O comandante provincial da Polícia Nacional da Huíla, Albino Francisco de Abreu “Xaxá” garantiu ao F8 não ter a sua corporação, “em nenhum momento excedido o uso da força, contra alguns kupapatas e infiltrados numa pretensão manifestação” realizada na cidade do Lubango, protestando contra a proibição de exercerem a actividade de mototaxista no casco urbano da cidade.

Por Walter Tchipoya
Lubango/Huíla

“A missão da Polícia Nacional é a de manter a Ordem e Tranquilidade Pública no país, contra qualquer tipo de acto de vandalismo, como o ocorrido no Lubango, por alguns kupapatas, que destruíram bens imóveis, queimaram viaturas e pneus na via pública”, asseverou, o comandante Xaxá adiantando que, “num caso como este não poderia a Polícia ficar impávida e serena, enquanto os arruaceiros perturbavam a tranquilidade. Manifestação não é destruir bens de terceiros, que não têm nada a ver com a reivindicação”, afirmou.

Recorde-se que estes incidentes ocorreram devido a um despacho do executivo provincial, a limitar a acção dos mais de 1800 kupapatas, tendo montado “barricada contestatária” na zona do Cemitério do Alto da Mitcha e do maior Mercado da cidade João de Almeida.

“Esta situação causou uma grande enchente na cidade, perturbou a realização dos funerais marcados para aquele dia e a livre circulação de pessoas e bens, na zona do Mercado e artérias afins”, esclareceu.

Diante deste quadro, “a Polícia teve de intervir, com rapidez e serenidade, no sentido de repor a situação anterior, porque a continuar o caos poderia espalhar-se na cidade e a nossa missão não é essa, por esta razão agimos, com muita cautela”.

Instado pelo F8 a confirmar se houve mortes, o comandante provincial disse: “Na nossa acção, os nossos agentes, não causaram nenhum morto, nem ferido, para aferir a cautela que a Polícia teve nesta manifestação, que não foi, nada mais nada menos, que uma assuada. Por esta razão 12 cidadãos foram presos em flagrante delito e aguardam julgamento criminal, pelos danos e tumultos causados”.

Para o comandante Xaxá a reivindicação dos mototaxistas, da forma como ocorreu, “não tem razão de ser, pois excedeu todos os limites do razoável, quando se podia chegar a um meio termo. Nós começamos, agora, a dar formação, pois a maioria nem as regras primárias de trânsito conhece, para além de trabalharem desencartados”, confirmou.

Enquanto autoridade e existindo, garante, “um elevado índice de acidentes causados pelos kupapatas, por estarem inabilitados, muitos, nem sequer a primeira classe têm para interpretar, correctamente, os sinais de trânsito, tivemos, em respeito a vida dos cidadãos de limitar a sua acção e iniciar cursos de formação. Eles dizem estar a ser muito lento, é possível, mas tudo se concerta, com diálogo e não com arruaça. Mas de uma coisa todos temos de estar cientes; devemos respeitar a lei, logo ninguém pode conduzir desencartado”, esclareceu o comandante provincial, Albino Francisco Abreu Xaxá.

Posição da AMOTRANG

Entretanto, o delegado provincial da AMOTRANG (Associação dos Mototaxistas de Angola), na Huíla, Enoque Victor está bastante preocupado pela sorte dos filiados, que se encontram na cadeia, acusados do crime de assuada: “Ainda não sei ao certo quantos estão presos, mas é sempre uma preocupação para nós”, afirmou ao F8, acrescentando que “a Polícia quando fez a detenção dos nossos kupapatas, não comunicou com a associação”.

Recorde-se haver, pelos dados da DPIC (Direcção Provincial de Investigação Criminal), “cidadãos presos que exerciam a actividade de kupapata, por distúrbios e destruição de bens patrimoniais na via pública”, garantiu o instrutor J. Pedro.

Para o delegado da AMOTRANG, que condena todo tipo de violência ela decorreu pelo facto da maioria, pressentir o pior, no caso, deixar de trabalhar e não saber o que fazer da vida, para alimentar as respectivas famílias.

O grande problema “é o desespero, pois, neste momento ainda ninguém tem licença de condução, porque a Viação e Trânsito ainda não entregou as cartas de condução de motociclos e motorizadas, aos primeiros examinados”, explicou Enoque Victor.

Outro problema é o de haver rumores de a maioria não poder fazer as provas, por fraco ou nenhum nível de escolaridade, o que para a Polícia, fica difícil condescender neste campo, mas os homens da AMOTRANG esperam poder haver um meio termo, para se impedir um outro problema social.

“Muitos deixaram a má vida, quando compraram moto que lhes permite ganhar a vida honestamente. Se tiverem de deixar alguns podem ser aliciados pelo mundo da droga e da delinquência, por esta razão todos deveríamos sentar a uma mesa, para encontrarmos uma solução que não seja tão radical”, afirma Enoque Victor.

Neste momento, para além dos dados oficiais, estima-se que o Lubango tenha mais de 1800 cidadãos que exercem esta actividade liberal, muito pelo encerramento do parque industrial e da fraca produção nas zonas agrária, pastorícia e mineira.
“Estamos numa formação desde 2013, onde tivemos os primeiros 151 alunos. O grupo inicial foi examinado no dia 28 de Novembro de 2014, mas ainda não receberam as cartas. Encontram-se na mesma situação os que acabaram nos dias 09 e 10.12.14”, esclareceu, adiantando o facto de estarem a fazer esforços, junto da Delegação do Interior e Viação e Trânsito, “na tentativa de resolvermos a questão de maior celeridade nos exames daqueles que têm condição académica, para poderem estar legalizados e trabalhar sem problemas na cidade e arredores”.

A AMOTRANG não deixa de reconhecer haver alguma razão da parte das autoridades governamentais, pois muitos kupapatas não têm sentido de responsabilidade, não respeitam os sinais de trânsito, andam em sentido contrário, causando alguns acidentes que poderiam ser evitados, caso passassem numa escolar de condução, “principalmente por serem motoqueiros profissionais e transportarem seres humanos. Mas por causa de uns não se pode afectar todos”.

Terá sido pelo elevado número de acidentes, no casco urbano, que as autoridades provinciais decidiram limitar a sua circulação. “O motivo de tudo foi mesmo na interpretação do despacho do governador que dizia não precisamos dos motoqueiros na cidade”, explica Enoque Victor.

E neste “quid pro quo” nasceu uma manifestação na defesa de um actividade laboral liberal. A defesa do direito ao trabalho, é fundamental e quando estes kupapatas se sentiram ameaçados de que perderiam o seu trabalho, em função de um despacho administrativo de limitar a actividade destes profissionais, apenas a periferia, melhor, aos bairros pobres, lá onde não há regras de trânsito a cumprir, nem asfalto para vencer, pois tudo é poeira, proveniente da terra batida, decidiram optar por defender-se. Resta saber se o fizeram nos limites ou excederam, a legitima defesa.

Ilustração: Folha 8

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