Notícias difundidas recentemente asseguram o navio-tanque Kerala tinha sido obrigado a “dar a volta por baixo” à sua epopeia de baixíssimo cariz e fora recuperado pelas autoridades angolanas junto dos aventureiros do Golfo da Guiné que o tinham sequestrado no dia 18 do mês de Janeiro de 2014.

Por António Setas

S ó que as perdas para a Sonangol atingem o valor de 800 milhões de kwanzas”, disse o PCA da companhia, Francisco de Lemos, acrescentando que tal prejuízo se devia ao facto de “o navio ter sido recuperado apenas com 78 porcento das 60 mil toneladas de gasóleo que transportava”.

A resposta à pergunta que continua a pairar sobre as mentes dos desconfiados angolanos ainda não foi dada. Muita nebulosa subsiste, perante a prudência verbal das autoridades do país, leia-se falta de clareza na narrativa do golpe e ausência de informações sobre as eventuais sanções que deveriam atingir os “piratas.

Eis o que nos resta como explicação do que realmente se passou.

No passado dia 18 do mês de Janeiro do ano em curso, o navio tanque Kerala, com pavilhão liberiano e tendo a bordo, à parte os 27 tripulantes de nacionalidades filipina e indiana, um carregamento de gasóleo pronto a vender destinado a ser entregue à Sonangol, sumiu como que por encanto de todos os contactos rádio com os postos de escuta em terra.

Nessa altura encontrava-se a 7 milhas da costa e aprestava-se a receber ordem para atracar no porto de Luanda a fim de fazer a entrega do combustível que carregava e cujo valor ronda os 75 milhões de dólares, segundo informações recebidas pela própria petrolífera angolana que o tinha fretado.

Na esteira desta notícia, veio outra, segundo a qual o Kerala teria sido vítima de um acto de pirataria… ”Ai Jesus”!, veio de lá a correr o porta-voz da Marinha de Guerra angolana, capitão Augusto Alfredo, a dizer alto e nas pontas dos pés que não senhor, não é nada disso, a tripulação do Kerala simulou um sequestro em conluio com um rebocador que já protagonizou outras acções semelhantes ao largo do Gabão, em 2013. «Portanto tudo não passou de uma simulação(…)», frisou.

«Abrenúncio!», fez a proprietária do navio, a DynaCom Tankers, com sede na Grécia. «Piratas sequestraram o navio junto à costa angolana e roubaram uma grande quantidade de carga pelo sistema STS ship-to-ship (75 milhões em gasóleo pronto a vender!!!). Os piratas já desembarcaram», pôde-se ler no comunicado divulgado pela DynaCom, a qual acrescentou em seguida que autoridades internacionais e agências de informação experientes em incidentes de pirataria já tinham sido chamadas para subir a bordo do navio a fim de «recolher informações e provas forenses» do sequestro ao largo de Angola.

Estes são os factos e é de reter o seu lado inacreditável: fosse sequestro ou simulação, o desaparecimento do Kerala, monstro de 60 mil toneladas, carregado de gasóleo, deu-se a 7 (sete) milhas da costa angolana, quer dizer, aqui à vista do gentio e das autoridades ribeirinhas, em serenas águas territoriais da República de Angola! Não há modo de comentar esta “peça”!

Esta entrada em matéria revela apenas duas versões que se contradizem e agora só nos resta a esperança de poder ver, ouvir e entender o que se vai passar (o que se passou foi praticamente nada de concreto!). O objectivo assumido pela DynaCom, proprietária do navio, no que toca à recolha de provas forenses da presença de piratas do mar a bordo do navio, era «levar perante a justiça os que perpetraram este crime» contra o navio e a tripulação.

Cuidado!, se ficasse confirmada a presença de piratas do mar no navio, caía por terra a tese das autoridades de Angola, que afirmavam ter havido apenas uma comunicação entre o Kerala e um navio-rebocador, não tendo ocorrido qualquer crime em águas nacionais angolanas.

Contudo, seja qual for a derradeira versão consentânea com a veracidade dos factos, que, eventualmente, poderiam ser comprovados, o que por enquanto retemos é mais uma exibição de “Banga Angolana”, cujo supremo mentor e executante impenitente é em geral o próprio Presidente da República, cujo hábito é dar brilho ao supérfluo e esconder o desastre do povo de Angola aos olhos do estrangeiro.

Desta vez, porém, não foi a José Eduardo dos Santos que se deveu mais um arroto de lagosta depois duma sardinhada de peixe avariado. O herói da propaganda, desta vez, foi a própria Marinha de Guerra de Angola, que teve a coragem e a patriótica “lata” de anunciar aos angolanos, à África e ao mundo que “Os nossos mares são seguros” (!?!?!?)…

Posto este poema opaco de política impressionista no ar, não podemos escapar ao comentário do Reginaldo Silva, que escreveu, «Sinceramente, não percebi onde é que está a segurança dos nossos mares. Mas como eu não sou marinheiro talvez esteja mesmo só “a ver navios” e a sonhar com ladrões… No dia em que as autoridades deste país assumirem que falharam redondamente em algum assunto, eu viro pirata…» Rsrsrsrs…

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