José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA, no poder em Angola desde 1975, admitiu hoje em Luanda a necessidade de o partido traçar nova estratégia política, económica, social, cultural e de segurança e defesa nacional.

Por Orlando Castro

J osé Eduardo dos Santos, também Presidente de Angola e chefe do Governo desde 1979 sem nunca ter sido nominalmente eleito, discursava na nona sessão ordinária do Comité Central do MPLA, tendo recordado que a actual estratégia é de reconstrução nacional e de recuperação económica.

Ou seja, é necessário um novo impulso para que os poucos que têm milhões (quase todos membros do seu clã) passem a ter mais milhões e, ao mesmo tempo, lutar para que os milhões que têm pouco ou nada assim continuem.

Para o líder dos angolanos de primeira, existe agora a necessidade de adopção de uma nova estratégia eleitoral e para alcançar os resultados, disse, será necessário preparar a renovação de mandatos de todos os órgãos de direcção, preservando a unidade e coesão no seu seio.

“Penso que as nossas escolhas devem basear-se em critérios de lealdade, lisura patriótica, disciplina, conhecimento, mérito e capacidade de produzir resultados”, referiu José Eduardo dos Santos.

As próximas eleições gerais em Angola devem ocorrer quando ele quiser, eventualmente em 2017, aguardando-se por uma clarificação sobre a eventual recandidatura presidencial por via não nominal de José Eduardo dos Santos, de 72 anos – a última possível à luz da actual Constituição – durante este ano. Admite-se que, por uma questão de perenidade monárquica, a Constituição seja alterada para que o mandato de Eduardo dos Santos seja vitalício.

Na intervenção de hoje, o líder do MPLA fez também referência aos confrontos entre a polícia e fiéis de uma “seita” religiosa, no Huambo, que a 16 de Abril provocaram nove mortos entre os agentes de autoridade e pelo menos 13 vítimas entre os seguidores, isto segundo as contas oficiais que, recorde-se, ficam a centenas do que é apontado, in loco, pela população envolvida.

Para José Eduardo dos Santos, esses acontecimentos indicam a existência de “pequenos focos de instabilidade e tensão” em algumas localidades do país por práticas religiosas e sociais contrárias que violam a Constituição angolana.

O Presidente esquece-se, contudo, de dizer que ele próprio é o primeiro a violar e a deixar violar a Constituição. É claro que admite-se, violações por parte do MPLA não são propriamente violações. São, quiçá, pequenos acertos.

Os membros do partido e as suas organizações sociais foram chamadas a continuar a condenar esses actos, a realizar campanhas de educação cívica e manifestarem repúdio contra as tentativas de colocarem em causa a paz e estabilidade social e a unidade nacional.

No encontro de hoje do Comité Central do MPLA vão ser apreciados o relatório de balanço da comissão nacional preparatória do V Congresso Extraordinário do partido, o projecto de bases gerais para a preparação e realização do VII Congresso Ordinário, entre outras matérias do foro da organização interna.

Enquanto isso, espera-se que o MPLA faça tudo ao seu alcance para que, pelo menos este ano, José Eduardo dos Santos ganhe um Prémio Nobel e seja considerado pela revista Time como uma personalidade de relevo mundial

Isto porque ele é, há décadas, o timoneiro de todas as qualidades e intervenções que mudaram o curso do mundo.

Francamente. Distinguir Putin, por exemplo, e esquecer o “escolhido de Deus” foi o ano passado um manifesto atentado contra uma personalidade, Eduardo dos Santos, que só em África deixa a quilómetros de distância dirigentes como N’Krumahn, Nasser, Amílcar Cabral, Senghor, Boigny, Hassan II ou Nelson Mandela.

Não fosse a “visão estratégica” do Presidente José Eduardo dos Santos e, reconheça-se, a democracia, a reconciliação, a igualdade, a liberdade, a equidade social já há muito tinham colapsado.

O mundo e a Time têm de perceber, de uma vez por todas, que também na economia, tal como em todas as outras vertentes da vida, e da morte, dos angolanos, Deus tem em Eduardo dos Santos o seu escolhido. Poucos são os que se podem gabar de chefiar um clã que representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto dos seus países.

Além disso, José Eduardo dos Santos não chegou ontem à liderança de um país que é um paradigma celestial. Ele, o nosso “escolhido de Deus”, está lá desde 21 de Setembro de 1979, quando foi investido no cargo, sucedendo a António Agostinho Neto, que tinha morrido poucos dias antes em Moscovo na sequência de uma intervenção divulgada como cirúrgica… no sentido clínico.

Capitaneados por aquele que deveria ser todos os anos a Personalidade Mundial, alguns angolanos continuarão a ser cada vez mais ricos e outros, pouco relevantes para o caso, continuarão a ser cada vez mais pobres. Embora seja assim há quase 40 anos, certo é que, como tudo na vida, não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe.

Até agora o líder do MPLA mostra que não brinca em serviço e que não descansará enquanto não for escolhido como personalidade mundial e, é claro, não conquistar um mais do que merecido Prémio Nobel.

Em abono do apoio que aqui manifestamos a José Eduardo dos Santos, lembramos que, de quando em vez, o Presidente revela um humor inaudito, visível quando exorta os seus súbditos a, nem mais nem menos, “não pactuar com a corrupção e com a apropriação de meios do erário público ou do partido”.

“Hoje é voz corrente equiparar a pessoa investida em funções políticas a um homem sem palavra, desonesto e sem escrúpulos. É necessidade absoluta assumir atitudes positivas que desfaçam essa imagem pálida e inconveniente de forma a dar credibilidade, valorizar e repor a nobreza da função dos dirigentes políticos”, diz Eduardo dos Santos com a mesma veemência com que, por exemplo, condena a cultura da morte ou do assassinato.

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