“Gente pouco recomendável – Uma história real sobre poder, ganância e idealismo perdido” é uma obra assinada pela ex-directora de Políticas Públicas Globais do Facebook. “Este é o livro que Mark Zuckerberg tentou silenciar”. A autora, Sarah Wynn-Williams, é uma ex-diplomata neozelandesa e advogada que trabalhou durante sete anos no Facebook e decidiu contar o que por lá viveu num mundo económico e financeiro putrefacto e criminoso.
Por Norberto Hossi
A obra foi descrita pelo The New York Times como “um retrato feio e detalhado de uma das empresas mais poderosas do mundo” (poder que resulta não do seu valor ético mas do seu preço) e da autora ter sido proibida de promover o livro por uma decisão judicial pedida pela Meta, nos EUA.
E não é para menos: em pouco mais de 300 páginas, Sarah Wynn-Williams pinta um cenário muito pouco abonatório dos seus ex-colegas. De facto, como escreveu o Jornalista português Carlos Narciso, Facebook e Meta são sinónimo de “banditismo em território digital”.
Na Rádio Renascença, Daniela Espírito Santo, conta que Sarah Wynn-Williams “trabalhou sete anos no Facebook (agora Meta), tendo assumido, a partir de 2011, o cargo de directora de Políticas Públicas Globais. Nos primeiros capítulos, e depois de ficarmos a saber alguns episódios da sua infância, a autora explica que foi trabalhar para a rede social porque queria mudar o mundo. A trabalhar nas Nações Unidas, rapidamente percebeu que teria mais oportunidades para o fazer numa jovem plataforma que estava a tomar conta das manchetes do que propriamente a seguir uma carreira diplomática”.
Vejamos mais em pormenor o texto de Daniela Espírito Santo:
“Pedinchou um emprego no Facebook e, depois de alguma insistência, passou a fazer parte da empresa em 2009, pouco antes da plataforma ter conseguido angariar os seus primeiros mil milhões de utilizadores. Foi subindo de importância na hierarquia da empresa e ganhando cada vez mais influência, sobretudo junto de Mark Zuckerberg, o criador, e Sheryl Sandberg, directora de operações na Meta até 2022.
“O que se segue é, mais do que um sonho bonito de “mudar o mundo”, uma rápida descida ao mundo real.
“Estive lá durante sete anos e, se tivesse de resumir numa frase, diria que começou como uma comédia esperançosa e terminou em escuridão e arrependimento”, lamenta a autora, algures numa das páginas.
“Em pouco mais de quarenta capítulos, são várias as alegações de Sarah quanto aos líderes da empresa onde tanto quis trabalhar, com relatos a “pintar” as principais figuras da hierarquia da rede social como pessoas egocêntricas, com pouca noção do que se passava no planeta (para além dos EUA) e com um enorme desejo de crescimento da empresa, acima de tudo o resto e, de preferência, com poucos entraves externos. “Move fast and break things” (qualquer coisa como “Mexe-te rápido e parte coisas”) era, afinal de contas, uma das frases que adornava as paredes dos escritórios do Facebook.”
O livro acaba por focar-se, sobretudo, nas duas principais caras da Meta: Zuckerberg, o criador com fracas habilidades sociais e a que odiava diplomacia; e Sheryl Sandberg, naquele tempo uma influente defensora do feminismo, que a autora começa por idolatrar mas, mais tarde, acaba por desistir do encanto ao ser confrontada com o seu pior lado.
Os dois funcionam na trama como uma espécie de Daisy e Tom, o duo superficial, egocêntrico e “pouco recomendável” de “O Grande Gatsby”, que “destruía coisas e pessoas” e depois se “refugiava no seu dinheiro ou na sua imensa negligência”, enquanto deixava que “outros limpassem a confusão que eles tinham feito”. Se dúvidas houvesse da comparação, esta está longe de ser subtil: o nome do livro é inspirado numa citação da obra de F. Scott Fitzgerald.
Neste quadro, Zuckerberg não fica bem cotado, mas tal não seria novidade para quem acompanha o percurso do criador do Facebook ao longo dos anos. De polémica em polémica, praticamente desde a brincadeira de faculdade que acabou por dar origem à base da rede social, passando pelo escândalo Cambridge Analytica e culminando, mais recentemente, num apoio a Donald Trump que fez manchete e mudou a plataforma.
De resto, o multimilionário já tinha sido escrutinado no livro (e posterior filme) “The Social Network” e será novamente alvo de escrutínio em “The Social Reckoning”, inspirado na história de outra denunciante, Frances Haugen – filme que deverá chegar às salas de cinema em Outubro de 2026.
Quem, talvez, acabe por ficar menos bem na “fotografia” acaba por ser Sheryl Sandberg, embora a imagem positiva da executiva e filantropa também tenha sofrido no entretanto, vários (e duros) golpes. Sandberg começa por ser descrita pela autora como uma inspiração mas depressa acaba por desapontá-la. Ao longo da obra são contadas várias alegações que acabariam por minar a adoração de Sarah pela COO do Facebook, mas é o lançamento da obra “Lean In” que serve como gota de água na já periclitante relação profissional das duas.
No livro, lançado em 2013, Sandberg incentiva as mulheres a afirmarem-se no trabalho e a terem vontade de liderar. No entanto, relata Sarah, a verdade é que a sua promoção foi feita às custas de trabalho gratuito de muitas funcionárias do Facebook. “A linha que separava o trabalho no Facebook do benefício pessoal de Sheryl sempre foi ténue”, assegura Sarah, que acabou por ser usada como “complemento visual perfeito” para o lançamento internacional do livro (que, entretanto, já virou fundação).
“Se, por acaso, és uma mulher jovem, grávida e que serve como complemento visual perfeito para algumas das máximas, talvez descubras que as tuas obrigações com o livro vão para além da festa de lançamento”, reza um dos muitos relatos feitos por Sarah e que culmina com uma fotografia de Shinzo Abe, à altura primeiro-ministro do Japão, de “Lean In” debaixo do braço (a fotografia foi novamente partilhada por Sandberg após a morte de Abe, em 2022, mas não na altura pelo Governo japonês).
Poucos dias depois de terem saído as primeiras críticas literárias e no dia em que foi lançado oficialmente, a Meta conseguiu, através de uma decisão arbitral de emergência, suspender a promoção do livro da sua ex-funcionária, com a Associação Americana de Arbitragem a afirmar que a empresa sofreria “perdas imediatas e irreparáveis” se tal não acontecesse.
A editora do livro original, Pan Macmillan, defendeu o título, mas confirmou que “a autora foi impedida de continuar a participar na divulgação do livro”. “É um relato na primeira pessoa do que a autora testemunhou”, sublinhou um porta-voz, numa declaração ao britânico The Guardian. “Estamos empenhados em defender a liberdade de expressão e o direito dela de contar a sua história”, diz.
Pouco mais foi dito pela empresa sobre o caso, mas um porta-voz, Andy Stone, disse publicamente que o livro era “falso e difamatório” e que “nunca deveria ter sido publicado”.
BANDITISMO EM TERRITÓRIO DIGITAL
No dia 10 de Janeiro, o Jornalista português Carlos Narciso escreveu o texto que se segue, sob o título “Banditismo em território digital:
«Um jornalista luso-angolano ficou recentemente impedido de aceder à sua conta pessoal de Facebook. O nome associado ao perfil foi alterado, o acesso bloqueado. Quando a META passa o tempo a propalar que “defende os interesses da comunidade” não se refere nunca a este tipo de situações, em que, de facto, os utilizadores das redes sociais são afectados. O episódio não é excecional. É sintomático.
A Meta governa hoje espaços que funcionam como verdadeiras praças públicas, mas aplica-lhes regras privadas destinadas a defender os seus próprios interesses comerciais, unicamente. Essas regras são executadas por sistemas opacos e dificilmente contestáveis. Um utilizador pode ser penalizado repetidamente por alegadas “violações dos padrões da comunidade” sem saber exatamente o quê, quando ou porquê. As decisões acumulam-se; as explicações não. O problema não é técnico. É político, porque a META mistura os seus interesses comerciais com alinhamentos políticos, como se constata com as publicações que criticam as políticas genocidas de Israel, por exemplo.
Quando plataformas privadas podem bloquear identidades digitais, alterar dados pessoais e condicionar a atividade pública de cidadãos – incluindo jornalistas – sem transparência nem responsabilidade, o desequilíbrio de poder é evidente. A ideia de recurso existe no discurso, mas na prática dissolve-se em respostas automáticas.
Enquanto for assim, qualquer utilizador sabe que pode deixar de existir digitalmente de um momento para o outro, não por decisão judicial mas porque um sistema informático assim o decidiu.
Nos casos em que as contas de utilizadores foram tomadas de assalto por hackers, bandidos informáticos, umas vezes é para serem utilizadas em esquemas ilegais, normalmente burlas online, outras vezes apenas para evitar que continuem a publicar. É o caso de páginas pertencentes a jornalistas, que usam as redes sociais para ampliar o alcance do que publicam em meios de comunicação tradicionais.
O bloqueio da página de Orlando Castro pode ser um desses casos. Grupos organizados na defesa do MPLA e do Governo de Angola são os suspeitos de terem invadido a página e de a manterem sob ocupação. O certo é que o hacker se autodenomina Meta Centrol AI. Para as abordagens, estes piratas informáticos utilizam preferencialmente o Messenger. O que faz a META para proteger os utilizadores das suas redes sociais? Pouco. Disponibiliza uns formulários que a maioria desconhece existirem, demora a reagir ou reage com… silêncio.»


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