Isabel dos Santos é uma digna sucessora da mulher do rei português D. Dinis, a rainha Santa Isabel, que se tornou célebre – ao contrário da mulher mais rica de Angola e uma das mais ricas de todo o mundo – pela sua imensa bondade.

Por Orlando Castro

Isabel, a rainha, ocupava o tempo a fazer bem a quantos a rodeavam, visitando e tratando doentes, distribuindo esmolas pelos pobres.

Ora, diz a lenda que o rei (não Eduardo dos Santos mas D. Dinis), já irritado por ela andar sempre misturada com mendigos, a proibiu de dar mais esmolas. Mas, certo dia, vendo-a sair furtivamente do palácio, foi atrás dela e perguntou o que levava escondido por baixo do manto.

Era pão. Mas ela, aflita por ter desobedecido ao rei, exclamou:

– São rosas, Senhor!

– Rosas, em Janeiro?- duvidou ele.

De olhos baixos, a rainha Santa Isabel abriu o regaço – e o pão tinha-se transformado em rosas, tão lindas como jamais se viu.

A outra Isabel, santa segundo os cânones do regime do MPLA e o testemunho dos políticos portugueses, também já fez vários milagres, sendo o mais famoso o da multiplicação da fome dos angolanos em dólares com os quais comprou já meio mundo.

Por alguma razão o presidente executivo do Banco BIC Português, Luís Mira Amaral, considera Isabel (não a rainha mas a santa do MPLA) como uma deusa. E, note-se, é a opinião de quem, entre outras coisas, foi membro dos X, XI e XII Governos Constitucionais de Portugal e que ocupou os cargos de Ministro do Trabalho e Segurança Social (1985-1987) e de Ministro da Indústria e Energia (1987-1995), para além de ter sido deputado à Assembleia da República entre 1995-1999.

Certamente que, apesar das campanhas de reeducação levadas a cabo pelo regime angolano, muitos ainda se recordarão da violenta reacção de Mira Amaral à afirmação de Bob Geldof, feita em Lisboa no dia 6 de Maio de 2008, em que disse com todas as letras que Angola é um país “gerido por criminosos”.

Reacção lógica de quem sabe, embora não esteja interessado em saber, que o governo de Angola é uma cleptocracia, que o país é um dos mais ricos do planeta e que 200 pessoas controlam o país enquanto milhões vivem na miséria total.

Refira-se que Geldof disse apenas o que todos sabem, embora sejam poucos (sobretudo no âmbito da CPLP – Comunidade de Países de Língua Petrolífera, com Portugal à cabeça) os que os têm no sítio a ponto de o afirmarem.

Nessa altura, Bob Geldof falava na conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, organizada pelo Banco Espírito Santo e jornal Expresso, dedicando uma intervenção de cerca de vinte minutos ao tema “Fazer a diferença”, no fim da qual o então embaixador angolano, Assunção dos Anjos, abandonou a sala.

As verdades são duras e o então embaixador, depois ministro, não tinha outra solução. Não porque não soubesse que é verdade, mas porque o capataz do reino angolano, Eduardo dos Santos, lhe paga para dizer que é mentira. E paga bem.

“As casas mais ricas do mundo estão a ser construídas na baía de Luanda, são mais caras do que em Chelsea e Park Lane”, apontou Geldof, estabelecendo como comparação estes dois bairros luxuosos da capital inglesa.

Isabel dos Santos tem 41 anos e é filha de José Eduardo dos Santos e da sua primeira esposa Tatiana Kukanova, tendo nascido em 1973 na capital do Azerbaijão, Baku, uma antiga república soviética, país para onde o seu pai foi estudar Engenharia de petróleo e onde conheceu a sua mãe.

Filha do presidente vitalício de Angola, Isabel dos Santos viveu grande parte da sua vida em Londres, conheceu Sindika Dokolo, natural da República Democrática do Congo, com quem se casou em 2003, em Luanda. A festa do matrimónio custou mais de quatro milhões de dólares, contou com mil convidados, muitos dos quais estrangeiros e que voaram para a capital angolana em aviões especialmente fretados e sem carecerem de vistos.

A partir de 2008 Isabel dos Santos resolveu diversificar as áreas de negócio e apostou na hotelaria, petróleo, diamantes, bancos e telecomunicações. Em Portugal, entre outros negócios conhecidos e menos conhecidos, detém importantes participações, nomeadamente através da Santoro Finance no Banco Português de Investimento, no Banco BIC, bem como na Galp Energia e a na Nos. A sua fortuna em Portugal ultrapassa os 1,4 mil milhões de euros.

E se em Angola ser filha de quem é representa só por si a maior e única autoridade do país, nas terras lusas tudo caminha na mesma direcção. E se Alexandre Soares dos Santos, Américo Amorim e Belmiro de Azevedo têm o direito de ser os homens mais ricos de Portugal, porque carga de chuva José Eduardo dos Santos não terá o direito (e até o dever) de ser o mais rico de Angola através da empresa “MPLA & Governo de Angola, SA”.

Angola é um dos países lusófonos com a maior taxa de mortalidade infantil e materna e de gravidez na adolescência, segundo as Nações Unidas, mas isso é irrelevante se comparado com o facto, que a todos glorifica, de a filha do presidente de um dos países mais corruptos do mundo ser uma das mulheres mais ricas do mundo.

Aliás, muitos dos angolanos (perto de 70% da população vive na miséria) que raramente sabem o que é uma refeição, poderão certamente alimentar-se com o facto de a filha do presidente ser também dona dos antigos colonizadores.

Na verdade, o principal produto comercializado pela empresa “MPLA & Governo de Angola, SA” é o petróleo e este representa mais de 50% do Produto Interno Bruto de Angola, 80% das receitas estatais e mais de 90% das exportações.

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