Para o Folha 8, José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979 sem nunca ter sido nominalmente eleito, voltou a ser em 2015 o mais democrata e impoluto presidente em África, ultrapassando o seu homólogo e amigo da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema.

Por Norberto Hossi

E ssa constatação, que todo o mundo vê e que se mantém correctamente há anos justificou, por exemplo, que Angola seja membro do Conselho de Segurança da ONU.

Assim, o Folha 8 lembra que o chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, chegou ao poder 1979, depois da morte do seu antecessor, Agostinho Neto, mostrando desde então a sua divina capacidade para gerir o país.

A governação do Presidente Eduardo dos Santos tem-se pautado por casos mundialmente exemplares de respeito pelos direitos humanos e democracia, de que é paradigmático o facto de a sua filha Isabel ser, com todo o mérito e independentemente de ser filha de quem é, a mulher mais poderosa em Angola e arredores.

O Fola 8 destaca ainda que, segundo a Agência Internacional para o Desenvolvimento, o país é extremamente rico em recursos naturais, sendo o segundo maior produtor de petróleo na África Subsariana e ocupa o quarto lugar no ranking mundial na produção de diamantes em bruto. Tudo graças à visão estratégica e muito acima da média de Eduardo dos Santos.

Dizem os poucos pobres e mal agradecidos cidadão que não são do MPLA, que apesar dos recursos existentes no país, 68% da população vive no limiar da pobreza, a educação não tem qualidade, 30% das crianças estão subnutridas, a esperança média de vida é de 41 anos e o desemprego elevado.

Esquecem-se que José Eduardo dos Santos só está no poder há 36 anos e que o MPLA só está há 40 anos. E, como se sabe, não é possível fazer tudo em tão pouco tempo. Nem mesmo Teodoro Obiang Nguema se aproxima dos calcanhares do presidente angolano. Muito menos Kim Jong-il.

Para o Folha 8, José Eduardo dos Santos voltou a ser em 2015 o mais democrata e impoluto presidente em África porque, mias ima vez em vez de partilhar o crescimento económico de Angola com a população conduziu uma política de intimidação, sobretudo nos meios de comunicação social e canalizou os fundos do Estado para contas pessoais ou de familiares.

Não nos esqueçamos que a família do chefe de Estado controla o sector económico no país, e que a sua filha Isabel serve-se do poder do pai para comprar activos em empresas portuguesas, como foi o caso da ZON Multimédia, Banco Espírito Santo e Banco Português de Investimento, entre outros, o que comprova que é o mais democrata e impoluto presidente de África.

Para o Folha 8, o presidente Robert Mugabe do Zimbabué, o rei Mswati II da Suazilândia e o presidente do Sudão, Omar Al-Bashir, são as personalidades que se seguem.

Em abono da distinção conta também o facto de Isabel dos Santos (a rainha santa do clã Eduardo dos Santos), que soube ser uma lídima seguidora do pai.

O êxito de Isabel dos Santos, assim como de outras entidades, não só em Angola, explica-se pela salutar proximidade do poder para os negócios. Não são precisos meios obscuros, basta o acesso aos negócios.

Normalmente associa-se a fortuna de Isabel dos Santos aos diamantes que o pai lhe teria dado, mas há uma hipótese muito mais simples que pode explicar a fortuna como, por exemplo, a concessão das telecomunicações (UNITEL) nos anos 1990.

Na altura, Angola estava a tentar que houvesse uma empresa internacional a concorrer à licença de concessão de telemóveis e em plena guerra civil ninguém queria arriscar e, de certo modo, o negócio teria de ser dado a alguém que tinha de estar próximo do poder. E quem melhor do que a filha do democrata e impoluto Presidente?

Só o facto de ter tido aquela concessão pode ter sido uma boa base para uma boa fortuna e basta ver o valor dos dividendos que são pagos pela UNITEL desde que foi criada sendo que teve dividendos desde muito cedo.

Consciente da envergadura de Eduardo dos Santos, não admira que Portugal apostasse tudo e a qualquer preço no regime, o que é diferente – muito diferente – de apostar em Angola. Lisboa sempre soube que o regime é um dos mais impolutos, democratas e livres do mundo e que os angolanos na sua maioria são ricos.

Neste jogo sempre estiveram duas variantes. Uma que nos diz que mais de 40% da nossa população vive com menos de 2 dólares por dia, que a maioria têm pouco ou nenhum acesso a água canalizada, saneamento básico ou electricidade. Outra que mostra à saciedade que Eduardo dos Santos é um dos homens mais ricos de África e que a sua filha Isabel é a mulher mais rica de África.

Portugal nunca se esqueceu que os donos do regime aprenderam com os melhores professores, os próprios portugueses. De forma quase contínua desde 1975, os sucessivos governos lusos forneceram quilómetros de corda ao MPLA que, supostamente, serviria para amarrar as relações entre os dois países. Mas a prática mostrou que a estratégia de Eduardo dos Santos era outra. Essa corda vai servindo para “enforcar” os próprios portugueses, única forma de acabar de vez com o complexo colonialista.

Mesmo sabendo que fazer negócios em Angola é praticamente impossível sem o envolvimento directo de políticos do partido do governo, Portugal nunca se preocupou. Pelo contrário. Alinhou. Lisboa precisava e Luanda tinha.

Cá no Folha 8, reflectindo o que é um desejo generalizados do povo faminto e, é claro, na linha da ONU que dá toda a cobertura a José Eduardo dos Santos, damos também o nosso contributo para o dossier de candidatura ao Prémio Nobel do Presidente, reconhecendo que ele é, no mínimo, o “querido líder” ou “o escolhido de Deus”.

Uma das suas características genéticas tem a ver com a capacidade de adaptação, interna e externa, para não olhar a meios para atingir os (seus) fins. Sobreviveu às mutações internas do MPLA, mesmo recorrendo aos jacarés para eliminar camaradas, e às externas, mantendo-se a flutuar com a queda do Muro de Berlim.

A sua longevidade no poder é digna de registo. José Eduardo dos Santos é, por enquanto, o segundo presidente da República há mais tempo em funções em todo o mundo. Apenas por um mês perde o primeiro lugar para o seu amigo Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, da Guiné Equatorial. Nunca foi nominalmente eleito. Mas é nisso que reside o seu segredo. Como reconhece, aceitou uma “democracia que foi imposta” e cavalgou nela.

Pois é. Como líder do MPLA, do governo e da República, Eduardo dos Santos, enterrou Lenine, o comunismo e rendeu-se ao capitalismo, aceitando mesmo que figurativamente se desse ao país uns laivos de democracia e de multipartidarismo.

Para cumprir os seus novos desígnios, José Eduardo dos Santos passou a conduzir o governo como se fosse a sua empresa de investimentos privada. E fá-lo canalizando as suas energias para intimidar os média e desviar fundos para a sua conta pessoal e da sua família.

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