O desaparecimento de Afonso Dhlakama e a movimentação de artilharia para Gorongora empurram, tanto quanto parece, Moçambique para mais uma guerra.

Por Emildo Sambo (*)

A o afastamento de Afonso Dhlakama do espaço público e mediático, desde a última sexta-feira, após o ataque ocorrido na Estrada Nacional número seis, em Zimpinga, no distrito de Gondola, província de Manica, segue-se uma suposta movimentação de artilharia para Gorongosa pelas Forças de Defesa e Segurança (FDS), à semelhança do que aconteceu entre 2013 e 2014, aquando dos confrontos que terminaram com a assinatura do Acordo de Cessação das Hostilidades Militares, o qual foi praticamente atirado para o caixote de lixo em virtude da insatisfação de uma das partes signatárias, a Renamo.

Paulatinamente, estão a ganhar consistência as informações segundo as quais o Governo, aparentemente preocupado com o “sumiço” do líder da “Perdiz” e por este ser considerado uma ameaça à almejada paz – que não passa de um chavão político –, está a preparar-se para uma eventual incursão militar que possa estar a ser engendrada por Dhlakama, a partir de Sathungira, local onde se encontra, de acordo com o que tem sido veiculado, sobretudo em Sofala e nas hostes militares.

Um outro dado, ainda sobre Dhlakama, indica que ele saiu ferido num dos membros inferiores naquela emboscada; porém, António Muchanga, porta-voz desta formação política, desmente e assegura que o seu presidente “está bem e goza de boa saúde”, mas não diz em que lugar concreto se encontra. Sobre a saúde do líder da “Perdiz” já se disse muitas coisas durante o último conflito militar que cessou oficialmente em Setembro de 2014. Até como morto ele já foi dado.

Após o assalto à base da Renamo, em Outubro de 2013, liderado por Filipe Nyusi, que altura era ministro da Defesa, Dhlakama embrenhou-se na Serra da Gorongosa, local que passou a registar intensas batalhas diárias e mortíferas. As populações das comunidades à volta viviam preparadas para fugir até que um dia abandonaram efectivamente as suas casas.

Os reais danos humanos e materiais dessa tragédia são desconhecidos até hoje. A velocidade a que as coisas andam, em consequência da falta de entendimento entre o Governo e a Renamo, coloca Moçambique na iminência de mais uma guerra…

A tensão político-militar que persiste no país é o reflexo de que os problemas que opõem a Renamo ao Governo estão longe de serem resolvidos. Aliás, a 5 de Setembro de 2014, quando o antigo Presidente da República, Armando Guebuza, e Dhlakama assinaram o acordo de paz em Maputo, depois de vários “namoros” fracassados, ficou patente que o assentimento não punha necessariamente fim à violência, mas, sim, abria o caminho para a realização das eleições gerais que já estavam marcadas para 15 de Outubro do mesmo ano. Para além de receios, não faltaram avisos de que caso a “Perdiz” não lograsse êxito no processo desencadear-se-ia uma nova guerra, a qual já iniciou nos mesmos moldes da recém-terminada.

O “futuro de esperança, entre irmãos”, se cada um assumisse “as suas responsabilidades e os compromissos forem respeitados dia-a-dia nas palavras e nos actos”, a que Dhlakama se referiu naquele dia antes dos abraços e apertos de mão com Guebuza, parecem esfumar-se. A arrogância e as armas tendem a falar mais alto que as palavras e/ou o diálogo…

“Hoje é um dia muito importante para o nosso povo, que esperou pacientemente, sabendo que as soluções dos nossos problemas passavam pelo diálogo”, disse Guebuza, mas, na verdade, tudo isso, hoje, não passa de uma mentira perante o clima de incerteza que o país vive.

Enquanto isso, o condutor do minibus baleado mortalmente na EN6, num ataque atribuído ao partido Renamo pelo Governo e pelas suas forças militares, chamava-se Carlos Quipiço Guihole, pai de uma antiga atleta internacional moçambicana identificada pelo nome de Argentina da Glória, ora radicada na Itália, de acordo com o Diário de Moçambique.

(*) In Verdade

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