O clima político está tenso. Muito tenso, face não só à crise económica e social, mas principalmente, à partidocrata. Angola, de repente, ficou hipnotizada, impotente, por obra e graça da engenharia de sua majestade. A classe política parece domesticada, muda e surda. Não reage, quando se lhe pede acção, ante os desvarios presidenciais.

Por William Tonet

Os comunicados frouxos dos partidos da oposição, em situação de crise inconstitucional e ilegalidade, engordam o sistema, não lhe fazendo sentir arrepios na coluna, se convocassem uma acção de desobediência civil, caso não se continue a desrespeitar a Constituição e a Lei.

Quando uma República, paulatinamente, vai definhando os seus pilares estruturantes, para práticas monárquicas, algo vai mal, muito mal, quanto a estrutura mental dos integrantes do regime, convertidos a gritante submissão a um Homem só.

Um homem tendo ao alcance, os instrumentos do Estado, ao invés de servir a comunidade, subverteu-os, para a consolidação de um extenso e militarizado poder unipessoal, que engoliu a justiça e privatizou a economia pública.

Mesmo quando em causa está a defesa da soberania, a inexistência de órgãos independentes e imparciais, como as FAA e a Polícia, estes são incapazes de colocar um travão, nos excessos, não só por estarem partidarizados, mas também, por receio de confronto com o exército privado (UGP) do chefe.

O caos é geral, o sofrimento do povo é total, a saúde está uma lástima, a educação está “burralizada” e a justiça é uma comédia, que anda a reboque da partidocracia dominante.

Mas as últimas bestialidades governativas, indiciam não estarmos no princípio do fim do regime, mas no meio do fim, face ao excesso de violações administrativas.

Quantos de nós vaticinaram o desnorte financeiro actual e o rombo desenfreado dos cofres do Estado, por um núcleo reduzido de dirigentes, que em 1975 se apresentaram como proletários e, desde 1992 se converteram em proprietários vorazes delapidadores das finanças públicas. Tornaram-se gatunos, capitalistas, maldosos e muitas vezes assassinos, tudo para a manutenção do poder.

O objectivo principal, do regime, do MPLA/JES, diferente do MPLA de Mário Pinto de Andrade, nunca foi servir o povo, mas servir-se de um povo, espezinhado e amordaçado, pela cegueira maquiavélica de quem, considera o dinheiro, mais importante do que a vida.
Como entender que um Presidente se sinta bem e não declare calamidade sanitária, quando morrem, só na capital do país, mais de 500 crianças, face à epidemia de febre-amarela.

É um crime contra o Direito à vida, art.º 30.º CRA (Constituição da República de Angola), passível de procedimento criminal, porquanto um Estado não pode esvaziar os cofres públicos, para benefício de uns tantos que se tornaram saqueadores de colarinho branco, autênticas sanguessugas, com clones no sistema judicial.

E é, também, crime um regime manipular com desinformação os cidadãos, “privatizando ideologicamente” a comunicação social pública, quando, na prática é o maior fomentador de desemprego e pobreza dos angolanos.

José Eduardo dos Santos, desde 1979, nunca foi capaz de montar um gabinete com competência técnica capaz de engendrar um projecto para o país, onde os angolanos, no geral, estivessem em primeiro plano, tudo por ter chegado ao poder, não pela demonstração de competência técnica, mas bafejado pela sorte circunstancial. E, nessas condições, não se pode esperar muito de um líder que não conhece o país, pois em 37 anos de poder, nunca dormiu duas noites numa das 18 províncias.

Sobre o desemprego, um dos maiores responsáveis é o próprio presidente, quando dirigindo um país, que nem uma bucha produz, aprovou o Decreto Presidencial nº 135/10, de 13 de Julho, que impede a importação de veículos ligeiros com mais de 3 anos e de veículos pesados com mais de 5 anos. Em contramão abre o monopólio a estrangeiros para o negócio de viaturas, frustrando o sonho de primeiro carro a milhares de professores, enfermeiros e outros da classe intermédia emergente.

E é de não haver um real sentimento de servir os povos autóctones de Angola, que a República está a dar lugar à monarquia, com a ascensão dos filhos para o controlo das principais riquezas do país.

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