Isaías Samakuva, líder da UNITA, maior partido – e pelos casos mais recentes até parece ser o único – da oposição, apelou ao Governo norte-americano e à comunidade internacional para acompanharem “de perto o processo eleitoral angolano e desenvolverem esforços para o envio de observadores internacionais”.

Isaías Samakuva, candidato à Presidência da República, nas eleições gerais de 23 de Agosto, está em Washington, em visita de trabalho, convidado pelo Centro de Estudos Internacionais Estratégicos, segundo um comunicado de imprensa da UNITA.

Durante a sua estada, iniciada quarta-feira, Isaías Samakuva reuniu com peritos de assuntos africanos, com os quais abordou a situação actual de Angola, com destaque para o processo eleitoral que, recorde-se, é feito (tal como os anteriores) à medida do MPLA.

A UNITA tem vindo, desde o início do processo eleitoral, a levantar muitas e legítimas suspeições à volta do mesmo, apelando ao respeito pelas leis para a realização de eleições transparentes. O problema está no facto de o conceito de transparência da UNITA é diametralmente oposto ao do MPLA, partido que por sinal só está no Poder há 42 anos.

No comunicado, refere-se que o presidente da UNITA discursou também na sede do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, tendo abordado a situação do país, com foco para o processo eleitoral, na perspectiva da UNITA.

“Na perspectiva da diversificação da economia nacional, o Presidente Samakuva enfatizou a importância e a necessidade de investimentos internacionais para alavancar a economia angolana, que se encontra numa situação de crise, provocada pela queda do preço do petróleo e, fundamentalmente, pela má gestão”, lê-se no comunicado.

Tudo velho… como rei

Os partidos políticos angolanos desde 1992 que se têm queixado da lei eleitoral, só cosmeticamente alterada, que permite a fraude, por parte do MPLA. Mas impõe-se perguntar: o que têm feito para inverter tal situação?

Pouco. Muito pouco, respondem os angolanos que, cada vez mais e ao contrário das “ordens superiores”, pensam pela sua própria cabeça. E acrescenta que a lagosta sempre foi melhor do que a mandioca.

A Oposição sabe que a democracia assim não vai lá, sabe que assim nunca seremos um Estado de Direito. Mas, alegam, não é possível alterar este estado quando o regime se está nas tintas para a força da razão e, o que é verdade, põe em marcha a razão da força. Ainda não será este ano que veremos alguém dizer que o que não vai a bem tem de ir a mal.

Quem decide as eleições em Angola, nomeadamente a percentagem de votos que cada partido ou coligação tem, é a Casa Militar do Presidente da República. O Povo e os observadores foram e serão meras figuras decorativas. É assim que a comunidade internacional quer, é assim que o regime faz. Ou é ao contrário?

Os observadores internacionais que se passeiam pelo nosso país durante os actos eleitorais confirmam sempre democraticidade da votação.

Para além de ficarem nos melhores hotéis (ninguém lhes paga para ir ao país profundo ou para indagarem sobre o que se passa do lado de lá da cortina… de ferro) e comerem do bom e do melhor (se não fosse para isso o que é que vinham cá fazer?), estão sempre – honra lhes seja feita – na primeira fila. E estão na primeira fila para, dizem, ver tudo o que se passa. Além disso a sua localização estratégica permitiu que todos os vejam.

São espertos e fazem de nós matumbos. Os competentes na arte de ganhar eleições ficam lá atrás. Não são vistos, mas nada lhes escapa. De facto, e como é regra do regime para aceitar a democracia que – como diz Eduardo dos Santos – lhe foi imposta, na primeira fila de observação está sempre a subserviência, colectiva ou individual.

Respeitando as regras de quem os convida, os ilustres membros da comunidade internacional estarão sempre na primeira fila da ribalta construída pelo MPLA. Esse é o lugar de honra que nunca permite ver o que se passa. É uma boa estratégia para todos, com excepção do Povo. É que se vissem seria uma chatice não relatar.

E para uma comunidade internacional que se preze, o silêncio é uma regra de ouro. E se a isso conseguir juntar a cegueira, então é o diamante no cimo dos dólares. Angola é um exemplo acabado dessa realidade.

Em 2012, como lhe competia, o MPLA só deu luz verde aos observadores que entendeu. A União Europeia passou de 100 em 2008 para 2 (dois) em 2012. A CPLP conseguiu resolver a questão com 10 (dez). Apesar da redução numérica, o regime colocou como condição “sine qua non” serem invertebrados, corruptos e cegos.

Quem melhor, por exemplo, do que Pedro Pires para chefiar a Missão de Observadores da União Africana? Não foi ele quem em 2001 ganhou as eleições presidenciais cabo-verdianas à custa de uma fraude?

No entanto, a fraude não se limita ao acto do colocar o voto na urna. Começa antes, bem antes. Tão antes que ninguém da oposição consegue a tempo e horas (como, aliás, estava previsto na lei) saber o que se passa.

Por via electrónica, sob comando de técnicos mercenários, os resultados reais são convertidos na linguagem já estabelecida, razão pela qual muitos dos resultados apurados in loco nas assembleias de apuramento não coincidiram com os divulgados pela CNE. Por outras palavras. O cidadão vota na FNLA, mas os controladores sabem que isso aconteceu por engano, já que o MPLA é o Povo. Por isso contabilizam o voto para o guia supremo.

E, em muitos casos, a culpa nem é da CNE que, de facto, divulga os dados que recebe e que julga terem origem nos centros de escrutínio. Mas não. Os enviados desses centros passam pelo “campo de reeducação patriótica” e são convertidos e reenviados para a CNE.

A comunidade internacional diz sempre que as eleições podem ser consideradas mais ou menos justas. Uma terminologia exclusiva para os pretos africanos, pois no Ocidente (Europa e EUA) tal é intolerável. Não há eleições mais ou menos qualquer coisa. Ou são ou não são justas. Não há mais ou menos liberdade. Ou há ou não há. Simples!

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