Angola perdeu devido à política de bajulação. Angola tem mais portadores de HIV-Sida do que desportistas. Realismo, corrupção e lavagem de dinheiro. Desorganização foi a causa da derrota. Parabéns ao “querido líder” ficaram na mala das derrotas. Mas os nossos atletas estão de parabéns. Assim é impossível fazer melhor.

Política de bajulação

F oi assim que às 22h55 do dia 30.08.15, encerrou o campeonato de basquetebol masculino, com a convincente vitória da Nigéria 74 (em 38 campeonatos, conquista o primeiro trofeu), ante a campeoníssima Angola – 65 (detém 11 títulos).

Para a Angola dos bajuladores, que atribuem tudo a José Eduardo dos Santos quando se ganha, foi um autêntico balde de água fria esta derrota, pois ela vem destapar a ausência de uma política desportiva séria ao longo dos 40 anos de independência Nacional.

Queriam uma vitória para os ajudar a limar a crise da má governação, mas tiveram o contrário, uma derrota justa, aliada ao realismo da situação, para que não continuemos a viver de ilusões.

Mais portadores de HIV do que desportistas

O s títulos que se vêm conquistando, se quisermos ser realistas e rigorosos, são mais fruto do acaso, da raça, garra e técnica dos jogadores do que de uma verdadeira estratégia do Estado, tanto que a população desportista angolana representa (num universo de 24 milhões de habitantes), 0,03%, significando ser o país, um deserto desportivo, largamente superada pela população portadora de HIV-Sida, estimada em 2,4%, em 2014, com mais de 248,800 infectados.

Os sinais de que as coisas não iam bem na selecção começaram com a contratação de um treinador estrangeiro, desconhecedor do basquetebol nacional e africano, quando em Angola existe uma mão cheia de técnicos, muitos dos quais campeões africanos.

Os dois meses de estágio (maioritariamente) em Espanha, não foram pacíficos, pois os jogadores não receberam o subsídio de estágio (ajudas de custo), tão pouco os prémios atrasados de competições anteriores.

No início da competição os jogadores ainda tentaram uma negociação com a Federação e ou Ministério, mas a arrogância e prepotência dos responsáveis não teve a sensibilidade que a ocasião requeria, levando a que o arranque da equipa nacional, no dia 19.08, na prova máxima da bola ao cesto, não tivesse sido famoso.

No dia 22.08, com a pouca entrega dos jogadores no segundo jogo em que ganhou a Marrocos pela diferença de 1 ponto, colocava a nu a saturação pelas promessas não cumpridas, por parte do Titular do Poder Executivo, José Eduardo dos Santos.

No dia 23.08, face a este clima de tensão com os jogadores, que na sua opinião, faziam resistência às orientações técnicas, o treinador espanhol de 46 anos de idade, Moncho Lopez ameaçou bater com a porta, sendo dissuadido pelo Ministro da Juventude e Desportos, Gonçalves Muandumba, após cerca de duas horas ao telefone.

Depois foi uma longa sessão com os jogadores, colocando outros membros do executivo e antigos jogadores, todos apelando ao profissionalismo e patriotismo, com a promessa de que os prémios e os atrasados seriam repostos antes da fase final.

No dia 26.08, à boa maneira da governação angolana (óh Kangamba, estás perdoado – é uma prática institucional), seguiu para a Tunísia, o secretário de Estado dos Desportos, Albino da Conceição portando uma mala com cerca de três milhões de dólares (em dinheiro vivo), para pagamento de prémios atrasados de outras competições, sob alegação de o “camarada Presidente ter feito tudo, em tempo de crise”, para que nada faltasse aos jogadores e que eles eram parte do “lustro dos 40 anos de desporto, sob a clara visão do Presidente José Eduardo dos Santos”.

A verdade é que nos jogos seguintes, destacando-se o com a selecção do Egipto, houve uma relativa melhoria, mas os problemas da má gestão no Desporto em geral e no basquetebol em particular, ao longo dos 40 anos, não se apagariam com este paliativo, pelo contrário, teriam de mostrar ou agora ou mais tarde, não estarem alheios à crise.

No dia 30.08, período da manhã (dia da final), seguiram para a Tunísia um avião com membros do Movimento Espontâneo e dos comités de especialidade do MPLA, garbosamente uniformizados com camisolas “Parabéns Presidente José Eduardo dos Santos” e bandeiras do MPLA, na companhia do Ministro da Juventude e Desporto do MPLA, Gonçalves Muanduma, que levou na bagagem um “KIT BAJULAÇÃO-JES”, dizendo estar o “líder supremo” a acompanhar com redobrado interesse a competição, orientando para tudo fazerem em campo, visando uma retumbante vitória, para assim lhe oferecerem mais um título, por altura do seu 73.º aniversário.

A verdade é que essas promessas já não convencem muito a juventude, descrente num governo e governantes que não são sérios, tão pouco escravos das suas palavras.

Realismo, corrupção e lavagem de dinheiro

S ejamos realistas, pese isso doer aos mais fanáticos e bajuladores do templo, os 11 títulos nos campeonatos de basquetebol africano, não foram fruto de uma séria organização, empenho do governo ou do presidente da República, mas muito pela garra, determinação e técnica dos nossos jogadores e treinadores ao longo dos anos.

Senão vejamos; quantos campos de basquetebol existem no país que é 11 vezes campeão africano?

Não passam de 10, sendo que 5, estão em mau estado.

Quantos centros de treino de alta competição? Nenhum!

Nas províncias do Kunene, Kuando Kubango e Huíla, não existe nenhuma equipa, nem o fomento da modalidade, sendo estas regiões onde o nível de altura dos jovens é maior.

O Huambo, Benguela, Cabinda, Huíla que têm pavilhões gimnodesportivos multiusos, construídos para o Afrobasket 2007, cujo orçamento individual rondou os 6 milhões de dólares, num total global, incluindo zonas adjacentes, de 58 milhões de dólares, não tinham, nem têm uma equipa na alta roda do campeonato de basquetebol, constituindo-se estes em elefantes brancos, pois estão a disposição exclusiva dos respectivos governadores, para reuniões e casamentos dos membros e do MPLA, que apenas admite revesar com as igrejas, que idolatrem o presidente Eduardo dos Santos.

Outros dois pavilhões, para ego do líder do regime, no Namibe e Malanje, províncias sem actividade desportiva mediana (não têm equipas no primeiro escalão de nenhuma modalidade), foram construídos aquando da organização do campeonato do mundo de Hóquei em Patins e Torneio Internacional Zédu, gastando-se 16 milhões de dólares, em 2013.

Recorde-se que ainda naquele mesmo ano e para o mesmo fim, em Luanda seria erguido, por uma empresa chinesa (quem mais poderia) o pavilhão multiuso do Kilamba, orçado em mais de 40 milhões de dólares.

O caricato e criminoso é este monstro tendo custado tão caro aos cofres públicos, estar encerrado a mais de um ano, quer dizer, não realizou nenhuma actividade desportiva, mas tem custos de manutenção fixa anual de USD 500.000,00 (quinhentos mil dólares), convertendo-se de pavilhão Multiuso para “SEMUSO”.

Numa só palavra, o Desporto converteu-se, também, numa grande central de corrupção e lavandaria de lavagem de dinheiro, não espantando pois que o Girabola (campeonato da 1.ª Divisão de Futebol) gaste por competição cerca de 100 milhões de dólares, não conseguindo ter equipas na alta esfera das afrotaças, enquanto a República Democrática do Congo, gastando cerca de 30 milhões, tenha com regularidade 4 equipas nas fases finais…

Desorganização foi a base da derrota

N ão há causa sem efeito e temos de reconhecer que, para a actual derrota dos bravos e heróis basquetebolistas de Angola, no dia 30 de Agosto de 2015, ante a Nigéria por 65-74, muito contribui a politização e partidarização do Desporto, por parte do partido no poder, que avoca a si todas as vitórias e feitos desportivos, “face à clarividência do camarada Presidente José Eduardo dos Santos”, mas nas derrotas todos viram a casaca, atribuindo-as exclusivamente aos atletas e equipa técnica, como agora ocorrerá (ou será excepção).

Uma partidarização quase abjecta, que transforma todos os ícones em deputados da bancada parlamentar do MPLA, mesmo que de política percebam pouco mais que uma bola ou um “viva camarada”, como são os casos de Saturnino Jesus, Palmira Barbosa, Jean Jackes da Conceição, Gustavo da Conceição, Akwa, Almeida, entre outros…

Uma vergonha, que não torna um partido, como o MPLA, maior, nem nobre, mas egoísta e sectário, roubando o sentimento de cidadania a atletas que devem ser ídolos de todos e não apenas de uns.

Na realidade, os basquetebolistas, no seu nacionalismo e patriotismo, souberam honrar os angolanos no geral, com brio e espírito de entrega, mas numa altura em que o país está a viver momentos difíceis devido a má governação, inflação, falta de dinheiro nos bancos, salários em atraso, aumento de injustiças, discriminação e assassinatos selectivo, eles não poderiam ficar indiferentes, pois têm amigos e familiares nessa condição.

Como jovens, talvez tenham transportado, para a quadra de jogo, também, esse clima de tensão, face os últimos acontecimentos políticos, onde a violência sobe de espiral.

Será que muitos, face aos incumprimentos dos governantes para com eles, não sentem a arbitrária e ditatorial prisão dos 15 +1 jovens políticos, acusados de tentativa de golpe de Estado, pelo regime de Eduardo dos Santos, por estarem reunidos a ler um livro, com 12 lapiseiras, três blocos de apontamentos, um lápis de carvão e uma pen drive?

Ou não tenham sentido o espancamento a que foram alvo, as mães e mulheres dos mesmos 15+1, pela Polícia Nacional do MPLA, por pretenderem manifestar-se, ao abrigo do art.º 47.º da Constituição, em prol da libertação dos filhos e maridos?

Será que estavam distante do que está a acontecer a José Marcos Mavungo em Cabinda? Acusado por um crime não cometido, sem provas, salvo uma estapafúrdia afirmação de uma governadora do MPLA e preso há mais de dois meses?

Ou será que o massacre do Monte Sumi, onde forças policiais e militares do MPLA, assassinaram mais de 700 pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, não afecta o rendimento destes jovens campeões, quando uma pequena elite, corrupta, roubando dinheiro público, enriquece sem justa causa, fazendo muito menos que eles?

O F8 dá os parabéns a selecção nacional de Basquetebol, na convicção que no desporto nem sempre as derrotas em campo, constituem o mesmo fora dele, face a grandeza dos atletas. Vocês, são, para a maioria dos angolanos grandes e verdadeiros embaixadores da marca ANGOLA, pois não têm as mãos sujas com dinheiro de sangue, nem com corrupção.

Por tudo isso é hora de se repensar não só na organização desportiva, como na sua despartidarização, dando-lhe uma lufada de cidadania.

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