Mia Couto, escritor moçambicano e um dos maiores da Lusofonia, apelou hoje aos líderes políticos do país (mas o exemplo serve-nos a todos) para não usarem o povo como “carne para canhão”, considerando que o diálogo e a inclusão são elementos basilares para a paz em Moçambique.

“N ão nos usem como carne para canhão, não servimos de meio de troca”, disse Mia Couto no seu discurso da cerimónia de atribuição do título de “Honoris Causa” em Humanidades pela Universidade A Politécnica, que lhe foi conferido hoje em Maputo.

Num momento em que o país vive sob ameaça de confrontações militares entre o exército e a Renamo, o escritor destacou a importância da paz no quadro do desenvolvimento de um Estado que sofreu com uma guerra civil de 16 anos.

“Quem quiser fazer política que faça política, mas que não aponte uma arma contra o futuro dos nossos filhos”, declarou Mia Couto numa cerimónia que contou com a presença do Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e do antigo chefe de Estado, Joaquim Chissano.

“Os donos das armas precisam perceber que nós merecemos todo respeito e merecemos viver sem medo”, sustentou Mia Couto, acrescentado que as ameaças não são só para um único grupo, mas extensivas a toda a nação.

O escritor e ex-jornalista sublinhou a importância da inclusão na edificação do Estado, destacando que Moçambique precisa saber viver na diversidade, como forma de acomodar as várias ideias existentes.

“Queremos ajudar a construir uma nação que assume, sem medo, as suas diferenças e diversidades”, disse Mia Couto, alertando para as consequências da falta de tolerância política e da falta de diálogo.

“É difícil imaginar o quanto, mesmo ouvindo, podemos ser surdos. Escutamos os que estão próximos, os que nos obedecem, os do nosso partido, e dispensamos tudo o resto”, afirmou Mia Couto, elogiado o “novo discurso inclusivo” do Presidente moçambicano.

Mia Couto destacou ainda a importância social da literatura, considerando que o seu papel é o de manter vivo o sonho do povo, assegurando que a paz prevaleça em Moçambique.

“A literatura deve assegurar que o país respire em paz e possa sonhar”, declarou, acrescentando que “a guerra não permite que o povo sonhe”.

Mia Couto recebeu o título de doutor “honoris causa” em humanidades na especialidade de literatura, uma distinção que exige do condecorado domínio dos géneros literários e reconhecimento internacional como um autor que exalta os valores moçambicanos, segundo os estatutos da Universidade A Politécnica.

Com mais de 30 livros publicados, Mia Couto, 60 anos, é um dos escritores mais destacados da literatura em língua portuguesa, traduzido em várias línguas, incluindo alemão, francês, italiano e inglês.

O escritor é formado em Biologia e foi jornalista em vários órgãos de informação, incluindo a Agência de Informação de Moçambique e a revista moçambicana Tempo.

Este ano, Mia Couto fez parte dos dez finalistas do Man Booker International Prize, um dos prémios mais importantes do mundo literário e que foi vencido por húngaro László Krasznahorkai.

Em Junho, o escritor moçambicano recebeu das mãos do Presidente moçambicano a Medalha de Mérito de Artes e Letras, no quadro da atribuição de distinções a personalidades que se destacaram em várias áreas durante os 40 anos de independência do país, que se assinalaram a 25 de Junho.

Entre as várias obras publicadas de Mia Couto, destacam-se “Terra Sonâmbula”, “Se Obama Fosse Africano” e “O Último Voo do Flamingo”, esta última adaptada ao cinema.

O autor já foi distinguido com o prémio Virgílio Ferreira em 1999, prémio da União Latina de Literaturas Românticas em 2007, Prémio Camões em 2013 e o prémio Naustad International Prize For Literature.

Partilhe este Artigo