Exclusivo Folha 8.

O regime de Eduardo dos Santos está decrépito, já tem medo da própria sombra. A oligarquia dominante em Luanda persegue agora ferozmente todos aqueles que se lhe opõem.

Por Paulo de Morais (*)

A perseguição do regime a Luaty Beirão e aos seus companheiros activistas é inadmissível e, sobretudo, desproporcionada. Numa aparente demonstração de força, o regime revela a sua fraqueza. Um regime assente numa estrutura de poder com décadas, dispondo de forças armadas das mais bem equipadas do mundo – revela medo perante um pequeno grupo de jovens músicos e activistas, que acusa de conspirar para derrubar o governo (?!). É um prenúncio, o regime desmorona-se.

Luaty Beirão, que protagoniza uma heróica greve de fome, e os seus companheiros activistas detidos são hoje um símbolo de resistência. Resistência a uma estrutura de poder corrupto que, à volta do presidente, enriquece à custa da pobreza de todo um povo.

Apesar de Angola dispor de riquezas naturais valiosíssimas, o seu povo vive miseravelmente. Uma pequena elite aproveita-se das receitas do petróleo, dos diamantes e de outros recursos colectivos – enquanto as famílias sofrem com uma das maiores taxas de mortalidade infantil do mundo.

Enquanto Isabel dos Santos se pavoneia entre o jet-set mundial, as mães de Angola trabalham dia e noite para sustentar os filhos e vivem em pânico perante a ameaça de uma nova guerra. O desenvolvimento e a qualidade de vida a que os angolanos têm direito nunca chega.

Luaty Beirão merece pois a solidariedade de todos, de angolanos, de portugueses, de todos os homens e mulheres que no mundo lutam pela liberdade de expressão e de reunião; é afinal este o “crime” de que o acusam. Luaty apenas exige justiça numa terra onde esta escasseia. E com a sua atitude corajosa, mostra ao mundo que a democracia angolana está ferida de morte. A sua luta não é em vão.

Os angolanos que, como Luaty, lutam pela liberdade têm sentido nos últimos dias a solidariedade do povo português que, nas ruas, na imprensa e nas redes sociais, vem exigindo justiça. Esta solidariedade da sociedade portuguesa não tem,infelizmente, eco na classe política.

Lamentavelmente, a maioria dos partidos portugueses é conivente com a estrutura de poder cleptocrático de Eduardo dos Santos.

Os partidos que integram o governo (PSD e CDS) não se pronunciam, refugiando-se no falacioso argumento da não ingerência no sistema judicial de outro país. Mas o que verdadeiramente inibe o PSD e o CDS de se pronunciar, nem sequer são as relações institucionais entre Estados; outrossim, é a ligação privada dos principais dirigentes partidários a grupos económicos que desenvolvem negócios obscuros com familiares de Eduardo dos Santos e com outros altos dignitários do MPLA.

É também por via das fortes ligações ao MPLA que Partido Socialista e Partido Comunista Português se mantêm num comprometedor silêncio. O PS tinha toda a obrigação, enquanto membro da Internacional Socialista, de propor, há muito, a expulsão do MPLA desta organização ou, no mínimo, exigir explicações sempre que os direitos humanos são ameaçados em Angola. E quantas vezes isso acontece! Mas do PS nem uma palavra.

Também o Partido Comunista Português, que tanto se vangloria da sua tradição de resistência, nada diz. Intitula-se “partido irmão do MPLA”, porém recusa irmanar-se com o povo angolano. Mas apesar do alheamento comprometido dos partidos portugueses, os povos, em Angola e aqui em Portugal, manifestam-se, vão bem à frente da classe política que já nem os representa.

Cá como lá, “mesmo na noite mais triste em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não”.

(*) Candidato às Eleições Presidenciais de 2016 em Portugal

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