Centenas de angolanos revoltaram-se em vários órgãos de comunicação social, especialmente nas redes sociais, desde as primeiras horas de ontem, 4.9.2017, quando no hospital Josina Machel ocorreu a morte, por doença prolongada, do músico Edson Guedes Fernandes, mais conhecido por Nacobeta, que desde Outubro de 2016 suplicava por ajuda financeira para uma terceira intervenção cirúrgica às cordas vocais.

Por Idalina Diavita e Pedrowski Teca

A indignação da sociedade angolana está virada para a falsa solidariedade demonstrada por vários músicos nacionais e pelo Ministério da Cultura, que em momentos de aflição não ajudaram oportunamente aquele que um dia foi conhecido como “o Rei do Ndombolo”.

O polémico, enquanto em vida, ocorreu quando Edson Guedes Fernandes protagonizou uma música explícita contra as mulheres, que mereceu o repúdio selectivo do braço feminino do partido MPLA, a Organização da Mulher Angolana (OMA).

A acção do braço feminino do MPLA no princípio dos anos 2000, que coagiu Nacobeta a cantar uma música pedindo desculpas, suscitou rumores de que o cantor tinha sido “espancado pelas mamãs da OMA”.

No que evidencia a descrença nas instituições do Estado, a organização partidária, OMA, é tida por muitas mulheres angolanas como uma instituição eficiente na resolução de problemas concernentes a mulheres, especialmente em casos de violência doméstica, fuga a paternidade, abuso sexual, abuso de menores, etc., utilizando, segundo denúncias, métodos ilegais e violentos contra os homens acusados.

Mensagens e críticas

Na sua página na rede social Facebook, o músico C4 Pedro partilhou uma imagem com a sua fotografia e a mensagem: “Estou de luto por um amigo”, admitindo que se poderia ter feito mais em relação ao cantor Nacobeta.

“Ele não pediu para descansar em paz! Ele pediu ajuda! Podíamos ter feito algo e não fizemos! Quando digo que PODÍAMOS não me estou a referir somente aos artistas”, disse.

Em reacção, C4 Pedro foi duramente criticado por usuários da internet, relembrando-lhe que foi incapaz de ajudar o próprio pai, um outro músico que veio a público queixar-se que o filho e produtor de música nunca teve tempo para ele.

“C4 tenha vergonha na cara, devias estar calado. Você é uma figura pública, que iniciativa tiveste? Bastava você mesmo unir alguns dos teus colegas músicos e realizarem um ou dois concertos de beneficência a favor do malogrado, não fizeste. Para fazerem concertos para a bajulação é rápido. Essa nossa sociedade… Por exemplo, todos sabemos que os hospitais não têm medicamentos e materiais gastáveis, os nossos músicos podiam fazer alguma coisa, não fazem porquê?” questionou Arlindo LX.

Artistas como Calado Show, Celma Ribas, Telma Lee, Yannick Afroman, Edmázia, Titica, Gilmário Vemba entre outros, também manifestaram o seu pesar nas redes sociais.

A apresentadora Petra Gama escreveu: “Queríamos que o teu irmão viesse novamente nos dizer que essa notícia é falsa, infelizmente as horas passam e a dor da certeza de que partiste é verídica”.

“Assim, os famosos hipócritas que nunca antes se tinham importado com o estado de saúde do infeliz, vão começar a publicar a imagem do Nacobeta, para mostrar a dor que não sentem, as lágrimas que não têm e a lamentar a falta que nunca sentiram! Hipócritas que nunca sequer homenagearam o outro, desejando pelo menos “melhoras”, vão agora se manifestar! Ele só precisava de uma passagem para ir fora e se tratar, os famosos que ora estão em Portugal, ora em Espanha, a fazer tourné, nem um bilhete conseguiram, nada fizeram também. Cada um está preocupado com a sua carreira! Desgraçados! Que dor é ver alguém morrer por falta de gente que se preocupa!” lamentou a jornalista Regina Ngunza.

Mais críticas surgiram do controverso músico rapper Naice Zulu, que deseja não ver “políticos e empresários aparecedores tentando aparecer com sua partida sobre pretexto de consolar a tua família enlutada”.

“Valeu te conhecer e ser teu amigo, triste a realidade da nossa Angola e da nossa juventude, mais triste ainda tua partida por negligência. Não acredito na vida após a morte, então não espero te voltar a ver nunca mais, se não, nas lembranças e vídeos, foste para a única eternidade que existe diante da nossa vã existência, não fizemos nada para te ajudar, porque também precisamos de ajuda”, disse Naice Zulu.

Para o rapper, Angola é o único país do mundo onde o desporto e a cultura não representam a Nação.

“Aqui só os políticos são especiais, como é triste a arrogância e ignorância de quem nos governa. Todos os músicos e desportistas angolanos são pedintes, mas até o político de esquerda tem direito a saúde e educação para a sua família: Desculpem, não quero falar política, mas talvez ainda haja uma luz para esta juventude no fundo do túnel, como dizem as nossas mamãs nos óbitos. Cumprimentos à Própria Alixa, ao Bangão, ao Beto de Almeida, ao Tchissica, ao Wyza, ao Action Nigga, e à todos os que já se foram”, desejou.

“Não te posso desejar paz aonde vais, porque aqui também não temos. Você me deu momentos de alegria e de felicidades ao som da tua música. Mesmo diante deste cenário ridículo ao qual chamamos de Pátria amada, vai descansar Nacobeta A.K.A. O Rei do Ndombolo, nós vamos chorar por ti e por nós, por ANGOLA e por uma Nação de amor… dadada dadadadada, wakimono kia… diz ao Agostinho Neto, ao Jonas Savimbi e ao Holden Roberto que eles falharam… meus mais sentidos pêsames à família e a esta Nação angolana,” rematou Naice Zulu.

“Nesta hora de dor, o colectivo de trabalhadores do Ministério da Cultura endereça a família enlutada os mais sentidos sentimentos de pesar”, comunicou, através de uma nota, o Ministério da Cultura.

Nacobeta, que deixa viúva e três filhos, foi um dos principais pilares do estilo musical Kuduro, foi o criador de várias músicas que marcaram os angolanos, realçando o tema “Wakimono”.

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