Numa altura em que, a propósito das vigílias de solidariedade com os jovens activistas ilegalmente detidos, se ficou a saber que a Igreja Católica negociou a sua rendição ao regime, recordemos o Papa Bento XVI.

Por Orlando Castro

R ecordar-se-á a Igreja Católica de Angola o que disse, no dia 20 de Março de 2009, em Luanda o Papa Bento XVI? Se calhar o regime não a deixa recordar. Mas recordamos nós.

Bento XVI considerou essencial para uma “democracia civil moderna” o “respeito e promoção dos Direitos Humanos”, um “Governo transparente”, uma “magistratura independente”, uma comunicação social “livre” e “acabar de uma vez por todas com a corrupção”.

Num encontro com as autoridades políticas e civis angolanas e com o corpo diplomático no Palácio Presidencial da capital do país, o Papa afirmou que “Angola sabe que chegou para África o tempo da esperança”.

Bento XVI disse aos governantes angolanos, na presença do corpo diplomático, que estes são “testemunhas duma Angola que se levanta” depois de 27 anos (na altura) de guerra civil que “devastou o país”.

“A paz começou a lançar raízes. Trazendo consigo os frutos da estabilidade e da liberdade”, disse Bento XVI, considerando “palpáveis” os esforços do Governo para “estabelecer as infra-estruturas” e recriar instituições “fundamentais ao progresso e bem-estar da sociedade” que fizeram “voltar a esperança” entre os angolanos.

“Angola sabe que chegou para África o tempo da esperança. Cada comportamento humano recto é esperança em acção”, disse o Papa no Palácio Presidencial.

“As nossas acções nunca são indiferentes aos olhos de Deus e também não o são para o progresso da história”, declarou.

Bento XVI juntou aos citados requisitos para construir uma “democracia civil moderna” uma “administração pública honesta, uma rede de escolas e de hospitais que funcionem de modo adequado e a firme determinação, radicada na conversão dos corações, de acabar de uma vez por todas com a corrupção”.

Recordam-se? Não? Ou não ter memória faz parte do acordo de rendição e será moeda de troca para, por exemplo, alargar a Radio Ecclesia, Emissora Católica de Angola?

As encíclicas

Por outro lado, a encíclica “Caritas in veritate” (Caridade na verdade), que Bento XVI divulgouno dia 7 de Julho de 2009, defende a importância de incluir valores da ética no mercado. Em que mundo viveria o Papa?

Denunciando que a crise de então (como a de hoje) se deve, em parte, ao facto de se terem perdido esses valores, substituindo-se Deus pelo “deus dinheiro”, o Papa reforçou a tendência de abordagem de temas sociais que têm marcado as encíclicas nos últimos anos. A “Caritas in veritate” era já esperada em 2007, por ocasião dos 40 anos do documento fundamental da doutrina social da Igreja, o “Populorum Progressio”, de Paulo VI.

A encíclica é o documento mais solene produzido por um Papa, dirigido ao clero, aos fiéis “e a todos os homens de boa vontade”, e aborda questões doutrinais, de fé, de culto e mesmo disciplinares. Pensamos (mesmo sabendo que pensar pode ser crime) que a Igreja Católica de Angola dela tenha conhecimento.

Os objectivos das encíclicas vão desde ensinamentos sobre um tema doutrinal ou moral ao avivar da devoção, à condenação de erros ou à informação aos fiéis sobre os perigos colocados por correntes culturais ou ameaças de autoridades governamentais, segundo o site Catholic.net.

Não constituindo dogmas de fé, mas apenas ensinamentos ou posições da Igreja, as encíclicas devem merecer aceitação e respeito por parte dos fiéis, refere o mesmo site.

Bento XIV (1675-1758) terá sido, em 1740, o primeiro Papa a usar esta forma de comunicação com a estrutura da Igreja e com os fiéis, mas foi Leão XIII (1810-1903) quem a começou a usar com frequência, sendo autor de várias encíclicas.

A mais conhecida das suas encíclicas é a “Rerum Novarum”, sobre a questão operária, considerada um dos primeiros documentos da doutrina social da Igreja Católica, desenvolvida mais tarde por Paulo VI, na “Populorum Progressio”, e por João Paulo II na “Centesimus Annus”, sobre os cem anos da “Rerum Novarum”, entre outras.

João Paulo II foi dos Papas que mais encíclicas produziu, com 14 documentos, sobre os mais diversos temas, desde a inviolabilidade da vida humana (“Evangelium Vitae”), à harmonia entre fé e razão (“Fides et Ratio”), passando pelo trabalho (“Laborem Exercens”).

Bento XVI tinha escrito até então duas encíclicas: “Deus caritas est” (Deus é Amor), de 2005, e “Spe Salvi” (Esperança na Salvação), de 2007.

Até princípios do século XX, a forma mais conhecida de divulgação de documentos papais era a bula, assim chamada por ser lacrada com uma pequena bola (bulla, em latim) de cera ou metal.

As outras formas de comunicação do Papa à Igreja Católica são as cartas encíclicas, as cartas apostólicas, as exortações apostólicas e os “motu proprio”.

As cartas encíclicas servem sobretudo para dar instruções sobre uma devoção ou necessidade especial da Igreja, como a convocação de um Ano Santo, enquanto as cartas apostólicas são o meio pelo qual é exercida a autoridade do Papa em questões doutrinais ou organizativas, como a criação de dioceses.

As exortações apostólicas são documentos normalmente distribuídos após os sínodos, enquanto os “motu proprio” são resultado da iniciativa pessoal de um Papa, para abordar um tema ou uma questão de seu interesse particular, isto é, não ditada por uma necessidade imediata da Igreja.

O mais recente “motu proprio” data de Julho de 2007 e estabelece as regras para a utilização do rito tridentino (anterior ao Concílio Vaticano II) na celebração das missas, o que foi tomado como um gesto de abertura aos tradicionalistas de monsenhor Lefèbvre.

Voz do Papa não chega ao Futungo

O Papa Bento XVI convidou, estávamos em Novembro de 2011, os africanos a não idolatrar o poder do dinheiro e a tomar conta “daqueles que são postos de lado”. José Eduardo dos Santos não ouviu e detesta quem tenha ouvido.

Bento XVI, que falava durante a celebração da missa “O estado da amizade” em Cotonu, no último dia de sua visita ao Benin, disse, perante 30 mil fiéis e 200 bispos do continente africano, que a “realeza” de Jesus é diferente.

“Sem dúvida, pode parecer desconcertante para nós, mas hoje, como há dois mil anos, estamos acostumados a ver sinais de “realeza” em sucesso, poder e dinheiro e temos dificuldade em aceitar um rei que é o servo dos humildes”, disse.

O Papa aproveitou para pedir aos africanos para ajudar todos “aqueles que são postos de lado”, principalmente “todos aqueles que sofrem, os doentes, as pessoas afectadas pela Sida e outras doenças e todos aqueles que são esquecidos pela sociedade”.

“Mantenham a coragem”, disse o Papa, acrescentando que muitos em África “cuja fé é fraca têm uma mentalidade e o hábito de ignorar a realidade do Evangelho, acreditando que a busca da felicidade egoísta, fácil de ganhar, é o objectivo final da vida”.

E por falar em Igreja, em Angola a administração da justiça é muito lenta e os mais pobres continuam a ser os que menos acesso têm aos tribunais. Não, ao contrário do que dirão de imediato os arautos do regime, não é o Folha 8 quem afirma tal coisa.

Quem o disse em 2009 (nada de substancial mudou até agora), no mais elementar cumprimento do seu dever, foi o arcebispo da cidade do Huambo, D. José de Queirós Alves, em conversa com o Procurador-Geral da República do regime, João Maria Moreira de Sousa.

D. José de Queirós Alves admitia também que ainda subsistia no país uma mentalidade em que o poder económico se sobrepõe à justiça.

O arcebispo pediu maior esforço dos órgãos de justiça no sentido das pessoas se sentirem cada vez mais defendidas e seguras.

“O vosso trabalho é difícil, precisam ter atenção muito grande na solução dos vários problemas de pessoas sem força, mas com razão”, disse D. José de Queirós Alves.

Importa ainda recordar, a bem dos que não têm força mas têm razão, que numa entrevista ao jornal português “O Diabo”, em 21 de Março de 2006, D. José de Queirós Alves já dizia (e assim continua) que “o povo vive miseravelmente enquanto o grupo ligado ao poder vive muito, muito bem”.

Nessa mesma entrevista ao Jornalista João Naia, o arcebispo do Huambo considerava a má distribuição das receitas públicas como uma das causas da “situação social muito vulnerável” que se vive Angola.

D. Queirós Alves disse então que, “falta transparência aos políticos na gestão dos fundos” e denunciou que “os que têm contacto com o poder e com os grandes negócios vivem bem”, enquanto a grande massa populacional faz parte da “classe dos miseráveis”.

E, já agora, citemos Frei João Domingos que afirmou que em Angola “muitos governantes têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro”.

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