VEJA O VÍDEO. Um grupo de quase uma centena de militares das Forças Armadas Angolanas (FAA) voltaram a sair hoje às ruas de Luanda, desta vez posicionando-se frente ao Palácio da Justiça. O Folha 8 deslocou-se ao local, que esteve sitiado por vários agentes da Polícia Nacional e efectivos das FAA.

Por Pedrowski Teca

Devido à manifestação dos militares, nos arredores do Palácio da Justiça, especificamente na via que dá acesso à Cidade Alta, militares e policiais impediam a paragem e circulação de cidadãos e viaturas. A via de acesso à Cidade Alta esteve bloqueada pela Polícia antimotim, que se fez presente com cães e equipamentos para repressão de protestos.

Quando a equipa do Folha 8 chegou ao local, onde sem descer da viatura, circulou por duas vezes, notou que os militares que protestavam, estavam cercados frente à entrada principal do Palácio da Justiça.

Os mesmo estiveram em formatura no local e em conversas com um grupo de oficiais superiores das Forças Armadas, possivelmente generais.

O F8 presenciou e apercebeu-se que houve um acordo entre os militares e as chefias que, presumivelmente, consistiu na análise e eventual resolução das reivindicações numa das unidades militares. Isto porque os militares que protestavam entraram em três autocarros do exército e foram transportados para uma unidade militar.

É de realçar que o F8, quer na sua última edição impressa quer no seu site, deu destaque ao protesto dos militares, que começou a 19.07, perto do Ministério de Defesa, em Luanda e da Guarnição de Luanda, para (“por enquanto pacificamente”) protestar contra decisão, arbitrária e prepotente, do ministro da Defesa – João Lourenço – que mandou suspender o pagamento dos irrisórios subsídios e reformas a que têm direito.

Cumprindo ordens superiores do comandante-em-chefe, que se escudou no ministro da Defesa, as forças de segurança trataram imediatamente, no passado dia 19, de pôr na ordem os manifestantes, a grande maioria dos quais até agora recebia entre 10, 20 ou 30 mil kwanzas, equivalente à 20 ou 30 euros por mês.

Embora seja uma questão de carácter laboral, os manifestantes não deixam de lembrar que foram militares, que lutaram pelo seu país, e que “continuam a saber como se usam as armas”, embora essa “não seja a opção que pretendem tomar”.

E fizeram-no com uma imagem que deve levar a reflexão, a maioria foi fardada. Sim! Com a farda do exército nacional, que permite visualizar a crise no seio dos militares, colocados uns contra os outros, em dois lados da barricada que deveria ser uma só.

Recordam, aliás, que “há muitos oficiais na reforma a receber milhares de euros por mês e que, na verdade, nunca foram militares, tendo chegado a essa situação por conivência criminosa do regime”.

A decisão agora tomada por João Lourenço pode já não ser a gota de água que faz transbordar a paciência mas, antes, o fósforo que ateou o rastilho que pode causar um incêndio de graves consequências.

“Nós viemos muitos fardados, como demonstração de fidelidade às forças armadas, acredito, que muitos terão armas, até por ter havido unidades que foram cumprir missões no Congo, que foram mandadas para casa com todo o seu arsenal”, disse ao F8, Cristóvão José, ex-FAPLA.

A situação já é antiga e de há muito que os ex-militares angolanos reivindicam também o pagamento de indemnizações e salários em atraso desde 2010. Nem mesmo o Presidente da República, por inerência também comandante das Forças Armadas, e ainda chefe do Governo, José Eduardo dos Santos, mostrou ao longo dos últimos anos qualquer preocupação na resolução do assunto.

“Estes senhores são maus, são feiticeiros, andam a gozar com o povo, pois nós é que os colocamos e aguentamos no poder e eles nos tratam como animais. Nós combatemos pelo país, eles combatem pela corrupção e enriquecimento ilícito”, afirmou Malaquias Kimbua, ex-coronel, para quem, “nós até nem queremos muito. O governo apenas poderia conceder-nos determinadas facilidades, como passes nos transportes, descontos aos nossos filhos nas escolas e hospitais e até, chegamos a pedir apenas um subsídio mensal entre 20 a 30 mil Kwanzas, ao invés de nos darem de uma vez, um montante de desmobilização, em que a maioria depois de 20 anos de espera recebe, apenas cerca de 100 mil kwanzas, que não dá para nada, em função das dívidas, que contraímos”, explica.

“Esta manifestação não é de manifestantes, é de militares e se a polícia não tiver um comportamento adequado, nós também vamos reagir”, dizia em 19 de Abril de 2015 Mário Faustino, um dos elementos da organização que nesse dia concentrou centenas de militares numa reunião que teve lugar no Cazenga. Não é, pois, por falta de avisos que o Governo continua a, tanto quanto parece, querer que nesta altura eleitoral os ânimos se exaltem e a violência tome conta do país.

Tal como disserem em 2015, hoje os manifestantes continuam a lembrar, com louvável paciência, que “os polícias e os militares no activo (muitos dos quais até estão solidários connosco) que existem em Angola não têm mais técnica que os ex-militares. Nós não queremos que eles ajam com violência para nós também não partirmos para a violência, porque todo o pessoal está mesmo frustrado”.

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