Os candidatos a presidente e a vice-presidente do MPLA, respectivamente o ministro da Defesa, João Lourenço, e ministro Administração do Território, Bornito de Sousa, protagonizaram há dias duas inaugurações que espelham o absurdo do governo de que são membros.

Por Rafael Marques de Morais (*)

No Huambo, o candidato à sucessão de José Eduardo dos Santos e actual ministro da Defesa, general João Lourenço, inaugurou um novo bairro social (centralidade) com “1482 apartamentos, 184 moradias térreas, 343 moradias de dois pisos e ainda 90 instalações comerciais”, de acordo com a Angop. Esta obra custou aos cofres do Estado 250 milhões de dólares e levou três anos a concluir.

Em Luanda, o candidato a vice-presidente, actual ministro da Administração do Território e organizador das eleições, Bornito de Sousa, inaugurou um edifício de seis andares para albergar a sede da Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL). Essa obra custou aos cofres do Estado 700 milhões de dólares, ou seja, mais de 100 milhões de dólares por andar. Levou três anos a concluir.

A falta de vergonha

No caso do Huambo, a distribuição de casas confere sempre pontos ao governo, devido ao grande défice habitacional, e por isso os cidadãos não se importam com os custos nem com a qualidade da empreitada.

Mas salta à vista a sobrefacturação da obra. O custo médio da construção de cada uma das habitações sociais, de muito baixa qualidade, fica em 125 mil dólares. O candidato João Lourenço que disse que ia combater a corrupção não faz contas. Só fala, fala.

Mas é no edifício da EPAL que o candidato à vice-presidência assume o papel de principal bobo da corte, desprovido de qualquer visão crítica e sentido de resguardo político.

Bornito de Sousa não saberá certamente justificar — porque é injustificável — o valor de 700 milhões para construir o referido edifício. Por exemplo, mesmo incluindo o saque, o luxuoso edifício sede da Sonangol, com 24 andares, ficou em pouco mais de 400 milhões de dólares. Qualquer cidadão sensato julga, primeiro, tratar-se de um engano no valor oficialmente revelado pelas autoridades e a comunicação social do Estado.

No entanto, nenhuma instituição do Estado, nem a própria EPAL, nem o candidato Bornito de Sousa se dignaram a desmentir as entidades oficiais que tornaram pública a informação dos 700 milhões de dólares. Logo, devemos assumir que é mesmo verdade.

Assim sendo, olhemos para os investimentos públicos que nos últimos sete anos se têm destinado a melhorar o sistema de abastecimento de água em Luanda.

De 2010 a 2017, o presidente José Eduardo dos Santos exarou três decretos presidenciais (e quatro despachos de suporte) autorizando investimentos para supressão do défice de abastecimento, de impacto imediato e lançamento de redes novas e execução de ligações domiciliares nas redes de distribuição de água em Luanda.

No total, o presidente, em sete anos, autorizou investimentos no valor de 309.5 milhões de dólares, cobertos pelas linhas de crédito da China, para a melhoria do abastecimento de água em Luanda. Fê-lo através dos decretos presidenciais n.º 79/10, n.º 85/13 e n.º 89/13, suportados pelos despachos presidenciais n.º 62/11, n.º 115/12, n.º 138/13 e n.º 145/13.

O valor dos investimentos constantes nos decretos presidenciais representa menos de metade do valor investido num edifício de seis andares para albergar a sede da EPAL no Talatona!

Mas é a cara de pau do presidente do Conselho de Administração da EPAL, Lionídio Ceitas, no acto de inauguração do edifício que merece uma abordagem à parte. Segundo a agência oficiosa Angop, disse ele que o empreendimento iria conferir maior dignidade à empresa.

“Não podemos ter a fama de ter apenas as melhores instalações de África, mas o nosso desafio é sim ser a melhor empresa do continente na distribuição e melhoria do líquido”, gabou-se Leonídio Ceita.

Temos aqui uma obra que nem sequer pode ser aferida em termos de sobrefacturação. É um roubo descarado. Temos um gestor megalómano extasiado com os vidros do edifício, com os espelhos que lhe permitem ser o maior narcisista a gerir uma empresa de águas em África. Vêm-nos à memória os anos oitenta, quando os angolanos, na maior das suas desgraças, se gabavam de ter o presidente mais bonito de África.

Lionídio Ceita é primo da primeira-dama Ana Paula dos Santos. Logo, goza de plena impunidade e pode fazer e desfazer e dizer o que quiser sem sofrer consequências.

Mas o que pensam as pessoas do abastecimento de água em Luanda? Colocámos a questão aos internautas.

Magno Domingos reside no Bairro Zango 3 (construído pelo Estado) há mais de oito anos, e nota: “Não corre água. Uma empresa chinesa veio cá meter tubagem e fazer as ligações domiciliárias há um ano, mas nunca correu água alguma.”

O Zango é fora do perímetro urbano. E na cidade? “Aqui no Kinaxixi, às vezes também sai um líquido de cor castanha… que não sei se chamo de água ou de veneno…”, diz Salesso Guilhotina.

Com excepção dos neutros, todos os mais de 80 comentários recebidos sobre o abastecimento e a qualidade da água são negativos. A EPAL chega a ser considerada como uma empresa engajada em assaltos aos bolsos dos consumidores, por cobrar água que não fornece. A mãe do autor, moradora no Bairro da Samba, depois de mais de três anos sem água na torneira, recebeu facturas de cobrança no valor então equivalente a dois mil dólares. Há já seis anos que vive da água dos bidões e das cisternas.

“A água comprada em cisternas também se pode chamar de abastecimento de água?”, questiona o internauta Miguel Ganga. “A qualidade é inquestionável. Há anos que o conselho é ferver para beber ou desinfectar com gotas de lixívia. Com este conselho tecnicamente recomendado por quem abastece [a EPAL], a questão não pode ser sobre a qualidade, mas sim sobre que qualidade podemos atribuir a essa água que para consumirmos ainda temos de a purificar duma e de ou outra forma. Há casos piores, mas a generalidade/regularidade é esta: ferver e desinfectar com lixívia para um mal menor a causar ao organismo”, explica o internauta.

Então, agora devemos sentir-nos orgulhosos porque a EPAL tem um escritório de 700 milhões de dólares, enquanto grande parte dos cidadãos em Luanda consome água suja. É essa a dignidade sabuja dos dirigentes angolanos e seus familiares-gestores.

O extraordinário não é a capacidade dos dirigentes para fingirem, ignorarem ou desprezarem a realidade a que sujeitam os seus governados. O extraordinário é a forma como o povo se adapta e se sujeita a todos esses abusos. Nem os nossos antepassados escravos se portavam de maneira tão servil e inferior quanto as gerações actuais.

Como argumentam alguns anciãos a propósito do poder deslavado do MPLA: “Esses homens governam com feitiço.” Só pode!

(*) Maka Angola

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