O Congresso do MPLA concluiu que o partido está “mais forte, mais coeso e disposto a incrementar as suas acções para vencer qualquer desafio que tiver de enfrentar no futuro”. Ninguém duvida. A ideia é ficarem no poder aí mais uns 30 anos. Nada, pensam, os demoverá.

A avaliação é de quem sabe, é de quem manda, é de quem quer continuar a mandar, custe o que custar: o presidente José Eduardo dos Santos.

O presidente defende que o guia do povo, o MPLA, “mantenha a sua organização de base e trabalhe no sentido de as revitalizar, imprimindo novo vigor militante”. É assim mesmo. Nesse sentido, julgamos nós, poderia instituir a obrigatoriedade de se substituir a cédula de nascimento pelo cartão de militante.

José Eduardo dos Santos insistiu, conta o seu Boletim Oficial, “na necessidade de uma atenção redobrada aos comités de acção do partido, pois, só desenvolvendo a sua actividade a partir dessas estruturas é que o partido vai conseguir melhores resultados”.

Modéstia. Melhores resultados no país, numa altura em que já tem (quase) tantos militantes como angolanos existem, não será fácil. É claro que, honrando os seus pergaminhos, pode alargar esse quadro aos cidadãos de países vizinhos.

“Os comités de acção do partido devem ser organismos vivos e dinâmicos, que aplicam as directrizes e orientações superiores de forma criativa”, defendeu o líder do MPLA, mostrando que o substrato marxista-leninista está lá todo, pouco importando a maquilhagem que usa para dar a entender que quer o que não quer: um país democrático e um Estado de direito.

Diz Boletim Oficial, que “o presidente José Eduardo dos Santos elogiou a postura crítica dos delegados, que permitiu identificar falhas na actuação do partido, e também perceber as suas causas. Uma atitude de coragem”. São contudo, falhas menores. Se o MPLA já consegue que os mortos, que os ausentes, que os inexistentes, votem nele, não é propriamente uma falha não pôr os jacarés a votar no partido.

“Neste Congresso Extraordinário assumimos com coragem uma posição crítica, reconhecendo alguns dos erros e limitações registados na actividade desenvolvida pelo partido, fruto de uma certa burocratização e acomodação”, disse José Eduardo dos Santos, salientando que, em vez de diminuir, “essa atitude aumenta a credibilidade do partido na hora de fomentarmos o diálogo com os militantes, amigos e simpatizantes do MPLA e com a sociedade”.

A análise não é nova. Noutros tempos tinha razão de ser. Hoje não. Nesta altura todos os angolanos são do MPLA. Ponto final. Os que não são do partido do “querido líder” não podem, obviamente, ser considerados angolanos.

Escreve o Boletim Oficial que o líder do MPLA fez também um apelo a uma conduta exemplar dos militantes, a quem pediu respeito pelo património público e pela propriedade privada: “Devem ser os primeiros a exigir transparência em todos os actos de gestão”, defendeu José Eduardo dos Santos.

Ora aí está. Para os que gostam de chatear o “escolhido de Deus” dizendo que é um homem sisudo e pouco dado a humorismos, esta afirmação prova o contrário. O Presidente tem um refinado e diamantífero sentido de humor. “Transparência em todos os actos de gestão” é mais evoluída anedota do reino.

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