A candidata presidencial norte-americana, Hillary Clinton, elogiou o novo secretário-geral da ONU, António Guterres, dizendo que já deu provas de ser um defensor dos direitos humanos e dos mais vulneráveis.

Por Orlando Castro

Ficamos então a saber, pelos rasgados elogios que António Guterres fez ao regime de Angola, que as nossos crianças não são seres vulneráveis, mau gado o facto de Angola ser o país do mundo com o maior índice de mortalidade infantil. É isso, não é?

“Enquanto Alto-comissário para os Refugiados, deu ajuda e esperança a milhões de homens, mulheres e crianças que foram forçadas a fugir das suas casas. E é um construtor de consensos que consegue unir as pessoas para avançar interesses comuns e enfrentar desafios comuns”, acrescentou Hillary Clinton.

A democrata, que é a primeira mulher nomeada por um dos dois grandes partidos à Presidência e pode tornar-se a 8 de Novembro a primeira mulher Presidente dos EUA, salientou ainda a promessa de paridade feita pelo designado secretário-geral das Nações Unidas.

“Fiquei sensibilizada por Guterres indicar a igualdade de género como uma prioridade principal nas nomeações para cargos seniores. Encorajo fortemente esforços para aumentar a diversidade na liderança da ONU”, disse.

Pois é. Não é que isso diga alguma às centenas de raparigas raptadas, na Nigéria, pelos fundamentalistas do Boko Haram. Mas compreende-se. Isso são mulheres que estão lá para as terras do fim do mundo onde o importante não são as pessoas mas, é claro, as riquezas ali existentes e que tanta falta fazem também aos EUA.

No primeiro discurso na Assembleia-geral da ONU, após aclamação como 9º secretário-geral das Nações Unidas, que iniciará funções em 1 de Janeiro de 2017, António Guterres repetiu as duas palavras que resumem o que sentiu quando soube da decisão tomada pelo Conselho de Segurança de o indicar para liderar a organização internacional: “gratidão e humildade”.

Também existem, como António Guterres sabe, muitos angolanos que humildemente ficariam gratos se o Secretário-Geral da ONU se ele lembrasse que todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos há angolanos que morrem de barriga vazia e que 70% da população passa fome;

Ou se lembrasse que 45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, e que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos;

Ou não esquecesse que no “ranking” que analisa a corrupção, Angola está entre os primeiros, que a dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos e que o silêncio de muitos, ou omissão, deve-se à coacção e às ameaças do partido que está no poder desde 1975.

A senhora Clinton diz que Guterres juntou agora à gratidão e humildade “um profundo sentido de responsabilidade”, garantindo que não terá todas as respostas, nem imporá opiniões.

“Se for eleita Presidente dos EUA, espero ansiosamente trabalhar com Guterres e todos os nossos parceiros para moldar um futuro mais pacífico e próspero para cada cidadão do mundo”, concluiu Hillary Clinton.

Será que, entre outros, os angolanos são considerados cidadãos do mundo?

No passado dia 21 de Setembro, o antigo primeiro-ministro de Portugal agradecera já o apoio de Angola à sua candidatura ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas, elogiando (é o preço a pagar pelo apoio) o papel do país no contexto internacional.

“Gostaria de exprimir toda a minha gratidão e o meu apreço pelo que tem sido a posição do Presidente José Eduardo dos Santos, do Governo e povo de Angola, a solidariedade angolana tem calado muito fundo no meu coração”, referiu Guterres mostrando que, afinal, bajular é uma questão genética em (quase) todos os políticos portugueses.

Em Março, o Presidente José Eduardo dos Santos (que como Guterres bem sabe está no poder há 37 anos sem nunca ter sido nominalmente eleito) recebeu em audiência, em Luanda, o então candidato português à sucessão de Ban Ki-moon.

“Agora compete aos Estados-membros, entre os quais Angola, decidir, mas não queria deixar de exprimir esta grande gratidão em relação à posição angolana, que calou muito fundo no meu coração”, realçou Guterres que agora, já eleito, irá com certeza beijar a mão de sua majestade o rei de Angola, José Eduardo dos Santos. Aliás, terá muitas mãos para beijar, inclusive a de Angela Dorothea Merkel que, recorde-se, queria que Guterres fosse dar uma volta ao bilhar grande.

Enquanto candidato e por necessidade material de recolher apoios, António Guterres confundiu deliberada e conscientemente Angola com o regime, parecendo (sejamos optimistas) esquecer que, por cá, existem angolanos a morrer todos os dias, que temos um dos regimes mais corruptos do mundo e que somos o país com o maior índice mundial de mortalidade infantil.

Na sua última visita a Angola, António Guterres disse que, “por Angola estar envolvida em actividades internacionais extremamente relevantes, vejo-me na obrigação de transmitir pessoalmente essa pretensão às autoridades angolanas”.

Pois é. Está até no Conselho de Segurança da ONU. E, pelos vistos, isso basta. O facto – repita-se todas as vezes que for preciso – de ter desde 1979 um Presidente da República nunca nominalmente eleito, de ser um dos países mais corruptos do mundo, de ser o país onde morrem mais crianças… é irrelevante.

“Naturalmente como velho amigo deste país, senti que era meu dever, no momento em que anunciei a minha candidatura a secretário-geral das Nações Unidas, vir o mais depressa possível para poder transmitir essa intenção as autoridades angolanas”, sublinhou António Guterres.

Guterres tem razão. É um velho amigo do regime. Mas confundir isso com ser amigo de Angola e dos angolanos é, mais ou menos, como confundir o Oceanário de Lisboa com o oceano Atlântico. Seja como for, confirmou-se que a bajulação continua a ser uma boa estratégia. Nesse sentido, António Guterres não se importa de continuar a considerar José Eduardo dos Santos como um ditador… bom.

Quanto aos escravos, bem isso é um problema interno de Angola, dirão os paladinos da legalidade entre algo que têm três vezes, pelo menos, por dia e que muitos angolanos só ouviram falar: refeições.

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