FRELIMO TEM UMA ESCOLHA: RELEVÂNCIA OU REPRESSÃO

Moçambique chegou a uma encruzilhada política. A FRELIMO tem agora uma escolha: manter-se relevante para o futuro democrático do país, ou continuar num caminho de perseguição que arrisca transformá-la num partido em guerra contra o seu próprio povo.

Por Solomon Mondlane

No centro deste momento está o próximo julgamento de Venâncio Mondlane, Presidente da ANAMOLA. Para os tribunais em Maputo, é um processo contra um homem. Para o povo, de Maputo a Rovuma, é lido de outra forma. É entendido como um julgamento contra o próprio povo.

O mesmo povo que a FRELIMO afirma ter votado no partido e no Presidente Daniel Chapo. Essa percepção não nasce do nada. Nas últimas semanas, vídeos do rescaldo das eleições gerais de 2024 ressurgiram e circulam amplamente nas redes sociais.

As imagens são cruas e implacáveis. Jovens a desviar-se de balas na Avenida 24 de Julho. Gás lacrimogéneo lançado em bairros de Nampula. Homens chicoteados em público na Sofala. Relatos de tortura em celas. Famílias que ainda perguntam onde estão os seus filhos e filhas.

Ao lado dessas imagens, outro vídeo tornou-se viral. Cidadãos desesperados, telemóveis na mão, a cantar nas ruas. Não é um cântico de protesto num comício. É um veredicto vindo do chão: Viva Mondlane!

«A FRELIMO rouba e mata a nação. Esta é a nossa terra. A FRELIMO rouba e mata a nação. Pertencemos a Venâncio.»

A letra é deliberada. Traça uma linha entre 1975 e 2026. Esta foi a FRELIMO de 1975, acarinhada pelo povo. Esta é a FRELIMO de 2026, odiada pelo povo.

Para muitos moçambicanos, a repressão não terminou no dia das eleições. Continuou em prisões, intimidações e agora no julgamento da única figura política que deu voz à revolta.

Com a perseguição a Venâncio Mondlane, o partido no poder deve ter pesado mais do que os processos no gabinete de um juiz. Deve ter pesado o custo político. Porque a realidade no terreno mudou. Venâncio não se tornou apenas candidato. Tornou-se um símbolo. Na ausência de confiança nas instituições, tornou-se luz.

E o povo, cansado e ferido, tornou-se o portador da lamparina carregando nas costas o peso da esperança, do luto e da resistência.

É por isso que este caso transcende um indivíduo. Quando um partido que governa há 51 anos decide criminalizar o seu oponente mais visível, envia uma mensagem muito para além da sala do tribunal. Diz à juventude em Cabo Delgado que o protesto será respondido com força.

Diz aos comerciantes na Beira que discordar tem um preço. Diz à diáspora na África do Sul e em Portugal que voltar para fazer política é perigoso.

A FRELIMO tem duas opções à sua frente. A primeira é insistir. Continuar com os julgamentos.

Fechar espaços. Apoiar-se nas forças de segurança e nas estruturas do partido para conter a pressão. Esse caminho pode preservar o controlo a curto prazo, mas a história em África mostra onde leva: a um Estado frágil, a mais pobreza e a instabilidade que transborda fronteiras.

A segunda é escolher a relevância. Reconhecer a crise de legitimidade. Abrir um diálogo real. Abandonar processos com motivação política. Permitir que a ANAMOLA e outras forças da oposição concorram livremente em 2028. Aceitar observação internacional sem interferência. Deixar que os tribunais sejam tribunais, não instrumentos.

Relevância não significa rendição. Significa liderança. Significa entender que um partido que libertou um país em 1975 não pode governá-lo para sempre pelo medo em 2026.

Moçambique não é um país pobre. É um país empobrecido por escolhas.

Gás em Rovuma. Grafite em Cabo Delgado. Carvão em Tete. Rubis no Niassa.

E, ainda assim, as escolas não têm livros e os hospitais não têm medicamentos porque o contrato social foi quebrado.

O povo sabe disso. É por isso que o julgamento de Venâncio Mondlane tem tanto eco. Não se trata de um homem. Trata-se de saber se as regras se aplicam a todos, ou apenas aos que estão no poder.

Se a FRELIMO quer continuar a fazer parte do futuro de Moçambique, deve parar de tratar a política como ameaça e começar a tratá-la como competição.

Deve parar de responder com algemas e começar a responder com políticas.

O povo está a observar. Das ruas da Matola às aldeias ao longo do Rovuma, a mensagem é clara: não se prende uma ideia cujo tempo chegou.

Venâncio tornou-se a luz. O povo pegou na lamparina. A questão agora é saber se a FRELIMO vai ajudar a carregá-la, ou vai tentar apagá-la.

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