O Presidente de Angola, não eleito nominalmente e há 36 anos no poder, José Eduardo dos Santos dá razão ao Folha 8. Isto é, reconhece que a erradicação da fome, da pobreza, do analfabetismo e das injustiças sociais constituem “objectivos essenciais” que não foram ainda alcançados.

Por Orlando Castro

É claro que ser ele a dizer é uma coisa, ser o Folha 8 é um crime contra a segurança do Estado, uma tentativa de rebelião e de golpe contra o “querido líder”.

Seja como for, importa dizer que Eduardo dos Santos afirma tudo isto como se já não tivesse tido tempo (e de paz total já lá vão quase 14 anos) e meios financeiros para resolver todos esses problemas. O Presidente manifesta-se esperançado num “futuro melhor” e na capacidade dos angolanos em “vencer todas as dificuldades, mesmo os problemas mais complexos e difíceis”.

José Eduardo dos Santos fez estas considerações na tradicional mensagem de Ano Novo, transmitida em directo pela rádio e televisão públicas angolanas. Isto, diga-se em abono da verdade, foi em Dezembro de… 2011.

“Permanecem por realizar alguns dos nossos objectivos essenciais, tais como erradicar a fome, a pobreza e o analfabetismo, as injustiças sociais, a intolerância, os preconceitos de natureza racial, regional e tribal”, disse Eduardo dos Santos, esquecendo-se – como é natural – de dizer que o MPLA (no poder desde 1975) é o principal responsável.

Para o Presidente angolano, embora haja a registar resultados positivos, “ainda há e haverá sempre, como é natural, por causa da evolução e do crescimento, aspectos e problemas a requererem mais atenção e resolução prioritária nos domínios da educação, saúde, habitação, emprego e do fornecimento de água e energia”.

Traduzindo, apenas 38% da população angolana tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico, apenas um quarto da população tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade, 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos, 45% das crianças sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos.

Para ultrapassar as debilidades, o dono de Angola defendeu (continuamos a falar do que ele disse há quatro anos) que o Estado, a sociedade civil e o sector privado “devem continuar a conjugar e a aumentar os seus esforços com o objectivo de corrigir o que está mal, melhorar o que está bem, criar coisas novas onde for necessário, para aumentar” a capacidade de resposta e satisfazer as necessidades da sociedade.

“Por mérito próprio conseguimos alcançar tudo aquilo que queríamos. Com determinação, coragem, firmeza e grande vontade de vencer conquistámos a independência, e mais tarde a paz, construímos o nosso Estado e estamos a desenvolver o país em democracia”, frisou Eduardo dos Santos.

Relativamente ao facto de sempre que entender fazer um simulacro de eleições, Eduardo dos Santos salientou o facto de estarem a ser criados os “mecanismos legais” para que elas sejam “bem organizadas, transparentes e justas”.

A tradução desta garantia revela que o regime mantem o seu ADN, ou seja, está a preparar tudo para que, como nas anteriores “eleições”, embora pondo os mortos a votar… tal não possa ser detectado pelos observadores internacionais, pois os internos estão sob controlo.

Quanto às mudanças em curso noutras latitudes, e depois de reconhecer que o Mundo está em “constante transformação”, em que salientou ser “compreensível” o desejo de todos aspirarem a uma mudança para melhor nas suas vidas, José Eduardo dos Santos chamou a atenção para no caso de Angola, a história recente ensinar “que o processo de mudança pode ser brusco e radical ou evolutivo e suave, por fases”.

“Os processos radicais provocam rupturas e grande desorientação inicial com consequências sociais graves. As mudanças que decorrem através de processos democráticos e pela via do diálogo, da compreensão mútua, da convivência pacífica e do estrito cumprimento da legalidade, garantem estabilidade social e política”, concluiu num previsível “até já”.

Não fosse, mas afinal é, o triste facto de 40 anos depois a maioria do nosso povo continuar a passar fome, continuar a ser gerada com fome, continuar a nascer com fome e a morrer pouco depois com fome… se calhar ficaríamos satisfeitos.

No entanto, os que têm, pelo menos, três refeições por dia vão ter, certamente, um excelente 2016 com a bênção do dono do reigime e da reipública. Quanto aos milhões que nem um prato de pirão têm, para esses haverá mais do mesmo em 2016. Continuarão, é claro, a ter também a bênção do que os senhores feudais reservam aos escravos.

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