A visita da ministra da Justiça de Portugal, Francisca Van Dúnem, a Angola foi adiada “sine die” a pedido (ordem) das autoridades angolanas. A ministra deveria embarcar esta noite rumo a Luanda. A agenda oficial da visita decorreria entre quarta e sexta-feira.

O comunicado do Ministério português da Justiça diz apenas: “A visita da ministra da Justiça foi adiada, a pedido das autoridades angolanas, aguardando-se o seu reagendamento”.

Certamente que é mera coincidência o adiamento surgir cinco dias após o Ministério Público ter acusado formalmente Manuel Vicente, vice-presidente de Angola, da alegada prática dos crimes de corrupção activa na forma qualificada, branqueamento de capitais e falsificação de documento.

Certamente que é mera coincidência o adiamento surgir ahoras depois de alguma Imprensa, entre a qual está o Folha 8, ter recordado que ministra portuguesa é irmã de José Van Dúnem, do sector ortodoxo e de obediência soviética do MPLA, partido no poder desde 1975, e cunhada da militante comunista Sita Valles, ambos mortos na sequência dos massacres de 27 de Maio de 1977, levados a cabo pelos radicais do MPLA, liderados por Agostinho Neto, alegando uma tentativa de golpe de Estado por parte de Nito Alves.

“Apesar da sua verticalidade e probidade jurídica, Francisca Van Dúnem poderá ter como óbice – ainda que não da parte dela, mas de terceiros e externos – o facto de ser uma das vítimas do nunca esclarecido e sanado massacre do 27 de Maio”, escrevíamos nós sob o título “Seja bem-vinda Senhora Ministra!”.

Como não acreditamos nesta coincidências, e de acordo com algumas das nossas fontes, esta decisão das autoridades angolanas (leia-se José Eduardo dos Santos) tem a ver com a ideia do regime do MPLA de que em Portugal tudo funciona à imagem e semelhança de Angola. Mas não é bem assim. O caso Manuel Vicente violou as “ordens superiores” que o Luanda mandou para Lisboa.

Ao contrário do que se passa no reino de sua majestade José Eduardo dos Santos, o Governo português não controla o Ministério Público. É que, apesar de toda a subserviência e bajulação do Executivo de Lisboa perante o regime do MPLA, ainda há limites.

Francisca Van Dúnem escusou-se hoje a esclarecer os motivos do adiamento da sua visita a Angola, remetendo explicações para o  comunicado divulgado pelo seu ministério.

“O Ministério da Justiça emitiu um comunicado nessa matéria, que será totalmente auto-explicativo. Tem lá todas as explicações”, disse a ministra, quando confrontada pelos jornalistas sobre o adiamento da visita, a pedido das autoridades angolanas, apenas um dia antes de ter início.

“Não há muito mais a dizer, como está dito no comunicado, como o comunicado explícita, a viagem foi adiada e vai haver um reagendamento”, respondeu Francisca Van Dúnem, que falava à margem do lançamento do livro “40 Anos de políticas de justiça em Portugal”.

Notícia em actualização

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