A hierarquia da Igreja Católica angolana, subserviente como (quase) sempre, desmentiu a invasão do templo de São Domingos, em Luanda, pela Polícia Nacional do regime, quando decorria uma celebração no dia em que estava anunciada uma vigília em solidariedade aos 15 jovens activistas detidos. Rendeu-se à mentira. Uma vergonha.

Por Orlando Castro

A posição consta de uma nota de esclarecimento/bajulação da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, também conhecida por igreja de São Domingos, assinada pelo seu pároco, Filipe Tula Daniel Quiviangui, e que resulta – de acordo com diversas fontes do Folha 8 – de uma ordem superior oriunda da hierarquia da Igreja Católica em Angola e aceite, embora sob protesto, pelo pároco da igreja de São Domingos.

Em causa estão denúncias feitas a partir das redes sociais e de publicações digitais, entre as quais o Folha 8, tendo por base testemunhas que, in loco, assistiram a tudo. Aliás, nós estávamos lá. Não nos contaram. Vimos.

De facto, deu-se uma invasão pela polícia, no dia 12 de Outubro, às 18:30, daquele templo, enquanto decorria a missa, na presença de pessoas que pretendiam promover no local uma vigília a pedir a libertação dos activistas, acusados de prepararem um golpe de Estado e um atentado contra o Presidente angolano, há 36 anos no poder sem nunca ter sido eleito nominalmente.

A igreja justifica que o seu comunicado foi emitido face ao “eco nas redes sociais” da “notícia sobre uma suposta invasão da igreja paroquial de Nossa Senhora de Fátima, em Luanda”. Levou tempo. Não queria emitir um tal comunicado. A isso foi obrigada. Pena é que tenha esquecido o seu acordo, que deveria ser sagrado, com a verdade e tenha igualmente olvidado uma das suas principais funções: dar voz a quem a não tem.

Acrescenta que, “em nome da verdade e, sem pretensões de pôr em causa a liberdade de informação”, o pároco esclarece que “não se verificou nenhuma invasão da Polícia no interior da igreja durante a celebração da santa missa”.

Pois. Não foi invasão? Aceitemos que não foi no sentido estrito do termo (“entrada violenta”). Mas entraram ou não? A igreja tem a certeza que os polícias não estiveram dentro do tempo? Não, não tem a certeza. Não tem nem pode ter porque eles estiveram lá.

O pároco negou ainda que tivesse havido “espancamento, moléstia ou outro tipo de violência contra os confrades que atendem à comunidade paroquial, nem padre nenhum foi levado como prisioneiro pela polícia”.

A muito custo, até porque não era isso que o regime queria, o documento de confissão admite que, afinal, “houve confusão lá fora, facto que fez com que o frade que presidia à missa, parasse por uns instantes a fim de se informar do que se passava”.

Que tipo de confusão? Não diz. Prefere pecar por omissão. Lá fora estava a Polícia Nacional do regime armada até aos dentes. Estava fora como depois passou para dentro. Filipe Tula Daniel Quiviangui sabe que a verdade não é a que consta do comunicado.

O documento termina frisando que “rezar pelas intenções de todos ou segundo necessidades específicas, é obrigação da igreja”.

Nesse sentido, “a igreja paroquial está e estará sempre aberta para atender todos os cristãos que desejam, em comunhão com a santa madre igreja, apresentar as suas intenções a Deus pelas diversas necessidades”, refere o comunicado.

Na verdade, por medo dos seus párocos, as igrejas deixaram de ser locais de culto seguro. Só o são desde que tenham a bênção divina do “escolhido de Deus”, ou seja, quando os crentes sejam militantes e bajuladores do regime.

Os demais que ousarem pensar em liberdade religiosa, desenganem-se, pois serão considerados arruaceiros, incluindo os padres, podendo ser, policialmente, escorraçados do interior da Casa de Deus, presos, torturados e até assassinados, com base, alegadamente, numa cartilha divina, em voga nos baús de qualquer eficiente “polícia ditatorial comunista”.

Pois. Só nos resta dizer: Oremos irmão! E, na dúvida, chamemos os bajuladores masoquistas e racistas, comentadores residentes na TPA, enquanto exímios assassinos do Direito, cuja elucubração jurídica lhes permite encontrar, na sarjeta, o preceito de vigília ilegal, quando se apela à justiça, ante acusação caluniosa de jovens, logo, reconhecendo-se o inverso: vigília legal, reunião de militantes e angolanos do MPLA, orando a favor da visão estratégica do “querido líder” ou “líder escolhido”, desobrigado a fazer cumprir a Constituição, quando em causa estiverem os “frustrados”.

Assim, a nação indígena (a comunidade internacional está noutra onda) ficou a saber que depois da queimada policial do reduto de Kalupeteka, no Monte Sumi, onde foram massacrados pela Polícia Nacional do MPLA, também já não se pode rezar nas igrejas católicas, sem autorização escrita, alegadamente, emitidas pelo Titular do Poder Executivo ou seu representante.

Importante: autorização do Papa, não serve. A brutalidade, a demonstração de força, o carácter repressivo e a demonstração de ódio demonstrada pelos agentes desta Polícia, comandadas no terreno, nos dias 11, na Igreja Sagrada Família e 12, na Igreja de São Domingos, em Luanda, pelo comissário Mateus André, aproximaram-me dos filmes da II Guerra Mundial, onde as semelhanças aos métodos da polícia Hitleriana, são gémeas.
Repita-se. Isto nós vimos. Ninguém nos contou e é mentiroso quem diga não ter acontecido. Filipe Tula Daniel Quiviangui está a mentir.

A situação político-social do país exige seriedade de todos os cidadãos, não se podendo fingir que nada se passa. A sociedade quer libertar-se das grilhetas da opressão colonial, que age, numa mão, com um carimbo democrático e noutra com um bastão militar, para impedir o crescimento das forças democráticas.

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