornalistas, que quiseram conhecer as instalações hospitalares. Tudo seria normal se, recorde-se, Angola fosse uma democracia e um Estado de Direito.

“Entrámos apenas para ver, mas uma vez lá, a fotógrafa viu uma paciente no chão e não resistiu a tirar uma fotografia. Foi quando surgiram os seguranças e nos encaminharam para a unidade policial que existe no próprio hospital. Daí fomos conduzidos para a esquadra do Cazenga [18ª]”, prossegue o jornalista Cândido Mendes.

Conta o Novo Jornal que, já com os cartões de memória da máquina fotográfica confiscados, e após um interrogatório que se alongou por cerca de quatro horas, os jornalistas foram libertados e, sob escolta, conduzidos ao hotel onde ficaram hospedados.

Apesar não ter sido solicitada nenhuma autorização à direcção do hospital para realizar uma reportagem, porque isso não estava nos planos da visita, o MISA-Angola já veio a público contestar a reacção excessiva das autoridades.

“Perguntas como, “porque é que escolheram o Cazenga, a tanta distância das Ingombotas, em referência ao hotel onde se encontravam hospedados… ou há quanto tempo trabalhas com eles” foram feitas”, assinala a organização de defesa da liberdade de imprensa, em comunicado.

“O MISA-Angola deplora o modo repetido como este género de incidentes passaram a ocorrer, nada abonatório para o país que se quer apresentar na arena regional e no mundo, como sendo um Estado Democrático, de constituição formal”, lê-se na mensagem, assinada por Alexandre Solombe.

BD exige explicações

Este caso levou já o Bloco Democrático a exigir explicações do ministro da Tutela, considerado que se tratou de mais um “caso de violação do direito à liberdade de imprensa”.

O Bloco Democrático exige a devolução dos equipamentos dos jornalistas e uma explicação fornal do ministro da Tutela bem como algo que o regime sempre desconheceu: um pedido de desculpas pelo sucedido.

O BD recorda, e bem, que “paira no ar a intenção de se esconder a real situação da saúde em Angola, pelo que o partido no poder, MPLA, terá adoptado uma postura de esconder o que se está realmente a passar na saúde em Angola”.

Angola está já a ser considerada como um país de risco para a saúde global pela sua incapacidade em manter a boa saúde da sua população e o risco de propagar doenças ao nível global, como é o caso da febre-amarela.

Recentemente o Secretário-Geral do Bloco Democrático, bem como o Secretário Provincial de Benguela, e o Secretário da Juventude do Bloco Democrático foram impedidos de visitar um hospital na Província de Benguela, mesmo após formal pedido por escrito.

O Bloco Democrático “considera que estando a pouco mais de um ano das eleições gerais de 2017, o clima em que mais uma vez os jornalistas em Angola vivem não faz acreditar que as eleições de 2017 venham a ser melhores que as passadas, pelo contrário esperemos um piorar da situação caso não haja a devida pressão ao executivo liderado por JES MPLA que continua a não ser capaz de mostrar abertura para a real liberdade de imprensa”.

Com este cenário, o Bloco Democrático lança alerta internacional para esta situação em Angola e lança um apelo nacional para a ampla protecção dos jornalistas em Angola, pois – afirma – só com a resistência política democrática a Liberdade e Modernidade serão conquistadas!

Comunicado do MISA-Angola

“O MISA-Angola tomou conhecimento do incidente que envolvendo três jornalistas, teve lugar nesta segunda-feira, no hospital dos Cajueiros.

Os profissionais passaram pelo hospital quando regressavam do Cazenga, que visitaram, enquanto bairro típico da cidade capital.

O incidente deu-se por volta das 16 horas no interior do estabelecimento quando a fotografa quis capturar imagens duma sala, onde presume-se, encontravam-se doentes deitados no chão.

Foi o pretexto para os agentes da segurança interromperem a visita. Os jornalistas foram detidos, os equipamentos confiscados e submetidos a interrogatório que tiveram início no posto policial do hospital, e prosseguiram na 18ª esquadra no Cazenga, para onde viriam a ser transferidos.

Os dois jornalistas de nacionalidade americana, encontram-se em Luanda para reportagens à convite do Fundo Soberano. Cândido Mendes é jornalista acompanhante de nacionalidade angolana.

Perguntas como, “porque escolheram o Cazenga, a tanta distância das Ingombotas”, em referencia ao hotel onde se encontravam hospedados… “Há quanto tempo trabalhas” foram feitas.

O MISA-Angola deplora o modo repetido como este género de incidentes passaram a ocorrer, nada abonatório para o país que quer apresentar-se na arena regional e ao mundo, como sendo um Estado Democrático, de constituição formal.

A algazarra que se gera no momento em que impreparados agentes da segurança agem, sejam eles em uniforme ou à paisana, incluindo da polícia, querendo apossar-se dos meios materiais dos jornalistas (como a cena que ocorreu nos Cajueiros), não é fortuita e conforma um “modus operandi”.

Ironicamente, a seguir ao “acto criminoso” de capturar imagens, tão mesquinho como acaba sendo, (embora contraste com a forma aparatosa em que a retenção ou detenção é feita) envolvendo agentes da polícia, nem se arrojam a apresentar ao magistrado público “os criminosos jornalistas”. Porquê? A resposta é simples: não é crime!

Acabaram por ser os próprios polícias, a transportar em escolta para o hotel, os jornalistas, forçando-nos a abandonar a sua viatura na rua.

Deste modo, a polícia está a tornar-se no principal violador da lei, por “Abusos de autoridade”, conforme o artigo 291 do código Penal.

A quem deseja proteger, pela via da obstrução ao livre exercício da actividade jornalística!?

Não nos digam que os jornalistas foram retidos para averiguação! Não houve flagrante delito. Tirar uma fotografia, por anomalia da acomodação do ser humano, não é crime.”

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