Na sequência das entrevistas sobre o mediático processo dos 15+2, cabe agora a vez a Benedito Jeremias Dali “Dito” que, como activista atento, analisa a situação do país e conta as circunstâncias que culminaram com a sua detenção em 2015.

Por Antunes Zongo e Dionísio Halata

Folha 8 – Quem é o Benedito Jeremias Dali, conhecido por Dito?

Benedito Jeremias Dali – Sou um jovem, natural da região leste do país. Estudante e funcionário público, colocado na Direcção Provincial da Geologia e Minas, na Lunda Sul, onde também sou professor. Sou solteiro e vivo sozinho com a minha filha ainda pequena, actualmente, em Luanda, onde tenho dado sequência aos meus estudos universitários no campo da Ciência Política.

F8 – Embora esteja, hoje, arrolado como um dos elementos que pretendia desestabilizar o país em 2015, no dia que foi detido era a primeira vez que participava da reunião…

BJD – Sim, realmente, era a minha primeira aparição na reunião. Mas já tinha recebido o convite um mês antes. Só não pude comparecer mais vezes porque me encontrava atarefado, nomeadamente com a realização das provas ou exames e, posteriormente, também com a minha filha, que estava doente. Mas fiquei disponível na mesma semana em que fomos detidos, que aconteceu no dia 20 de Junho de 2015.

F8 – Como foi a detenção naquele dia?

BJD – Aquilo foi estarrecedor. Quando fomos surpreendidos pelos agentes da DNIC, Serviços Prisionais, incluindo os homens do SINFO. Na verdade não sabíamos do que é que se estava a tratar. E quando nos apareceram não bateram sequer à porta… da sala onde estávamos reunidos, arrombaram. De seguida mandaram-nos levantar as mãos e disseram que ninguém podia mexer-se. Perguntamos o porquê e falaram-nos que estavam apenas a cumprir uma ordem superior. De quem não sabemos. Prontos, obedecemos e fomos algemados e levados todos para a URP (Unidade Rádio Patrulha, da Polícia Nacional). Postos lá, volvidos 30 minutos, conduziram-me para a minha residência, aonde fizeram uma revista, acreditando que havia lá armas. Não encontraram nada, felizmente, a não ser o computador e livros que levaram. Às 19h30 o chefe daquela operação, a que titulei de operação gatuna, mandou espalharem-nos pelas Esquadras policiais da capital. Fui levado para o Cazenga, mas quando chegamos lá estava muito lotada com presos. Fui então levado para o Cacuaco, na Esquadra do Ângelo, onde cheguei a ser ouvido pelo procurador, cujo nome desconheço. Quando saí do Ângelo é que fui parar à Cadeia Central de Luanda (CCL).

“Foram os deputados da UNITA e da CASA-CE que nos disseram do que é que estávamos acusados”

F8 – Quando souberam da acusação?

BJD – Um mês depois de estarmos presos, quando recebemos a visita de alguns deputados dos partidos políticos na oposição, como a UNITA e a CASA-CE. Eles é que nos transmitiram que estávamos a ser acusados do crime de tentativa de Golpe de Estado. Foi brutal para nós. Pois sempre fomos pessoas que primaram pela Paz. Estávamos a ser tratados por golpistas! Foi ingenuidade de quem teve a iniciativa de nos prender.

F8 – Diz-se que foi dos presos que mais sofreu. Porquê?

BJD – Sim, realmente. Fui dos que mais sofreu, quer a nível das agressões físicas e psicológicas. Cheguei a ser agredido a mando do director-adjunto do Hospital-Prisão de São Paulo, Adelvino da Veiga, sobrinho do ministro do Interior, Ângelo da Veigas Tavares.

F8 – Porquê?

BJD – Por ter reivindicado a violação do prazo de detenção, à luz da lei das medidas cautelares. Como as autoridades nada diziam, solicitamos ao referido director-adjunto do Hospital-Prisão, face à incompetência que apresentou, que chamasse o director nacional dos serviços prisionais, Joaquim Fortunato, para vir ter connosco, no dia seguinte. Ele comprometeu-se em fazer diligências para tal, e trazer-nos o director nacional. Na data combinada, o mesmo jamais apareceu. Diante deste impasse comecei a bater nos gradeamentos das portas das celas, fazendo, deste modo, um enorme barulho na instituição.

F8 – E o que aconteceu a seguir?

BJD – O director-adjunto apareceu duas horas depois. Ao invés de me ouvir, pôs-se a filmar o barulho. Terminada a gravação, ordenou aos agentes que abrissem a cela e me carregassem para uma zona restrita. Ali, apontaram-me uma arma à cabeça, fui bastante torturado e deixaram-se numa cela degradada. Não cedi à pressão, continuei a fazer barulho até que a porta desta caiu. Dias depois, após ter apresentado queixa, para amenizar a minha ira, o homem foi substituído, pelo que tive conhecimento.

F8 – Consta que foi também castigado na cadeia de Caboxa, no Bengo?

BJD – Foi muita tortura psicológica ali. Dormíamos no betão. Quando tentamos contactar o responsável, avisaram-nos que se tratava de uma pessoa muito arrogante e reservada. Tinha alguma alergia em lidar com activistas. Em Caboxa, na verdade, vivemos um ambiente muito hostil. Houve lá uma luta entre gangs (“Os Camabatela” e “Os da Criminal”), que culminou com a morte de um jovem. Nós estávamos na mesma cela com o senhor Eliseu e Betá, que mandavam nos demais prisioneiros e eram líder dos “Da Criminal”. A rixa deveu-se à disputa de liderança sobre o controlo da venda de drogas na cadeia. As drogas eram introduzidas pelos agentes dos Serviços Prisionais. “Os Camabatela” tinham ciúmes pelo facto dos “Da Criminal” fazerem “candonga” na prisão e, com isso, terem muitos benefícios. Como os líderes (Eliseu e Betá) estavam na mesma cela que nós, “Os Camabatela”, ao entrar, queriam espetar uma faca no Sedrick de Carvalho, por que recusava-se mostrar onde estavam os procurados. Não conseguiram, mas levaram todas as nossas coisas. Além do morto, houve 14 feridos nesse dia!

“Aprendi muito na cadeia e estou mais forte hoje. Quando estive preso li muito e passei a compreender coisas que antes jamais entendia”

F8 – Posto em liberdade, como se sente?

BJD – Muito bem e, tenho dito, mais livre do que próprio Eduardo dos Santos. Dá para amenizar a dor dos parentes que sentiram a nossa ausência. Aprendi muito na cadeia e estou mais forte hoje. Quando estive preso li muito e passei a compreender coisas que antes jamais entendia. E embora a situação do país não seja das melhores, estou mais preparado para levar a luta adiante. A cadeia ajudou-nos a redesenhar o modus de luta e a saber, de antemão, as tácticas dos nossos inimigos. Aquilo foi apenas uma parte da luta. Temos de continuar a lutar para libertar o país e institucionalizar um estado democrático e de direito, um dia.

F8 – Mas pensava-se que, após a detenção, se inibiriam e deixariam de promover manifestações!

BJD – Jamais. A tentativa do regime foi, de facto, essa. Temos dito que o senhor José Eduardo dos Santos desta vez escolheu as vítimas erradas, pois não pensou nas repercussões que este caso teria. A intenção do regime é instalar o medo generalizado na sociedade, distrai-la e maximizar o conformismo dentro dela…uma vez que o Presidente da República é contestado e o país não está bem. Como as ditaduras, geralmente, criam factos e situações políticas ou sociais para distrair as pessoas e legitimar as suas acções, entenderam por bem prender-nos. Mas as manifestações hão-de continuar.

F8 – Porquê? Não acredita numa mudança legal, pacífica, através de eleições?

BJD – Não! A própria literatura e a história nos mostraram que por via legal nenhuma ditadura foi derrubada, porque nenhum regime ditatorial organiza um pleito eleitoral para perder para outrem.

F8 – Acha então que a solução seria um Golpe de Estado?

BJD – Não propriamente um Golpe de Estado, mas que a população saísse à rua exigindo a retirada do ditador José Eduardo dos Santos. Isso sim, era bom e, é, possível. É até um direito constitucional, exigir a demissão dos servidores públicos.

F8 – Mas isso seria um golpe! Não crê mesmo nas eleições como a melhor via então? Não se poderá alternar o poder em Angola pela via eleitoral?

BJD – Isso não é bem um Golpe de Estado, como tal. A melhor via, na verdade, seriam as eleições, a fim de termos uma transição política pacífica. Só que no cenário político actual, isso jamais vai ser possível. Como José Eduardo dos Santos é perito em adulterar resultados eleitorais, a única via seria mesmo a população sair à rua e correr com ele.

F8 – Poderá ser instalado um processo disciplinar contra o juiz da vossa causa, Januário Domingos. Isso alegra-o?

BJD – É… do ponto de vista formal, é bem-vindo, porque o juiz teve uma conduta indecorosa durante todo processo. Nós víamo-lo a receber orientações via telefónica, durante as audiências, para dizer o que tinha que dizer. É curioso! Muito antes de termos sido condenados, eu disse a uma funcionária do tribunal que o juiz só tinha duas saídas: ser um herói ou vilão por nos condenar. Ele agiu puramente sob as ordens de José Eduardo dos Santos. Januário Domingos, pessoa que considero perverso, teve azar. Bem feito! O senhor humilhou muita gente, desde os nossos advogados aos membros da sociedade civil, que foram citados no âmbito do Governo de Salvação Nacional. Não acredito que ele passaria fome por abandonar José Eduardo dos Santos!

F8 – O que acha da lei da amnistia?

BJD – Eduardo dos Santos não quer provar a nossa inocência. Quer demarcar-se das indeminizações. A lei da amnistia é um acto de irresponsabilidade, a fim de lavar a imagem do regime. Dos Santos, ao propor esta lei aumenta ainda mais a desconfiança dos demais cidadãos nas instituições do Estado. Há casos que as autoridades jamais conseguiram dar solução e essa lei vai contribuir para o esquecimento dos mesmos.

F8 – Mas a limpeza da imagem não é normal, nesta fase em que o Presidente tenciona abandonar a vida política activa?

BJD – Devemos ter muito cuidado com aquilo que José Eduardo dos Santos diz. Ele é um camaleão. Muda de pele rapidamente, em função das circunstâncias. Hoje é preto, amanha é branco. Parece um homem bom, de poucas palavras. Mas na realidade é uma pessoa muito má. Alguém que diz que quer abandonar não devia candidatar-se mais. Mesmo que abandone, a estratégia vai ser deixar os filhos e amigos no poder! Tudo isso é uma mentira, vinda de um homem que não está bem de cabeça, apoiado por um comité de psicopatas partidários. A solução é mesmo destruir o MPLA completamente. A reforma nunca pode ser contínua, mas descontinua, a fim de evitar resquícios do passado.

“Eles não se preocupam com o povo, mas sim com a destruição do país e a delapidação das nossas riquezas. Dos Santos perdeu todas as oportunidades de um dia ser lembrado como um patriota e ser consagrado herói”

F8 – Acha que isso é possível?

BJD – Correr com Eduardo dos Santos não custa muito. Basta juntar 1.500 pessoas na rua, ele não estará mais ali! Se pensarmos que ele sairá de forma voluntaria, estamos a mentir-nos. Eles não se preocupam com o povo, mas sim com a destruição do país e a delapidação das nossas riquezas. Dos Santos perdeu todas as oportunidades de um dia ser lembrado como um patriota e ser consagrado herói! Vai ser relembrado como imbondeiro, podre, que jamais gerou algum fruto. Ele mata, rouba, mente, maltrata, para proteger os interesses dos filhos. Senão, porquê alvejaram o Rufino? Ele acha que a vida dos filhos é mais importante que a de todos os outros angolanos.

F8 – O que a morte do Rufino tem que ver com o Presidente?

BJD – Tudo. Não acredito que vão construir infra-estruturas para beneficiar o povo. Aquelas terras vão ser entregas a alguém que lhe é próximo, para fins privados. A população não foi viver aí à toa. O Estado devia indemnizar justamente as pessoas. Mas perece que o Estado angolano foi assaltado por pessoas estranhas, bandidas, estrangeiras ou não. E o general Wala, que devia estar na cadeia, está ai a vadiar normalmente.

F8 – A prisão prejudicou-o profissionalmente?

BJD – Sim, mas também me deu maior prestígio. Conseguimos fazer o mundo conhecer mais Angola, mobilizamos muitos apoios fora. Mesmo no seio do MPLA captamos alguns, pois há pessoas que nos incentivam, embora haja, ao mesmo tempo, quem é contra, como aquele bandido do Luvualo de Carvalho, que se aproveitou da cegueira de José Eduardo dos Santos para fazer dinheiro. Por outro lado, fiquei prejudicado porque tive de abortar a elaboração da monografia na universidade e a minha filha também teve de abandonar a escola, além de outros projectos que não puderam avançar, dado o meu enjaulamento. Mas estou muito satisfeito por ter postado o meu nome na história moderna de Angola.

F8 – Quanto ao embaixador Luvualo de Carvalho, não acha que foi nomeado por mérito?

BJD – Claro que não! Foi indicado fruto do “endeusamento” que faz do MPLA e do ditador José Eduardo dos Santos. É produto da bajulação e não da meritocracia! Sinceramente ele jovem, mas coloca-se numa posição infantil e irresponsável quando fala. Para mim, o verdadeiro embaixador itinerante é o jornalista Rafael Marques, que palmilha o mundo a fim de dar a conhecer os problemas dos angolanos.

“O que Rafael Marques faz é despertar os angolanos que a riqueza que o MPLA rouba é de todos nós”

F8 – Mas eles (o MPLA) dizem que a atitude de Rafael Marques suja a imagem de Angola!

BJD – Ele não suja o nome de Angola. Limpa. Sujo é Eduardo dos Santos e amigos, que passam uma boa imagem do país fora, mesmo as coisas estando mal cá. Rafael Marques tem tudo para ter uma vida luxuosa, mas preferiu vivenciar na pobreza, para estar junto da população. O que Rafael Marques faz é despertar os angolanos que a riqueza que o MPLA rouba é de todos nós. Para o regime, quando roubam ou matam, Rafael Marques devia bater palmas. É um absurdo!

F8 – Quais são as últimas palavras…

BJD – Para terminar, quero dizer que a mudança do país não dependerá de decretos-presidenciais, mas da consciência de mudança por parte de todos os cidadãos. Devemos ter a esperança de que é possível corrermos com José Eduardo dos Santos e vivermos bem. Não confiem na justiça angolana, são meras muletas ao serviço da ditadura. A luta não é apenas dos 17 activistas, que estiveram detidos. É de todos.

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