A Direcção da UNITA afirma que recebeu, “escandalizada”, com “estupefacção” e “desilusão”, a declaração do chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitando o candidato do MPLA pela vitória nas eleições gerais de quarta-feira. Também Nuno Dala arrasa a hipocrisia servil e bajuladora do presidente português.

“A UNITA reafirma que, até este momento, em Angola não existe nenhum Presidente da República eleito, como também ainda não existem quaisquer deputados eleitos”, lê-se num comunicado do Secretariado Executivo da Comissão Política do partido.

No sábado, o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, felicitou João Lourenço (MPLA), numa mensagem publicada na página da Presidência na Internet. Nas felicitações (provavelmente escritas mesmo antes das eleições e que apenas aguardavam um clique para estarem on-line) ao “Presidente eleito da República de Angola”, o chefe de Estado português sublinhou os laços fraternais que unem os dois países e os dois povos.

Também no sábado, o líder e cabeça-de-lista da UNITA às eleições gerais, Isaías Samakuva, numa declaração ao país feita em Luanda, foi peremptório: “O país ainda não tem resultados eleitorais válidos. O país ainda não tem um Presidente eleito nos termos da lei”.

O partido diz que, conhecendo a “sensibilidade acrescida aos fenómenos sociais e aos valores da democracia” com que o Presidente da Republica Portuguesa “tem vindo a interpretar o seu mandato”, “mais escandalizados ficamos com o seu posicionamento de reconhecimento de um Presidente, numa altura em que ainda se está a proceder ao escrutínio dos votos”.

Acrescenta a UNITA que Marcelo Rebelo de Sousa “tem ao seu dispor todos os mecanismos que lhe permitem saber de toda a realidade que envolve o processo eleitoral angolano”, pelo que não entende a “forma precipitada e desavisada como o Presidente da República Portuguesa felicita um suposto Presidente Eleito de Angola”.

“Os angolanos também querem que no seu país impere o Estado de direito, pelo que a UNITA apela a todos os interessados no dossiê angolano a terem calma e paciência até que os resultados definitivos, reconhecidos por todos, sejam disponíveis. Logo que terminarem os trabalhos de apuramento que se iniciaram no dia 26 de Agosto, e a CNE proclamar o presidente eleito, os angolanos todos terão a oportunidade de o felicitar. Nessa altura serão certamente bem-vindas todas as demais felicitações legítimas”, concluiu o comunicado do partido.

Entretanto, numa carta aberta dirigida a Marcelo Rebelo de Sousa, Nuno Álvaro Dala arrasa o comportamento do Presidente português, justificando a sua reacção com a “incompreensível mensagem congratulatória dirigida ao senhor João Manuel Gonçalves Lourenço, na qual lhe concede os parabéns por ter sido eleito Presidente da República de Angola.”

Relembra Nuno Dala que a “Comissão Nacional Eleitoral da República de Angola (CNE) ainda não declarou vencedor a nenhum dos candidatos e os respectivos partidos pelos quais concorreram às eleições de 23 de Agosto do ano em curso”, explicando ainda a Marcelo Rebelo de Sousa que, “à cautela, o partido UNITA e a coligação CASA-CE montaram e puseram a funcionar seus próprios centros de escrutínio paralelos, sendo que a UNITA conseguiu provar – mediante apresentação de actas operacionais e actas-sínteses – que, na verdade, a maioria qualificada (primeiro anunciada como sendo de 64%, a 24 de Agosto, e agora de 61%, como anunciada a 25 de Agosto) às pressas pelo MPLA não passa de ficção mirabolante”.

“O facto de existirem centros de escrutínio paralelos é seguramente estranho a países como Portugal, que Sua Excelência Preside, pois são Estados Democráticos de Direito, onde os processos eleitorais são credíveis, porque as respectivas instituições de administração eleitoral são sérias e fortes. Se assim não fosse, as vitórias eleitorais de Sua Excelência, do Presidente dos Estados Unidos (Donald Trump) e do Presidente da França (Emmanuel Mácron), respectivamente, teriam sido conseguidas com recurso à fraude”, escreve Nuno Dala, acrescentando que, “em Angola, os processos eleitorais não são credíveis. Daí a criação e funcionamento de centros de escrutínio paralelos, graças aos quais os partidos na oposição têm conseguido refutar a falsa estatística apresentada pela CNE, uma instituição que não tem poder real, não passando de instrumento de implementação da engenharia da fraude”.

“Como poder ver, a Sua declaração de felicitações ao candidato do MPLA é um grave erro político, que põe seriamente em causa a Sua idoneidade tanto de académico e especialista em Direito (um dos mais reputados em Portugal) como de político arguto e expediente”, afirma Nuno Dala, relembrando a Marcelo Rebelo de Sousa que a “sua mensagem de felicitações ao candidato do MPLA, um partido perverso que transformou Angola numa altamente risível anedota civilizacional, configura um desastre de comunicação política”.

Depois de recordar o tempo e as razões fabricadas que levaram o regime a prendê-lo (Processo 15+2) e de agradecer “as incontáveis manifestações de solidariedade do Povo Português, que muito se bateu pela nossa libertação”, Nuno dala diz:

“Constituiu para mim uma aziaga surpresa o facto de Sua Excelência ter felicitado não apenas um falso vencedor como, também, de ter legitimado a fraude que o regime do MPLA está a forjar, o mesmo regime cujas figuras fizeram de Portugal uma gigantesca lavandaria de dinheiro. Sim, milhões e milhões de euros depredados do erário público de Angola, cujo Povo vive numa revoltante e inenarrável miséria.”

A terminar, Nuno Dala salienta que “a Sua mensagem de felicitações ao sucessor do ditador José Eduardo dos Santos envergonha todos os Angolanos e Portugueses que são pessoas de bem. A Sua mensagem de felicitações ao candidato do partido-gângster faz de Sua Excelência um cúmplice do regime perverso e nojento do MPLA, tal como o são os analistas amorais locais, que se apresentam como académicos, mas que não passam de mercenários, aos quais tem sido atribuído tempo e espaço nos órgãos de comunicação social públicos e seus apêndices para defenderem o regime de José Eduardo dos Santos, recorrendo a elucubrações baratas de advogados desalmados”.

Como hoje escreveu aqui no Folha 8 João Paulo Batalha, “o corolário desta criadagem sabuja é a nota de duas linhas (envergonhada mas diligente) publicada pelo Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, congratulando João Lourenço por uma vitória que, roubo à parte, nem sequer foi ainda formalmente anunciada. A minha vergonha como cidadão português não pode hoje comparar-se ao justificado orgulho cívico do povo angolano.”

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