Uma delegação do Partido Comunista Português (PCP), chefiada por Pedro Guerreiro, membro do secretariado do Comité Central, inicia segunda-feira uma visita de quatro dias a Luanda a convite do MPLA, partido no poder em Angola desde 1975.

Fonte do MPLA, presidido por José Eduardo dos Santos, igualmente chefe de Estado e Titular do Poder Executivo, adiantou tratar-se de uma visita de trabalho a “convite da direcção” daquele partido.

O PCP é um aliado histórico do MPLA, desde o período da luta anticolonial, e ainda em Março passado rejeitou no parlamento português, um voto de condenação apresentado pelo Bloco de Esquerda sobre a “repressão em Angola” e com um apelo à libertação dos “activistas detidos”, criticando a governação de José Eduardo dos Santos.

O PCP – que se juntou no voto contra ao PSD e CDS-PP – demarcou-se totalmente desta iniciativa, apresentando uma declaração de voto na qual se adverte que outras forças políticas “não poderão contar” com os comunistas “para operações de desestabilização de Angola”. Nem contra o regime de Angola nem, recorde-se, contra a “democracia” da Coreia do Norte.

Durante a visita a Luanda, a delegação comunista portuguesa deverá manter encontros com dirigentes nacionais do MPLA.

Para terça-feira está ainda prevista a visita da comitiva portuguesa à província do Huambo, onde será recebida pelo primeiro-secretário do Comité Provincial do MPLA, e governador provincial, general Kundi Paihama, prevendo-se uma passagem pela nova centralidade do Lossambo, em construção, com mais de 2.000 casas.

A delegação do PCP integra além de Pedro Guerreiro, que é também responsável pela secção internacional do partido, os dirigentes José Capucho, membro do secretariado do Comité Central, e Carlos Chaparro.

Na quarta-feira, 15 de Junho, a delegação será recebida em audiência, na sede nacional do partido, pelo vice-presidente do MPLA, Roberto de Almeida.

No que ao regime de Angola respeita, o PCP continua igual a si mesmo, ou não fosse um dos pais do MPLA, ou não fosse o principal responsável pelo facto de o MPLA estar no poder em Angola desde 11 de Novembro de 1975.

Nesta matéria, o PCP defende a estratégia seguida – para não se recuar muito tempo – por José Sócrates, Passos Coelho e Cavaco Silva. Ou seja, um diálogo bajulador, servil e canino.
Não nos esqueçamos ainda que que o próprio Partido Socialista é irmão do MPLA na Internacional Socialista.

José Eduardo dos Santos, um presidente que está no poder desde 1979 sem nunca ter sido nominalmente eleito, continua a gozar à farta com a rapaziada que tem o poder em Lisboa. Perdeu um velho amigo, José Sócrates, mas encontrou na dupla Passos Coelho/Paulo Portas novos amigos que continuaram a abrir as portas (e outras coisas) que existiam e as que não existiam à entrada triunfal do seu clã. Seguiu-se António Costa e, nesta matéria, só mesmo as moscas é que mudaram.

E, afinal, António Costa – tal como Jerónimo de Sousa – nada mais é que uma reedição dos anteriores amigalhaços de José Eduardo dos Santos. São, de facto, fuba do mesmo saco. O “querido líder” sabe disso e goza à brava. Faz bem. Se eles se ajoelham… têm de rezar. E quando precisa de uma ajudinha no branqueamento dos seus crimes pode sempre contar, é claro, com os camaradas do PCP. Pode ele, como pode Kim Jong-un.

Ao que parece, tal como José Sócrates, também António Costa (ainda para mais agora que precisa do PCP para governar) não está interessado em que o MPLA alguma vez deixe de ser dono de Angola. Os comunistas assinam por baixo. O processo de bajulação continua a bem, dizem, de uma diplomacia económica que – neste caso – se está nas tintas para os portugueses e para os angolanos.

Embora já não tendo, como nos tempos áureos do camarada Álvaro Cunhal, tantos ditadores para idolatrar, o governo PS/PCP (nesta matéria o Bloco de Esquerda está na oposição, sendo que PSD e CDS estão no governo) continua a querer dar-se bem com os que existem, sobretudo com aqueles que têm dinheiro para ajudar a flutuar as ocidentais praias lusitanas.

Tal como Passos Coelho e Paulo Portas, António Costa e Jerónimo de Sousa (um mais modesto e o outro mais efusivo) acreditam que o importante para Portugal são os poucos que têm milhões e não, claro, os milhões que têm pouco… ou nada. E têm razão. São esses poucos que poderão ajudar a flutuar o país, bem como a branquear os BPN, BES, BANIF etc.. Prorroga-se, portanto, o prazo de validade do estatuto de protectorado que Angola concedeu a Portugal.

E se Paulo Portas dizia que as relações com Angola eram excelentes, é porque eram mesmo. É por isso que o actual governo socialista e comunista quer ir mais além nesta matéria. E quer ficar na história por ser no seu consulado que se firmará a Oferta Pública de Aquisição lançada por Angola (que não pelos angolanos) sobre Portugal.

As relações são tão excelente como os 68% (68 em cada 100) de angolanos que são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com fome.

Tão excelentes como o facto de 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Tão excelentes como Angola ser um dos países mais corruptos do mundo.

Tão excelentes como a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, ser o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos.

Tão excelentes como o facto de 80% do Produto Interno Bruto ser produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada ser subtraída do erário público e estar concentrada em menos de 0,5% de uma população.

Tão excelentes como a certeza de que o acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, estar limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Corroborando a velha estratégia de bajulação comunista, socialista, social-democrata e democrata-cristã ao regime angolano, os portugueses continuam agora a assistir a novos episódios da mesma bajulação, embora com diferentes… moscas.

Parafraseando José Sócrates, não basta ser ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros para saber contar até doze sem ter de se descalçar… Mas, é claro, ser (pu apoiar) do governo é suficiente para, por ajuste directo, entregar ao dono de Angola tudo o que ele quiser. Espera-se, aliás, que queira tudo e mais alguma coisa.

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