José Eduardo dos Santos pediu para a Comissão Eleitoral reduzir sua vitória em 1992 que, supostamente, teria acontecido de forma maioritária logo à primeira volta. A ideia era que Jonas Savimbi fosse à segunda volta, ludibriado pelo engodo. O líder da UNITA não foi nessa.

Por Orlando Castro

A história é contada pelo antigo secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos, Herman Cohen, e revela nas entrelinhas a forma como o Ocidente (sobretudo os EUA) fabrica vencedores, como manipula eleições, como elege os bons e derrota os maus.

Caído em desgraça no areópagos políticos e militares dos donos do mundo (os EUA), Jonas Savimbi passou de bestial a besta. Assumindo-se como virgem impoluta e santificada, os norte-americanos dizem de si próprios que são os melhores e, por isso, todos os que não estão eles são umas bestas. Herman Cohen diz mesmo que Jonas Savimbi teria sido um ditador “tirânico” se tivesse ascendido ao poder.

É perfeitamente típico dos norte-americanos. Ao longo dos anos todos os que fugiram à formatação dos EUA passaram a ser ditadores. Aliás, em Washington há dois tipos de ditadores: os bons e os maus. Os primeiros são os que aceitam a ditadura dos EUA.

Desta forma honorável, Herman Cohen mostra como em Angola, desde há 40 anos, as eleições são transparentes e fidedignas. Conta ele que José Eduardo dos Santos obteve mais votos do que foi oficialmente anunciado nas eleições de 1992. Talvez tenha até ultrapassado os 100%…

Na obra “The Mind of the African Strongman: Conversations with dictators, statesmen, and fahter figures”, Herman Cohen escreve que, após as eleições no final de Setembro de 1992, se deslocou a Angola para se encontrar com o Presidente da República.

E o que lhe terá dito o Presidente de Angola que, embora esteja há 36 anos no poder sem nunca ter sido nominalmente eleito, continua a merecer as boas graças dos EUA? Herman Cohen diz que José Eduardo dos Santos receava que Jonas Savimbi não aceitasse o resultado das eleições.

“José Eduardo dos Santos implorou ao presidente da Comissão Eleitoral independente, um diplomata português, para baixar o total de votos conseguidos por ele de 51% para 49% – o único resultado tornado publico – para que Savimbi pudesse ter uma oportunidade de ir à segunda volta”, conta Herman Cohen.

E era uma Comissão Eleitoral independente. Já imaginaram se não fosse?

Ao contrário da verdade histórica, Herman Cohen diz que as relações entre os EUA e a UNITA se deterioraram a partir de então devido à recusa de Washington de classificar as eleições de fraudulentas, como foi exigido – e provado – por Jonas Savimbi.

Herman Cohen não diz, contudo, que no dia 16 de Outubro de 1992, Jonas Savimbi, em nome da UNITA, aceitou – apesar de os considerar fraudulentos – os resultados das eleições para evitar o impasse e o regresso a guerra. Herman Cohen também não diz que as maquinações no sentido de voltar a impor o cenário de 1975/76 tinham amadurecido e que o MPLA pôs em marcha a sua estratégia de genocídio politico-tribal, massacrando dirigentes e quadros, assaltando e espoliando todo o património da UNITA.

Savimbi foi derrotado eleitoralmente porque era essa a estratégia mais conveniente para os EUA. Isso mesmo foi dito, preto no branco, pelo então Secretário de Estado norte-americano, James Baker, que, clara e inequivocamente, disse a Herman a Cohen que, com o fim da guerra fria, “a UNITA tinha deixado ser uma questão política relevante para o governo dos EUA”.

Prova igualmente inequívoca da hipocrisia dos EUA é dada pelo próprio Herman Cohen quando diz que “tínhamos sido inteligentes em fazer os acordos quando os fizemos”, acrescentando que a evolução política justificou que os norte-americanos “esquecessem a UNITA”.

De qualquer modo, até porque Washington começa a achar que o MPLA já deu o que tinha a dar, e que José Eduardo dos Santos não é eterno, Herman Cohen dá uma no cravo e outra na ferradura. É que nunca se sabe o que o amanhã reserva para Angola.

Vai daí, o antigo diplomata norte-americano considera que o presidente fundador da UNITA era “um dos mais carismáticos e sofisticados dirigentes africanos” que conheceu ao longo da sua carreira, dizendo mesmo que Jonas Savimbi tinha “um profundo conhecimento do povo angolano, especialmente das populações agrícolas da sua zona de origem”.

A lata de Herman Cohen vai ao ponto de falar de “sentimentos contraditórios” quando soube da morte do líder da UNITA: “Ao ver o seu charme e sofisticação ao longo dos anos, bem como a sua legítima revindicação de ser o único verdadeiro africano entre os diversos combatentes da liberdade (em Angola), senti que ele deveria ter sido presidente de Angola”.

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