PRESIDENTE, QUER RECONCILIAR, IMPOR OU SUBMISSÃO DAS VÍTIMAS?

O Maio de 2026 foi-se. Mais um. A vala do Cemitério do 14, veio apenas acirrar mais as feridas. Romperam-se as cicatriz, de novo. A perfídia, lógica sionista continua instituição do regime. A nossa memória colectiva, foi mais uma vez, provocada, pelos “brutus”. Mas, continuaremos a resistir de coluna erecta, nunca como caracóis, até a verdade final, em memória do comandante Nito Alves e todos os mártires de 27 de Maio de 1977. Nunca os trairemos… 

Por William Tonet

A reconciliação não é, não pode ser uma palavra vã. Tão pouco uma imposição, às vítimas, embrulhada em retórica de reconciliação impositiva!

A reconciliação é algo muito sério, só alcançada com o transpor de várias etapas. A primeira é o cabouco de uma estrutura capaz de gerir as desconfianças, incorporadas nas emoções, recalcamentos e sentimentos fortes, que navegam nos “oceanos mentais” de milhares de desavindos, fruto de uma crise horrível, que deixou marcas profundas.

É preciso transpor barreiras neste caminho sinuoso, que não pode ser gerido como um parque infantil. Tem de haver pragmatismo, humildade, para se ter êxito, baseado na verdade, porque só ela liberta. O inverso é falácia!

Para se alcançar um verdadeiro estádio de paz social, deve-se adoptar a estrutura de um rio, que tem: nascente, corrente e embarcadouro.

A nascente é a maternidade, a assumpção da origem do problema. A corrente é o confronto de ideias, o expulsar pragmático e sincero dos ressentimentos, a conciliação e, o embarcadouro é o culminar de um tumultuado, mas emblemático processo que desagua na reconciliação.

Sem este navegar e o cruzar das canoas dos algozes e das vítimas não haverá nunca uma lamparina de reconciliação verdadeira. Eis o estádio de desnorte em que nos encontramos.

O 27 de Maio de 1977, não pode ser visto como um conflito de duas partes militares beligerantes. Não foi! A história exige, que se assuma isso, pelo menos, agora, no século XXI, 49 anos depois…

É preciso, que a direcção do MPLA, enquanto estiver na liderança do regime estatal, assuma, com frontalidade não ter havido, nenhuma  tentativa de golpe de Estado, por parte de Nito Alves. Primeiro ponto! Quem é militar sabe disso. Quem é político honesto, também. Segundo ponto: como dar um golpe de estado, sem uma companhia militar, órgãos de comando, armamento, meios móveis? Terceiro ponto: Não haver uma instituição pública que tenha sido atacada, invadida, tão pouco a Rádio Nacional tem registo de uma declaração dos acusados: Nito Alves, Zé Van Dúnem, Monstro Imortal, Sitta Valles, a apelar a subversão da ordem constitucional. Tudo falácia, para justificar o genocídio…   

O 27 de Maio de 1977, não foi, nunca será visto, por nenhum historiador, como um conflito militar. Tratou-se de uma querela política, meramente ideológica, em que uma parte, por incapacidade de argumentos ideológicos, detendo o controlo bélico (Agostinho Neto e pares) decidiu mobilizar as suas forças militares e de Segurança, para forjar cenários, incluindo de derramamento de sangue, para exterminar a outra (Nito Alves e companhia) parte.

Hoje, diante de muitas vítimas e familiares, fica patente, que quando o Presidente da República, João Lourenço no 26 de Maio de 2021, pediu desculpas públicas e perdão em nome do Estado angolano pelas execuções sumárias do 27 de Maio de 1977, não o fez como pedido genuíno, de consciência e do fundo do coração, mas baseado em muita desinformação. Mas também arrogância, sentimento de força e impunidade ilimitada do regime…

Cinco anos depois, a alegada Comissão para a Reconciliação em Memória às Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), não integra nenhuma verdadeira Associação de Sobreviventes do 27 de Maio de 1977. Mais grave ainda, nunca as partes, visadas, se reuniram, frente a frente, para expulsar o que lhes corrói a alma, para se projectar o alegado abraço e perdão.

Se assim é, tudo não passou de mais uma farsa. Uma tentativa de imposição de uma mentira, depois liderada por um órgão integrado por políticos arrogantes, traidores, bajuladores e imberbes de pacotilha, desconhecedores da história.

Estes acreditam, infantilmente, que pelo controlo, tal como em 1977, da máquina bélica, da justiça e comunicação social, serão capazes de vergar a consciência da maioria dos sobreviventes de um genocídio, que ceifou 80.000 vítimas.

Não conseguirão!

A imposição de uma retórica falsa, ainda que retransmitida várias vezes na comunicação social pública, mesmo sem direito ao contraditório, não conseguirá desmobilizar a vontade férrea dos sobreviventes, continuarem fieis depositários e defensores da verdade do 27 de Maio de 1977.

A honra e memória dos nossos camaradas, covardemente assassinados, sem direito a um justo processo legal, julgamento imparcial, será sempre defendida, mesmo que um dia só sobre um de nós, como sobrevivente.

Não ficaremos mudos, na defesa do caminho da verdade, por convicção de que a mentira, não se eternizará…

Ainda há tempo de se emprestar seriedade, se existir nobreza republicana e, o Presidente da República, pode, querendo, desprender-se dos mentirosos, inaugurar novas avenidas, aceitar ser salvo pela crítica ao invés de assassinado pelo elogio…

É hora de João Lourenço definir se quer deixar impressões digitais, na pedra, que transcendem a sua barricada política, o seu tempo ou marcas de passos na areia, que se apagam com o vento…

Porque, hoje, afigura-se, para a maioria dos sobreviventes do 27 de Maio de 1977, despojados a 49 anos de todos direitos adquiridos, como insignificante o pedido de perdão de 26 de Maio de 2021. Não teve efeitos na vida prática da maioria.

De tal monta que a valência da engenharia partidocrata do slogan: ABRAÇAR E PERDOAR, cinco anos depois da sua proposta está despida de eficácia. Os actores principais: membros da Segurança de Estado – DISA (carrascos voluntários ou involuntários) e vítimas nunca se encontraram, para iniciar um libertar dos recalcamentos, das “raivas”, na rota de uma verdadeira conciliação, rumo a tão almejada reconciliação.

Senhor Presidente, hoje, mais do que nunca, o país deve ser pensado longe de vaidades umbilicais e miopias mentais partidocratas, para que a maioria dos autóctones, cônscios de Angola, não ter sido, em 1975, parida como República, mas partidocracia ideológica, acreditar, ainda assim, haver uma réstia de sentimento da parte de quem de direito, para emprestar nobreza e solenidade ao sofrimento de milhões de vítimas, daquela que é a maior mancha de sangue na história do MPLA, enquanto partido do regime. 

A hora de ninguém desperdiçar mais uma oportunidade da tolerância “dos povos heróicos e generosos” parece ser esta!

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