A Igreja Católica angolana, bem nutrida na santa paz do senhor, recomenda a criação de uma mesa permanente de diálogo político e eleitoral, acreditando que o fim do conflito armado não trouxe uma verdadeira reconciliação no país.
AReconciliação Nacional e Desafios Eleitorais, Construindo Pontes para uma Angola Unida foi o lema do 1.º Congresso Arquidiocesano, que decorreu no fim-de-semana na província do Lubango, organizado pela Comissão de Justiça e Paz e Integridade da Criação da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST).
Conforme as conclusões e recomendações do encontro, hoje divulgadas, os participantes das dioceses (unidade territorial da Igreja Católica) do Lubango, Namibe, Ondjiva e Menongue concluíram – como se tivessem descoberto a pólvora – que ainda não há uma reconciliação efectiva no país.
Consideram que o fim do conflito armado não deu lugar a uma verdadeira e efetiva reconciliação entre todos os angolanos e angolanas, “continuando a persistir várias e graves formas de exclusão política, económica, social, cultural e ecológica”.
Apontam que continua a haver falta de cultura de diálogo político e resolução prática e justa de conflitos “que se agravam por altura dos períodos eleitorais”, salientando que o país precisa de ligar a reconciliação nacional à memória histórica e “aprender com o passado para reconstruir o futuro”.
“Há um abuso da exploração dos imensos recursos naturais do país e a mineração tem provocado alterações climáticas e conflitos sócio ambientais que são desafios à reconciliação nacional, à justiça social e à coesão social”, refere-se no comunicado final.
Nas conclusões, referem igualmente que a paz verdadeira é aquela que integra todos e assume-se como o novo nome do desenvolvimento e da justiça social.
Os participantes recomendaram a concretização de seis compromissos, a assumir pelos actores políticos e sociais, pelas organizações religiosas e cristãos e homens de boa vontade, nomeadamente o estabelecimento de um pacto nacional de não violência.
A constituição de uma mesa permanente de Diálogo Político e Eleitoral, como entidade mediadora de conflitos, e a exigência de transparência verificável dos resultados eleitorais para que a verdade eleitoral “seja apaziguadora de tensões e expressão da verdadeira soberania popular” estão entre as recomendações.
Recomendam ainda a promoção de actividades de esclarecimento e formação em matéria eleitoral de todos os que, em nome da reconciliação nacional, deverão intervir como observadores das eleições e a promoção de grupos de base de mediação e alerta/resposta rápida de eventuais conflitos.
Segundo a organização, o encontro, que encerrou no domingo, na província angolana da Huíla, surgiu na sequência do Congresso Nacional da Reconciliação, promovido pela CEAST nos dias 5 e 6 de Novembro de 2025.
Angola realiza – se assim quiser o MPLA – as próximas eleições gerais em Agosto de 2027. O Presidente do MPLA (nas vestes, por inerência, de Presidente da República), João Lourenço, que cumpre o último ano do seu segundo mandato presidencial, inaugurou em 14 de Outubro passado o Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos, dedicado à preservação da memória histórica e à homenagem às vítimas.
O presidente da União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA, maior partido na oposição que a muito custo o MPLA ainda permite), Adalberto Costa Júnior, que participou na cerimónia inaugural do monumento, criticou, dias depois, o Memorial, considerando que a infraestrutura não simboliza uma verdadeira reconciliação porque “criminaliza a UNITA e o seu líder fundador, Jonas Savimbi”.
Em Julho de 2025, os bispos católicos angolanos apontam o “alarmante” desvio de fundos públicos, a “escandalosa” expatriação de capitais e os “discursos vazios”, contrários à realidade do país, como “sombras e insuficiências” nos 50 anos de independência de Angola.
A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), na sua Mensagem Pastoral sobre os 50 anos de Independência de Angola, saudou o alcance da independência, em 11 de Novembro de 1975, apresenta constatações, sombras e insuficiências que persistem no país e faz apelos aos decisores políticos.
Para os bispos angolanos, a independência de Angola (saída dos colonialistas portugueses e entrada dos colonialistas do MPLA) foi o culminar de uma resistência permanente contra o regime colonial português e proporcionou liberdade aos filhos de Angola, resultando em incontáveis benefícios em vários domínios.
Por isso, o momento da independência “não correspondeu apenas à libertação do jugo colonial. De facto, foi grande a expectativa que o povo nutriu em volta da independência, que, diga-se em boa verdade, foi obra de todos os angolanos, acolhida e celebrada com muito entusiasmo em todo o país”, referem.
Para a CEAST, o alcance da paz, em Abril de 2002, findo o conflito militar, a construção e reconstrução de infra-estruturas destruídas no decurso do confito armado, nomeadamente escolas, hospitais, estradas, pontes, portos e outros “são luzes” que aplaude e de que se orgulha.
Observa, porém, aspectos que ainda devem ser mudados em Angola, para a garantia da justiça social e da igualdade de oportunidades, apontando igualmente para a necessidade de reparações.
“Neste contexto, não é descabida a exigência jubilar de reparação, doravante, das omissões e negligências cometidas, reparação das oportunidades perdidas, reparação dos talentos desperdiçados, reparação das expectativas frustradas, reparação das promessas desprezadas, enfim, reparação de tudo o que foi mau e não nos orgulha como nação”, aponta.
Na mensagem, de 14 páginas, sobre o percurso de Angola em 50 anos de independência, os religiosos dizem também constar muitas “sombras e insuficiências, que causaram escandaloso sofrimento ao longo dos cinquenta anos de independência dos angolanos”.
Sombras e insuficiências que “devem, necessariamente, ser superadas em benefício do tão esperado renascer da esperança, contra a frustração e o desespero que vão corroendo muitos (…) concidadãos”.
Apontam o que consideram de erosão da soberania ligada ao deficiente controle das fronteiras, conjugado com o contrabando e a purga de minerais, inertes, combustíveis e outros recursos, a deficiente política educativa e a falta de saúde de qualidade no país e nas famílias como insuficiências no país.
Assinalam também o deficiente saneamento e acesso à água potável, “o aberrante e alarmante desvio de fundos públicos, a escandalosa expatriação de capitais, enquanto ao pobre cidadão se pede sacrifício, o que revela falta de patriotismo”, como “sombras” de uma Angola independente.
Os bispos angolanos dizem constatar uma “escandalosa” lógica do oportunismo, do egocentrismo e da discriminação “que são a causa de muitos problemas sociais, entre os quais o elevado e penoso custo de vida para a vastíssima maioria dos cidadãos, tendo como consequência o descrédito das lideranças, das instituições e sendo sementes do espírito de revolta cada vez mais evidente”.
“Os discursos vazios, não reflectores da vida real dos angolanos nem para ela aplicáveis, quando um considerável número de angolanos vive na pobreza extrema, em contraste com uma minoria oportunista que vive no luxo exacerbado (…), contraste que tem empurrado muitos angolanos, sobretudo jovens, a emigrar ou a inclinar-se para a criminalidade”, afirmam ainda os bispos.
Consideram, por outro lado, que as múltiplas formas e níveis práticos de restrições à liberdade de expressão, em simultâneo com uma comunicação social, sobretudo pública, manietada e instrumentalizada por interesses nos quais a grande maioria dos cidadãos não se revê figuram igualmente entre as práticas que o país deve superar.
Lamentam a existência de um “sistema centralizado, autocrático e assistencialista de governação, que mata as iniciativas privadas dos cidadãos” e a lógica partidária “predominantemente eleitoralista, manifestando considerável desdém pelo povo”.
Apelam também para o reconhecimento de todos os pais da independência de Angola, nomeadamente Holden Roberto (FNLA), Agostinho Neto (MPLA) e Jonas Savimbi (UNITA), então líderes dos movimentos de libertação de Angola, “sem menosprezar nenhum para uma maior reconciliação nacional”.
“Não temos evidências de angolanos desejosos em voltar para o regime colonial português. Temos, sim, inúmeras evidências de angolanos desejosos de bem-estar proporcional aos recursos e potencialidades do seu país, Angola. Só construindo uma Angola melhor honraremos adequadamente o sacrifício de tanta gente de quem recebemos o legado da nossa independência”, concluem os bispos católicos.
