Mais de duas centenas de pessoas manifestaram-se hoje defronte do gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa, manifestando solidariedade e exigindo liberdade para os presos de consciência detidos em Luanda desde Julho.

“N ão à repressão em Angola” e “Liberdade Já” são algumas palavras de ordem escritas em cartazes empunhados pelos manifestantes, que se encontram concentrados no Largo Jean Monet e que depois se vão deslocar para o Rossio, onde vão iniciar uma vigília de solidariedade com os presos de consciência.

Presentes na manifestação encontram-se muitos jovens angolanos e portugueses, além de responsáveis da secção portuguesa da Amnistia Internacional.

O activista Rafael Marques está presente na concentração, assim como a irmã do luso-angolano Luaty Beirão, que entrou hoje no 24º dia de greve de fome, e que se mostrou muito preocupada com a situação do seu familiar, detido no Hospital Prisão de São Paulo, em Luanda.

Indiferente a tudo isto está o Governo português. Está este como esteve o anterior. Basta ver, por exemplo, que o embaixador de Portugal em Luanda, João da Câmara, admitiu apenas ponderar a hipótese de visitar Luaty Beirão na prisão, caso – note-se – ele ou a família solicitem a intervenção da embaixada.

Por outras palavras, o mais alto representante português no nosso país admite reagir mas escusa-se a agir. Ou seja, se não for solicitado, o embaixador fecha os olhos e assobia para o lado.

“No caso de haver um pedido, então a embaixada ponderará”, disse o diplomata, esclarecendo que esta condição aplica-se apenas a Luaty Beirão, uma vez que é o único com nacionalidade portuguesa.

Muito bem. Estamos esclarecidos. Se mesmo com um cidadão que tem nacionalidade portuguesa, Portugal se comporta assim, é evidente que nunca, em tempo algum, jamais, se atreveria a tomar qualquer atitude em relação a quem tenha outra nacionalidade.

João da Câmara sabe que não pode fugir às determinações do regime. Aliás, poderia mesmo ser acusado de rebelião ou tentativa de golpe de Estado. A atitude de Portugal é hipócrita, servil, subserviente, bajuladora do regime. Mas nem sequer é algo de novo.

“Por si só a embaixada nunca poderá tomar essa iniciativa”, acrescentou João da Câmara, recusando-se a comentar as declarações do Ministério dos Negócios Estrangeiros Português, que na semana passada disse estar “muito atento” à greve de fome do activista luso-angolano.

Não se julgue, contudo, que a invertebrada posição de Portugal é nova. De há muito que assim é. Teve uma posição alta com José Sócrates, mas encontrou na dupla Passos Coelho/Paulo Portas – com o apoio de Cavaco Silva – novos amigos que continuam a abrir as portas que existem e as que não existem à entrada triunfal do seu clã, facultando-lhe livre acesso a todas as lavandarias do país.

Tal como José Sócrates, também o actual governo português não está interessado em que o MPLA alguma vez deixe de ser dono de Angola. O processo de bajulação continua a bem, dizem, de uma diplomacia económica que – neste caso – se está nas tintas para os angolanos.

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