Isabel dos Santos, empresária angolana, princesa herdeira do trono, mais do que milionária, filha do presidente nunca nominalmente eleito e no poder há 37, Presidente do Conselho de Administração da petrolífera estatal Sonangol, dona de grande parte de Portugal, assumiu o cargo de presidente da assembleia-geral do Petro de Luanda, um dos clubes mais representativos de Angola.

Por Orlando Castro

De acordo com uma nota da direcção do clube de Luanda, patrocinado (quem diria?) pela Sonangol, Isabel dos Santos tomou posse na sexta-feira à noite, juntamente com os restantes órgãos eleitos a 17 de Setembro, tendo colocado à direcção a meta de chegar aos 100.000 sócios.

Nada mais fácil, mas muito longe do que a princesa Isabel poderá fazer. Se o MPLA tem quase mais militantes do que a população do reino de sua majestade o rei seu pai, é só ela determinar que alguns milhões passarão a ser sócios do Petro.

Isabel dos Santos, primeira filha de sua majestade o rei José Eduardo dos Santos, liderou a lista única àquele órgão, tendo como vice-presidente (da assembleia-geral) Paulino Jerónimo, por sua vez (quem diria?) presidente da Comissão Executiva da Sonangol.

Na mesma lista concorreu ao cargo de presidente da Direcção do Petro (Atlético Petróleos de Luanda) Tomás Faria, que foi reeleito e também tomou posse na sexta-feira.

Considerada a mulher mais rica de África, Isabel dos Santos, 43 anos, tem negócios sobretudo na banca, energia e telecomunicações em Angola e Portugal. Recentemente a joalheira suíça De Grisogono, cuja maioria do capital é detido por Isabel e o marido Sindika Dokolo, comprou o mais caro diamante bruto do mundo pela módica quantia de 63 milhões de dólares

Além disso, o paizinho de Isabel (que a escolheu para liderar a Sonangol) é igualmente líder de um reino que é dos mais corruptos do mundo e que ostenta o diploma de ser o que a nível mundial regista o maior índice de mortalidade infantil.

Desde que assumiu o cargo de Presidente do Conselho de Administração da Sonangol, em Junho, Isabel dos Santos encarna de forma cada vez mais clara o papel de ser a sucessora do pai na liderança da monarquia angolana.

De Baku para os ovos e para o mundo

Nascida em 1973 em Baku (Azerbaijão, ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS), Isabel é a primeira filha de José Eduardo dos Santos, um presidente que é um sério candidato a um qualquer Prémio Nobel e, igualmente, uma figura cuja visão é muito superior – segundo os seus súbditos – a Amílcar Cabral e Nelson Mandela.

Perante a separação dos pais (a mãe é a jogadora de xadrez russa Tatiana Kukanova), Isabel foi viver com a mãe em Londres, onde estudou engenharia no King’s College, e conheceu o seu futuro marido, Sindika Dokolo, com quem se casou em 2002.

Nessa época, contam os cronistas do reino, Isabel abriu o seu primeiro negócio, um bar na baía de Luanda. Terá sido nos recantos desse negócio que descobriu a mina ou chocadeira que a transformaria na mulher mais rica do continente africano… e arredores.

Os cronistas anti-regime (leia-se defensores de um Estado de Direito) falam que o autor do milagre é, isso sim, o seu pai que, no uso dos seus poderes (que gosta de dizer que são democráticos), tem uma comissão em tudo quanto envolva dinheiro. Os investimentos superiores a 10 milhões de dólares serão exclusivamente tramitados pelo Presidente da República.

A ideologia socialista/comunista de Eduardo dos Santos só durou até o final dos anos 1990, altura em que já tinha quase 20 anos de comando do regime. Foi então que, por obra divina, abraçou o capitalismo e começou a assinar contratos de concessão com o capital privado estrangeiro para a exploração dos inesgotáveis recursos naturais que deveriam ser de todos mas que, obviamente, passaram a ser seus e dos seus comparsas.

Por alguma razão, afirmam os cronistas anti-regime, cerca de 70% da população sobreviva com menos de dois dólares por dia e, segundo a organização Transparency International, Angola é dos países mais corruptos do mundo.

Passada a fase do bar, Isabel entra de alma, coração e tudo o mais no negócio dos diamantes. O presidente cria a Endiama, empresa estatal para a exploração dos mesmos, aparecendo a sua filha como proprietária de 25% da sociedade.

Por outro lado, já incapaz de dar luz ao seu Povo, muito menos – como outrora – ao mundo, Portugal regressa em força a Angola. Foi o caso do “descobridor” Américo Amorim que, a bordo de uma lucrativa nau de cortiça, consegue que Eduardo dos Santos concedesse uma licença a um banco privado, o BIC. E, na velha tradição, Isabel dos Santos lá aparece com 25%. E, ganhando-lhe o gosto, Isabel leva tudo à sua frente.

Isabel dos Santos, como bem defendem os cronistas e arautos do regime, rejeita as insinuações de que seus negócios estão muito relacionados com a presidência vitalícia do seu pai. Faz sentido. Importa não esquecer que, como ela disse ao “Financial Times”, aos seis anos de idade vendia ovos como uma qualquer zungueira dos nossos dias.

O seu marido, o tal a quem o presidente da Câmara do Porto (Portugal), Rui Moreira, atribuiu a medalha de ouro da cidade, é mais assertivo quando fala da Isabel: “É muito tranquila e muito estável, gosta de ter uma perspectiva a longo prazo. Possui três qualidades que a transformam na grande força de Angola: autoconfiança, estabilidade e ambição.”

Enquanto isso, no final do século passado nasceu, obviamente por decreto presidencial, a primeira operadora de telecomunicações privada de Angola, a Unitel. Em 2001, entrou no negócio de telefonia móvel, já com 25% nas mãos de Isabel dos Santos. Apenas um ano depois, a Portugal Telecom (PT) pagou uma batelada de dinheiro para ficar com 25% da empresa angolana.

A Unitel é a maior operadora privada de Angola, com mais de 10 milhões de clientes, quase metade da população, e com lucros elevados.

Depois aportou nas praias lusitanas a Terra Peregrin, a empresa que Isabel dos Santos usou para lançar a OPA (Oferta Pública de Aquisição) à PT SGPS. Foi criada no dia 7 de Novembro de 2014 e tinha um capital social de 51 mil euros.

Alguns supostos especialistas portugueses revelaram, indignados, que a Terra Peregrin possui dois administradores, Isabel dos Santos e Mário Leite, o homem forte da filha do Presidente para os negócios em Portugal, e que o capital social era ridículo tento em conta que ofereceu 1,21 mil milhões de euros pela Portugal Telecom, 1,35 euros por acção.

Ao que parece, os areópagos políticos e jornalísticos de Lisboa estavam a duvidar da sustentabilidade financeira da Terra Peregrin (pelo seu parco capital social, 51 mil euros), bem como da sua idoneidade empresarial, por ter sido fundada poucos dias antes da proposta.

Ledo engano. Dinheiro é coisa que não falta a Isabel dos Santos. Para ela tanto faz ter um capital social de 51 mil euros, 510 mil, ou cinco milhões. O montante foi escolhido por que era suficiente para mexer com as águas putrefactas em que se encontrava a PT.

Quanto a ser uma empresa recente, não parece ser um argumento válido. Em Angola, por exemplo, até seria possível à filha do Presidente avançar com uma empresa a constituir futuramente.

Além disso, como cortina de fumo (espesso e opaco) foi uma jogada de mestre. Enquanto o pessoal andava entretido com estas histórias de embalar (tolos, sipaios e similares), Isabel estava calmamente a preparar outras jogadas, outras compras.

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